As histórias que deixamos de contar

Quando foi que deixamos de contar boas histórias? A culpa é do ensurdecedor tic tac ou somos nós que esquecemos como contar boas histórias? Aonde mora o limiar das incertezas?

Sempre gostei de escrever. Descobri que tinha algum jeito desde muito jovem. Gostava de escrever histórias que talvez dariam algum mangá. Mas com tempo a poeira aumentou e os escritos ficaram cada vez mais difíceis de serem pegos sem derrubar alguma coisa que estava na frente. A pasta vermelha cada vez mais rasgada e mal acabada e os papeis amarelados e marcados pelo tempo. Crescer, às vezes, destrói sonhos.

Pegava algumas vezes as velhas histórias que já mostravam sinais de cansaço e as folheava achando engraçado o tom de escrita infantil. Mas me sentia orgulhosa, afinal, algumas são geniais. Resolvi com o tempo escrever dois romances — minha meta até hoje — mas não bastava apenas traduzir o que pensava, sentia ou arquitetava. Sentia que precisava realmente saber escrever e para isso passei a publicar pequenas histórias e textos como este. Acreditando fielmente que experiência e domínio fazem parte de um Lego que montamos peça por peça, respeitando tempo e aprendizado.

Gosto de conversar com pessoas de diferentes conceitos e crenças, a fim de encontrar em palavras a experiência que procuro. Já ouvi muita coisa, críticas construtivas ou não. Mas o que me entristece, é que a maioria delas me indicavam caminhos que burlariam o alcance do estado da arte com alguma solução medíocre para escrever coisas que me dariam algum prêmio pobre e alguns livros vendidos. Os cursos que procurei eram caros e ofereceriam coisas como “Jornada do Herói” como se isso fosse realmente o “Santo Graal” da Literatura.

Por favor, leitor, não leve a mal. Jamais iria repudiar o estudo da “Jornada do Herói”. Se você doa tempo demais estudando a “Jornada do Herói” e nenhum aprendendo a narrar, apenas criará muletas que desgastarão com o tempo. E que certamente te deixarão manco, andando pelo deserto sem fim do arrependimento, desilusão e amargura. É preciso equilibrar a balança.

Se você gosta de escrever e já estudou um pouco que seja, sabe que não são apenas livros, mas filmes, séries e diversas publicações ou formas de comunicação que utilizam o conceito. E não são todas que atingem algum grau de qualidade. A busca desenfreada por uma fórmula de sucesso cegou e ofuscou a busca pela escrita. Sabemos que a “Jornada do Herói” não é culpada. Nós é que somos preguiçosos demais. Resultados rápidos nem sempre são resultados excepcionais. Técnicas, fórmulas ou estruturas precisam de textos com aptidão para coexistirem. Ninguém esquece aquilo que é bom.

Estou acompanhando um Dorama chamado The Heirs. Nele ouvi uma frase pertinente a este artigo:

“Quem quiser conquistar a coroa, tem que suportar seu peso.”

Revisão: Jota Fagner


Originalmente postado no Editoria Livre.
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.