O lado sombrio do empreendedorismo

Vijay Putra (pexels.com). Homem de máscara e terno com arma apontada na cabeça.

Sempre fui indiferente ao senso comum. Se algo está incomodando a ponto de prejudicar a saúde, mudo. E sem novo emprego em vista, foi exatamente o que fiz. No entanto, um mês procurando emprego é suficiente para inquietar alguém que possui responsabilidades de gente adulta.

Apesar do desassossego, mantenho-me em equilíbrio (e levemente imprudente). Sabia que precisava de um emprego mas estava alerta, afinal, conhecia o poder do meu currículo.

Antes de continuarmos, tenha em mente, leitor, que não sou a “Rainha do Balacobaco” no empreendedorismo. Apenas uma designer que gosta de contar histórias.

Pois bem. Enquanto navegava em minha caixa de e-mails deparei-me com um pedido. Alguém queria entrar em contato, por telefone, em horário específico. Logo pensei que fosse algum portfolio que havia enviado. Marcamos um horário.

Uma startup procurava profissionais para seu time de desenvolvimento.

O diretor de negócios me ligou para falar (vagamente) sobre a startup, seu negócio e experiência. Ouvi atentamente seu resumo de nível fundamental sobre o plano de negócio e o que almejava.

Claro que já havia navegado no website, que continha apenas algumas informações estratégicas. Identifiquei que foi feito com Mobirise. O desenvolvedor Front End não teve o cuidado de retirar o hyperlink do logotipo para o website da plataforma drag and drop.

Ao telefone, descobri que o website foi escrito pelo filho adolescente do homem que falava ao telefone. Me contou que o menino era responsável pela área, que era inteligente e talentoso — embora seu trabalho fosse arrastar elementos em módulos pré configurados. Um website é visto por várias pessoas. A WWW é território de vários juízes. A página, seu cartão de visita, era questionável.

Logo que encontrou uma brecha, me fez a pergunta clichê. Aquela em que temos que escolher se somos empreendedores ou escravos da CLT. É claro que mencionei que estava conversando com pessoas sobre uma possível startup — tive que deixar claro que nada tinha a ver seu modelo.

Minha desconfiança começou a surgir com a fala deliberada sobre a ideia que sustentaria a empresa. A descrição deveria ser prioridade. Ninguém informa a senha do banco para qualquer um. Poderia ser apenas uma pessoa má intencionada. Eramos dois desconhecidos. Cada um barganhando com o que tinha.

Boas ideias sem bons parceiros são como pão sem padeiro. Ninguém convida um desconhecido para sociedade, por telefone. Vejo o sucesso como amigo íntimo do equilíbrio e coesão. Os pães que você come pela manhã não foram feitos com a falta ou excesso de ingredientes.

Me senti em um processo seletivo comum. Não ganharia nada no início. Precisaria contribuir apenas com meu trabalho. Imagine o terror. Número infinito de sócios em uma empresa, equivalente ao número de pessoas que precisa para fazer a startup funcionar. Ninguém se conhece e todos tem poder de decisão. Como isso funciona de forma disciplinada na prática? Como você leva um exército à guerra sem nunca ter treinado com ele?

É claro que identifiquei vários abismos nessa história. Era óbvio que a sociedade era uma forma de dizer que trabalho justo não possui preço justo. Uma equação sem lógica.

Preciso do meu trabalho para pagar minhas contas e deixei isso bem claro ao indivíduo. Ele possui uma empresa para sustentar seus caprichos, eu não. E mesmo se tivesse, jamais jogaria para perder. Cobrei um valor coerente pelo meu trabalho. Se tudo saísse errado, ao menos havia trabalhado por alguma recompensa. Ninguém sairia perdendo.

Depois que fiz minha contraproposta, o sujeito deixou claro que ainda iria entrevistar outros candidatos e que havia alguém com melhor perfil que o meu.

Nunca pensei em aceitar a proposta. Seria insano demais até para eu, que sou contra maré. Apenas quis testar o adversário para compreender rapidamente com que tipo de pessoa estava lidando.

Nos despedimos após pouco mais de uma hora e meia. Agradeço até hoje por nunca mais ter entrado em contato comigo.

Preciso dizer algo mais para elucidar o título do artigo?


Originalmente postado no Editoria Livre.
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