600 dias de Comunidade


Apesar da indubitável certeza do nosso amor, eu não posso verdadeiramente falar contigo, tu não és uma pessoa. Sei que pareço louco. Como posso ter tido uma relação contigo?! Mas olho para trás e são muitos os momentos da nossa história que me aquecem o coração e me fazem sorrir, e tu estavas sempre lá. Foram, quase, dois anos intensos, de muito tudo, gritos, choros, risos, gargalhadas, medos, conversas e silêncios. Mas, a verdade é que tu testemunhaste muito da minha vida, acompanhaste-me, deste-me suporte, conforto e espaço para viver tanta, mas tanta coisa. E tão intensamente.

Agora, que estou de partida, tenho-me questionado muito sobre o que levo, o que não quero perder, como posso não perder, etc., um sem fim de questionamentos da minha cabeça complicada, que ao contrário de ti não consegue simplesmente ser. Vejo que tenho pensado sobretudo nas relações humanas, não querendo se calhar olhar para o quanto tu Espaço, Projecto, vais deixar um espaço vazio de presença na minha vida (e cheio de referências e memórias).

A verdade é que tu nunca precisaste de mim, nem vais sentir a minha falta, e, nem por isso te escusaste de me dar e de receber, às vezes muito lixo, sem nunca questionares ou te queixares. Obviamente que por detrás de ti estão pessoas, ideias, mas essas eu posso manter, tu só existes aqui. Viver em ti, só é possível em ti.

Hoje fazes anos, dizem que és Touro (lol) talvez isso te traga o karma do artista aprisionado pela sua obra porque fez concessões, criando conforme a exigência do seu patrocinador e sacrificando a independência da sua criatividade, não sei, mas traz-te sem dúvida a benção do crescimento e desenvolvimento que te caracterizam. Na minha vida foste um segundo útero por onde passei, desta vez bem mais que nove meses, e a casa onde voltei a crescer. Em ti senti a confiança necessária para me permitir morrer e renascer. Senti-o pela força da tua integridade, pela profundeza das tuas raízes, como pela doçura dos teus frutos. Não foi um processo fácil, como acredito que nunca seja, mas pelo qual me sinto eternamente grato.

Em ti conheci pessoas maravilhosas, partilhei momentos de uma alegria e um entusiasmo que já não acreditava serem possíveis, fiz parte activa da tua construção, e relembraste-me do quão bom é fazê-lo junto e sem esperar nada em troca. Nunca me escondeste o que tinhas de agradável e de desagradável, e nunca me forçaste a nada, sempre me pediste que fosse eu a escolher. E isso foi tão importante!

Se o teu “pai” me deu diamantes, tu ensinaste-me a poli-los e fazê-los brilhar. Não por conhecimento ou sabedoria, mas pela experiência e pelo que me permitiste viver e por me permitires experimentar-me.

Hoje estou de partida. Sei que tenho um longo caminho ainda para percorrer, sonhos para concretizar, quedas para dar, e isso é bom. Gosto de fantasiar que te é difícil deixares-me partir como uma mãe tem dificuldade em deixar os seus filhos voarem dos seus ninhos mas, sei que isso é apenas uma projecção do quão me é difícil partir. E isso, faz-me não duvidar que o nosso amor é real.

Hoje percebo que no momento de partir, me deste o teu último presente, o de partir nas minhas pernas, por mim, sem razões ou justificações. Talvez o meu trabalho aqui tivesse sido completado, e a prova disso fosse a minha capacidade de o fazer, de ir, sem nenhuma garantia de qual o caminho a seguir. Sem promessas de futuros brilhantes, paixões anunciadas, ou uma certeza inequívoca de que ser por ali. Vou com certeza voltar a ti muitas vezes, mas será sempre diferente, já não será a minha casa…

Deve ser isso que significa “As respostas estão todas dentro de ti”…