#negritudenaveia
“Eu era escrava. Hoje sou livre”
por Raíssa Falcão

Quem olha Gabriela Azevedo, 25 anos, enxerga uma mulher valente, que assumiu o black e tem energia para enfrentar um exército. Os olhos são cheios de vida e o sorriso é largo, aberto e sonoramente alto. Quem poderia imaginar que Gabriela descobriu-se fortaleza há pouco mais de um ano? Quem poderia imaginar que Gabriela não se reconhecia em seu corpo, em sua cor, em seu nariz? Quem poderia imaginar que Gabriela não se amava?
O que Gabriela fazia com maestria era se rejeitar e, para conseguir conviver com aquele corpo e com aquela “outra pessoa”, ela se escondia atrás de um cabelo cheio de química e do sonho da cirurgia plástica no nariz. Gabriela achava que a felicidade chegaria se ela fosse outra, se ela fosse aquilo que diziam que era bonito e aceitável. Gabriela sofreu, e foi durante essa agonia que ela descobriu a beleza e a força que estavam há anos sufocadas.

“Hoje eu consigo ter orgulho da minha negritude, da minha cor, do meu nariz. Hoje eu bato no peito: sou mulher negra, sim, senhor!”
Gabriela conta que a ficha caiu quando tufos de cabelo começaram a cair por tanta química que usava. “Fui olhar umas fotos de quando eu era pequena e estava com meu cabelo natural. Pensei: meu cabelo é lindo. Eu não queria ser mais refém”, desabafa.
Gabriela cansou de lutar contra ela mesma. Era muita energia gasta em troca da aceitação de familiares e amigos. “Minha mãe e amigas diziam: se você pode escolher ter um cabelo bom, por que quer ficar com esse ruim?” Gabriela disse que procurou ajuda de meninas que passaram pelo mesmo dilema que ela. E foi no grupo Cacheadas em Transição, no Facebook, que ela se empoderou enquanto mulher negra. “Eu sempre ouvia no grupo o quanto eu era linda, o quanto meu cabelo era lindo. Eu acreditei e hoje me sinto linda.”

Gabriela foi convidada para um ensaio fotográfico e deu a ideia do nu. “Se eu amo o meu corpo, minha cor, meu cabelo, se eu me acho linda, por que não? O nu foi libertador pra mim”, conta.
Perguntamos qual dica ela daria para as meninas que não se aceitam e ela foi enfática: “Se amem. Ninguém vai poder te confortar se você não se ama. Esse papel cabe a cada um”.
O lugar do negro é onde? “O lugar do negro é onde ele quiser. E não existe ninguém que possa dizer o contrário. Eu sou livre!”