Resenha: K — Relato de uma Busca
Romance de Bernardo Kucinski

Às vezes, dentro de uma obra literária, a liberdade oferecida pela ficção pode dizer muito mais verdades do que o relato fiel da subjetividade de cada autor. K. — Relato de uma Busca é um exemplo claro desse caso. A obra publicada em 2011 pelo jornalista, escritor e cientista político Bernardo Kucinski tem como palco claustrofóbico para seus personagens o Brasil sob o Regime Militar.
K., o personagem principal, polonês imigrante brasileiro e velho, recebe cartas do banco em nome de sua filha, morta no período da ditadura militar, evando-o a contar a sua história como uma tentativa de se opor ao esquecimento nacional desse período.
Depois de perceber o desaparecimento de sua filha, uma professora de química da USP, dá início a uma busca incessante por seu paradeiro. Pouco a pouco, entre possíveis pistas que somem como gritos no silêncio da noite, K. entende que o Estado é responsável pelo seu sofrimento, dando vida ao maior personagem do livro: o labirinto desesperador da ditadura.
Ao decorrer dos breves capítulos — fortes como um soco na boca do estômago — que compõem o livro, K. passa a conhecer e aprofundar-se cada vez mais na vida de sua filha. Como o casamento dela com um militante comunista ou o carinho que os conhecidos nutriam por ela. Sua busca solitária ganha forças e se torna um símbolo de luta no final de regime militar pelo reconhecimento dos mortos da ditadura.
K. desiste da ideia de encontrar sua filha com vida. Ao encarar o fato de seu assassinato, passa a buscar o direito de enterrar o corpo e preservar sua memória — a matzéivá (pedra tumular) só pode ser feita caso exista um corpo, conforme prega a religião judaica.
Kucinski mistura sua história de vida, como o desaparecimento de sua irmã e sua experiência no regime político, com a ficção. No livro, o diálogo sádico dos soldados que assassinaram mostra um pouco do lado oculto e silencioso dos torturadores.
O romance, além de nos mergulhar na escuridão de um homem impotente diante do Estado opressor e alienante, remete-nos ao sentimento de culpa: o resultado de uma decisão crucial feita de maneira errada. O resultado é o peso da angústia no presente.
K., o personagem de Kucinski, é uma alusão ao sobrenome da família do autor, como também ao personagem da obra clássica alemã “O Processo”, de Franz Kafka.
Ambos se confrontam com um regime de “totalitarismo institucional” — como referência ao “totalitarismo familiar” de Milan Kundera — buscando no passado a decisão errada, o seu crime individual que constrói sua própria prisão.
A obra tem uma linguagem clara e direta. Os capítulos fluem e a angústia de K. encharca as entrelinhas da narrativa. O passado é obscuro. Sua filha jamais voltará e vive apenas em sua memória. Por outro lado, os ditadores e torturadores têm seus nomes vitalizados nas ruas e em praças. Uma parcela da população brasileira ainda os vê como heróis nacionais. Como diz o autor, a carta do banco é apenas um dos pontos de um Alzheimer nacional sobre o Regime Militar, um esquecimento programático sobre um dos períodos mais horríveis da história recente brasileira.
