“O barulho das luzes, o contexto de vitória e o frémito próprio da idade alimentavam essa onda que aparentemente não teria fim. Já se faziam contas a uma fortuna que não era mais do que imaginada.

Novos começos, desafios constantes.

Depois de vários anos a colaborar com a JAP, em diversos programas, de diferentes faixas etárias, a inscrição no programa “A Empresa” surgiu como uma iniciativa que eu quis abraçar com todo o entusiasmo. Sendo este o programa “bandeira”, o conceito sempre me entusiasmou. O meu lado empreendedor inclinava-se constantemente para um desafio ao qual eu sabia que não podia fugir, o meu lado de advogado dizia-me que um projecto destes exigia um tempo e um compromisso que eu, conscientemente, não podia dispensar.

Parti para esta aventura com alguma altivez, devo agora admiti-lo com a humildade que o tempo sabiamente vai impondo. O bichinho do negócio, a ambição de entrar em tudo para ganhar, de não conhecer o “não” como um fim que esgota as alternativas –, volta o lado empreendedor (e até mais o de empresário) ao de cima –, diziam-me para ir com cautela e moderar as expectativas. É um facto, concluo eu, que o nosso sistema de ensino não prepara os alunos para este tipo de desafios, e por isso assumi, com manifesta arrogância, que isso condicionava de antemão a dimensão deste desafio. Pois bem, não podia estar mais enganado. Logo na primeira sessão, constatei ter diante de mim um conjunto de excepcionais empreendedores em potência que me mostraram ao que estavam. Na combinação perfeita entre o rigor germânico e o rasgo criativo latino, impressionaram-me com uma apresentação rigorosa e metódica, expuseram, sem temer, o caminho e o destino.

A viagem foi fantástica. Ao longo de meses trabalhamos em prol de um objectivo comum. A cada passo o fim parecia mais atingível. Vieram os prémios e o reconhecimento. Dentro e fora de portas a ICTUS era falada como um projecto de sucesso e que, diziam algumas vozes, não podia acabar ali. O barulho das luzes, o contexto de vitória e o frémito próprio da idade alimentavam essa onda que aparentemente não teria fim. Já se faziam contas a uma fortuna que não era mais do que imaginada. A tentação do negócio alimenta-se pela ideia de lucro e, mesmo à distância de um tudo que ainda não era nada, já se sonhava com isso.

As luzes baixaram, as vozes cheias de certezas desvaneceram-se com elas e, depois de tudo, ficou o que importa: uma ideia, um projecto e, principalmente, uma equipa fantástica, entretanto reduzida — danos próprios de um processo natural de selecção. Como empresário já antevia aquele momento, como voluntário impunha-se a minha presença. Era ali que se ia testar a resiliência destes empreendedores. Fora da incubadora, expostos a um mundo realmente competitivo, que não deixa muita margem para segundas oportunidades.

Injectei a dose suficiente de crença e de ambição e, como não podia deixar de ser, fiquei como mero observador. Sempre disponível mas sem intervenção activa. Sabia que o tempo ditaria um de dois desfechos: ou a ambição de um (ou de vários) não deixaria cair o projecto ou, simplesmente, a inércia faria com que ficasse irremediavelmente perdido. Neste processo, que se arrastou ao longo de mais de dois anos, partilhamos momentos, desabafos e expectativas, dizíamos em surdina que não podia ser. Acreditamos que só dependida deles e, aqui chegados, sabemos entre nós que valeu a pena. Não foi apenas pelo prazer de competir, longe disso, mas sabemos que mesmo assim teria valido a pena. (Cont.)

Porto, 20 de Janeiro de 2015 — Pedro Cruz Gonçalves (Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados)

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