Aldeia inaugura sistema de água encanada com energia solar e gestão comunitária

Implantado em mutirões com os moradores e apoio do Projeto Saúde e Alegria em parceria com o ICMBio, Tapajoara e financiamento da Fundação AVINA e Xylem

por Patrícia Kalil
 — especial para Rede Mocoronga

Cacique Leonoir mostra a água na torneira
“Estamos na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns, a terceira maior reserva extrativista do Brasil e a mais populosa. Mas não basta criar uma unidade de conservação. É preciso mostrar quem habita dentro dela, proteger e fortalecer seus guardiões: somos 20 mil pessoas em 74 comunidades, 26 delas indígenas. Mesmo assim, somos nós, com muitas parcerias, que estamos descobrindo caminhos para garantir direitos básicos como acesso à água". — Dinael Cardoso, presidente da Tapajoara, organização que reúne lideranças de todas as associações de moradores das comunidades da reserva

As crianças da aldeia formaram um círculo ao redor do cacique Leonoir e dos convidados Caetano Scannavino e Carlos Dombroski, do Projeto Saúde e Alegria (PSA). A professora Silvany Kumaruara, filha da curandeira Neuza Kumaruara, explicou: "esse círculo representa Kuraci, o Sol". Na sequência, chamou adultos da aldeia para formarem um outro círculo ao redor das crianças, simbolizando Ibáka, o Céu. Chamou, então, os convidados presentes para formarem um terceiro círculo para englobar os outros dois, o Parana-wasú, o grande rio. A curandeira Maria Suzete defumava o espaço. As crianças da aldeia começaram a cantar. Todos, convidados e moradores, de repente, seguiam a mesma coreografia, que se juntava no centro e voltava para a formação inicial dos grupos concêntricos.

Começava a festa de inauguração do sistema de abastecimento de água potável para uso doméstico na Aldeia Solimões, comunidade indígena com 44 famílias e 278 pessoas, sendo 57 crianças de até 11 anos e 44 jovens entre 12 e 18. Este é 36º microssistema de abastecimento e gestão comunitária feito com mutirões de moradores e apoio técnico do Projeto Saúde e Alegria desde 1996, totalizando já 130 quilômetros de encanamento hidráulico subterrâneo, beneficiando 2288 famílias e cerca de 12 mil moradores.

“O governo não se faz presente. Garantir água e luz é um papel do nosso governo municipal, estadual e federal. Agradeço ao Projeto Saúde e Alegria por não nos esquecer e trazer uma tecnologia que a gente ainda não tinha para gestão e controle da aldeia”. — cacique Leonoir

Localizada na margem oeste do Rio Tapajós, a principal via de acesso à Resex Tapajós-Arapiuns é fluvial, com embarcações que saem da cidade de Santarém, no oeste do Pará. Apesar da região amazônica colecionar evidências de sítios arqueológicos apontando para uma rica história pré-cabralina e pré-colombiana em harmonia com a floresta, hoje, passados 516 anos da invasão européia, quatro séculos das missões e das catequeses, 194 anos de "independência", 127 da república e agora 31 anos do fim da última ditadura militar, hoje, ainda não há serviço público de abastecimento de água potável encanada para uso doméstico aos povos da floresta, muito menos coleta de esgoto e lixo.

O consumo inadequado de água do rio pelas populações ribeirinhas contemporâneas, com a atual contaminação das águas por diferentes fontes, resultam em:

