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Indicação ou imposição? Mulheres questionam conveniência médica para a realização de partos cesáreas

por Raíssa Falcão

Foto: Marília Alves

“Fui vítima do sistema. Eu confiei no médico. Eu estava com 10 cm de dilatação, o bebê estava encaixado. Era só esperar. Mas ele me indicou a cesárea. Quem sou eu para contestar um médico? Aceitei.” Assim começa a história de Danyelle Catini, 31 anos.

Mãe de três filhos, ela conta que o primogênito, Davi, não veio como havia planejado, mas a experiência garantiu a escolha consciente pelo parto domiciliar e foi com muita liberdade e paciência que chegaram as outras duas filhas, Giovanna e Isabella.

Foto: Paola Bianca

A mamãe de primeira viagem Kauana Resende, 26 anos, relata o discurso do médico que a acompanhou no pré-natal. “Tinha decidido pelo parto normal, no hospital e com o médico da minha mãe. Quando cheguei a 37 semanas, ele disse que o Théo estava muito grande pra sair.” Kauana conta que começou a ficar com medo, mas que tinha “asco” da cesárea. “Eu não me imaginava amarrada àquela cama de hospital.” O primeiro questionamento foi se o profissional faria a episiotomia — corte na região do períneo (área muscular entre a vagina e o ânus) para ampliar o canal do parto. “O médico me botou medo. Ele me magoou.”


Desejo X Praticidade

A pesquisa Nascer no Brasil, conduzida pela Fiocruz em 2014, mostra um dado significativo em relação ao primeiro desejo das mães que estão gestando: mais de 70% das brasileiras optam pelo parto normal, vontade que não condiz com as estatísticas de partos no Brasil, como mostramos aqui. Deste modo, uma pergunta se faz oportuna: Em que momento esse desejo é invertido e, assim, guiado pelo medo e pelo terror feito dentro de consultórios médicos?

Foto: Marília Alves

A obstetra Maria do Socorro, da Maternidade Brasília, ressalta a importância da figura do médico ao responder as dúvidas das gestantes em relação ao parto. “A mãe deve ser esclarecida pelo profissional. A vontade da mulher gestante tem de ser respeitada. Por falta de informação e com medo da dor, as mulheres optam pela cesariana.” Ela conta que decidiu duas vezes pelo parto natural, sem anestesia. E também abdicou de métodos alternativos para alívio da dor, como acupuntura, banhos quentes ou massagens.

No parto natural é impossível mensurar a duração do trabalho de parto. “Eu tive a primeira contração e o Théo veio nascer quase 29 horas depois”, conta a mãe Kauana. Já na cesariana, é possível estimar o tempo de uso da sala cirúrgica e posterior liberação para a realização de outro procedimento. De modo, que cada hospital pode estabelecer o número de nascimentos que acontecem em cada turno do expediente, por meio do agendamento das cesarianas pré-agendadas.


Profissão: Parteira / Formação: Parteria

Foto: Marília Alves

“Minha opção por ser parteira veio da percepção de que, como uma profissional que acompanha o parto, eu poderia estar trabalhando a saúde mental da criança e da família que é acompanhada desde a gestação.” Carla Panetti, 40 anos, é psicóloga e enfermeira. Aproximou-se da profissão com calmaria e firmeza. E o encontro trouxe frutos. A parceria com a auxiliar de parteira e enfermeira obstétrica em formação Marcela Gertrudes, 26 anos, rendeu e hoje elas formam o Parto Artesanal. “Quando eu conheci esse mundo fora dos hospitais, me encantei. A mulher tem o poder de fazer a própria história e não ser guiada só pelo médico.” Carla garante a segurança do parto. “A gente une o que temos de tecnologia com os saberes tradicionais e contemporâneos.”

Paloma Terra, 39 anos, é parteira há oito. Qualificada internacionalmente pelo Registro Norte Americano de Parteiras (NARM) conta que a formação teve uma forte base prática. “O curso que fiz se assimila ao método de ensino da Faculdade de Saúde do DF (FEPECS). Há a premissa de que o profissional de saúde aprende com muito mais eficiência na prática.” Paloma atua no DF há cinco anos, sob o nome Nascimento Consciente. “Acredito no modelo de assistência das parteiras. Acredito que contribuí com a diminuição das cesáreas desnecessárias no Brasil.”.


Acompanhamento

A parteira Clarice Andreozzi, de 40 anos, conta que o trabalho de acompanhamento das gestantes em relação ao pré-natal médico é essencial. “A gestante faz o que é de rotina. Assim, nós podemos detectar se temos em nossas mãos uma gestação de alto ou baixo risco.”

A auxiliar de parteira Marcela conta que ela e a parteira, Carla, fazem um pré-natal paralelo ao do médico. A dupla trabalha a gestante e a família. “Procuramos fazer um vínculo com a mulher e com a família. Entendemos a dinâmica e a história deles”, diz Carla, que se define como “elenco de apoio” no cenário do parto. “Minha função é garantir que tudo flua dentro da fisiologia; dentro do processo natural. Zelamos pelo baixo risco, que vai até depois do parto do bebê.” As meninas contam que recebem mulheres de até 30 semanas de gestação.

Já a parteira Paloma diz que a importância do vínculo entre profissional e gestante se insere em vários aspectos: físico, psicológico, emocional, cultural e social. “A assistência às necessidades específicas desenvolvem um vínculo que facilita a entrega da mulher e confiança no momento do parto.”

Foto: Débora Amorim

A psicóloga perinatal Luísa Barroca, do Hospital Brasília, afirma que o acompanhamento durante a gestação desenvolve na mulher a confiança na capacidade de parir. “A mulher que opta pelo parto natural tem o benefício de atuar como protagonista. O acompanhamento não fará a dor diminuir, mas ajuda a transformar a sensação em sentimentos positivos.” A psicóloga comenta que os benefícios psicológicos são incontáveis, mas aponta o ganho de confiança e um forte vínculo entre mãe e bebê.

Ainda segundo a parteira Paloma, é uma grande honra atender a partos. “Pra mim é a maior emoção. É uma profunda reverência à capacidade feminina de gestar e parir. É uma profissão de serviço ao próximo.”

Continua…