  • incidência de doenças primárias de veiculação hídrica;
  • mortalidade infantil por viroses e diarreias agudas.
Pajé Maria Suzete comemorando a água na torneira
"A gente precisava pegar água todos os dias com baldes no rio, carregar até em casa e ferver para poder usar. Quem vai buscar água são as mulheres e crianças, porque os homens estão trabalhando.
Para as nossas crianças, aquela água do rio não é boa para beber.
Agora tudo mudou, hoje é dia de festa! A gente acorda e já vem para a torneira encher a panela de água para fazer café! "— parteira e curandeira Maria Suzete
Quando se fala em Amazônia, a primeira coisa que vem à mente é floresta e, infelizmente, desmatamento. Mas nela moram mais de 24 milhões de pessoas (12% da população brasileira), dos quais 433 mil são indígenas de 182 etnias, além de comunidades ribeirinhas, quilombolas, seringueiros, garimpeiros, grileiros, posseiros, mineradores, pescadores, pecuaristas, madeireiros... Só em áreas rurais na floresta estão cerca de 6,5 milhões de pessoas. 
Lei Federal do Saneamento Básico
Todos os brasileiros têm direito à acesso à água tratada para beber (abastecimento), esgotamento sanitário, limpeza urbana, manejo de resíduos sólidos, drenagem e manejo das águas pluviais urbanas. Lei n. 11.445/2007 - http://goo.gl/Bt55F
Amazônia tem o pior saneamento do país
- só 23,9% da zona rural amazônica está ligada à rede de distribuição de água - (PNAD 2014: http://goo.gl/fEJwMw)
- só 7,9% da zona rural tem coleta e menos de 10% das áreas urbanas. Do que é coletado, só 14,36% é tratado. (“Diagnóstico Anual Água e Esgotos”, 2016 - SNIS/Ministério das Cidades: http://goo.gl/xGmhu)

Água bombeada com energia solar

Assim como o governo ainda não levou água encanada para a população ribeirinha, também não levou luz. Apesar da proximidade das hidrelétricas do Curuá-Una, Tucuruí ou mesmo do mal-afamado complexo de Belo Monte, todos que atendem com eficiência à indústria eletro-intensiva, ou seja, que usam muita eletricidade (exemplos: indústria de alumínio das jazidas de bauxita da região, ou de papel e celulose, ou de estanho e manganês, ou de fundição de cobre, de ferro-gusa e ferro-silício), os moradores da Amazônia rural continuam sem acesso à rede elétrica.

"Moramos no estado mais rico de energia do Brasil, mas nós não temos um ponto de luz na Reserva Tapajós-Arapiuns".– Dinael Cardoso, presidente da Tapajoara

Para bombear água do poço, é necessário energia. Na região, o uso do diesel para produzir eletricidade ainda é a principal alternativa adotada. É assim que os aparelhos de tevê e bombas d'água ligam em grande parte da zona rural: queimando diesel. Mas agora essa realidade está mudando…

"O primeiro sistema de água que implantamos foi em 1996 e funciona com gestão dos moradores até hoje. Trazem resultados imediatos na redução das diarreias e da mortalidade infantil, na qualidade de vida, nos níveis de organização social, sem falar nas economias em saúde pública com as doenças que são evitadas e deixam de pressionar a já asfixiada rede assistencial. Apesar de muita coisa ainda por fazer, bom que muitas dessas soluções viraram referências como políticas públicas e passaram a ser multiplicados pelos municípios para outras regiões necessitadas."— Caetano Scannavino, PSA

Nos primeiros microssistemas de abastecimento de água planejados pelo Saúde e Alegria, a dependência do diesel também foi uma condição para operação. Mas com os avanços tecnológicos das últimas décadas, com o esforço global para reduzir as emissões de gases estufa, com o crescimento da demanda por soluções limpas, com o barateamento de alternativas solares, o projeto inaugura também uma nova fase solar e flexível.

A bomba d’água flexível é movida a energia solar e dispensa o uso de baterias, usando um inversor que converte a corrente dos paineis em energia alternada. Quando não há sol e é necessário encher a caixa d’água, pode-se usar o diesel.

Essa não é a primeira instalação de bomba movida a Sol. Mas em experiências anteriores, o uso de baterias para armazenar energia mostrou-se controverso. Elas precisam ser trocadas com pouco tempo de uso, ser jogadas fora e o custo de novas baterias inviabiliza a manutenção pelas comunidades.

Em parceria com o Instituto de Energia e Ambiente — IEE/USP e Usinazul, o microssistema de Solimões é o primeiro feito na Amazônia usando um modelo solar flexível que dispensa a necessidade de baterias, mas garante uma alternativa de uso de diesel em caso de necessidade. Além da assessoria técnica do IEE/USP, a PHP Solar doou componentes elétricos difíceis de encontrar no mercado na região amazônica.

Construção participativa e gestão comunitária

“Temos desenvolvido tecnologias demonstrativas de baixo custo e alto impacto, como pedras sanitárias, kits de fabricação local de cloro, filtros domiciliares, redes de distribuição. Sempre com metodologias participativas, já que a autogestão e sustentação comunitária são fundamentais nessas áreas remotas”. — Caetano Scannavino
Caixa d'água de 20 mil litros na parte mais alta da aldeia

A construção do elevado para a caixa d'água, o mapeamento com GPS para definição de onde será a rede hidráulica subterrânea, a escavação de valas com um palmo de largura e 40cm de profundidade de todo percurso, todo o processo é feito de forma participativa. Em puxiruns (mutirões), os moradores da aldeia se dividiram e colocaram a mão na massa.

"Criar um modelo de construção participativa, além de baratear o custo, envolve e engaja a comunidade. Eles têm de entender todo o o processo, qual o cano, qual a bitola, como fazer a manutenção e assim eles se apropriam." — Carlos Dombrovski, coordenador de saneamento do PSA

Tudo começou com um mapeamento das 44 moradias e a escola da aldeia. Ali, todos precisavam receber água encanada potável. Com ajuda técnica, foi feito um mapa e definido o ponto mais alto da aldeia com uma distância mínima de fossas para se perfurar o poço. Enquanto uns escavavam o caminho para levar a rede hidráulica, outros trabalhavam com técnicos na perfuração do poço e construção do elevado de concreto para instalar a caixa d’água do microssistema comunitário.

Valfredo Kumuruara, morador da aldeia escolhido como coordenador do microssistema de abastecimento
"Fui o morador escolhido, em votação, como coordenador do microssistema de água do Solimões. Eu aceito, mas estamos todos juntos nessa gestão, a comunidade toda." –Valfredo Kumaruara, da Aldeia Solimões

A partir de oficinas, a própria aldeia criou o regimento do microssistema, um acordo firmado entre todos os moradores. O documento traz uma lista de direitos e deveres, aponta os membros eleitos da comissão gestora, os operadores do sistema (que sabem ligar a bomba), a frequência das reuniões de avaliação, a identificação de vazamentos, a taxa de uso com despesas de manutenção (o valor é discutido e aprovado em Assembleia geral) e como trabalha o conselho fiscal.

" Quando descobri que o PSA fazia isso há 30 anos, surgiu essa oportunidade de parceria. A Fundação AVINA trabalha há 23 anos no desenvolvimento do acesso à água na América Latina, apoiando a gestão comunitária. Que vocês possam fazer bom uso dessa água, que vocês cuidem desse sistema porque vocês são os donos desse sistema. –Telma Cristina Rocha, Fundacion AVINA, financiadora do sistema
Caetano Scannavino (Projeto Saúde e Alegria), cacique Leonoir (Aldeia Solimões), Tiberio Alloggio (Projeto Saúde Alegria), Dinael Cardoso (Tapajoara) e Telma Cristina Rocha (Fundacion AVINA) cortam a faixa de inauguração do microssistema
Crianças tomam um banho de ducha na inauguração da caixa d'água
Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns
Com interesse ecológico e social, a Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns foi decretada como Unidade de Conservação na Amazônia no fim de 1998. Seu objetivo é "garantir a exploração auto-sustentável e a conservação dos recursos naturais renováveis tradicionalmente utilizados" pelos 23 mil moradores distribuídos em 74 comunidades agroextrativistas originadas em aldeias indígenas e antigas vilas de missões religiosas.
PDF do Plano de Manejo Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns
Volume 1 - Diagnóstico
Volume 2 - Planejamento
Volume 3 - Anexos
Volume 4 - Madeiras