In sudore

Um pouco sobre o todo que nos aflige.


In sudore, do latim transpirar.

Transpirar — v.i. exalar do corpo.

A citação do significado a primeiro momento parece desnecessária ou até uma sátira ao conhecimento de quem estiver lendo o texto (se é que isso acontecerá), antes que soe como uma ofensa eu devo explicações: achei necessário citar o significado de transpirar, esse verbo intransitivo tão presente ultimamente devido às altas temperaturas, para que funcionasse como um lembrete; um lembrete de como esse fenômeno fisiológico não deve se limitar somente ao organismo, mas também ser realizado pela alma. Metáforas se fazem necessárias mesmo quando bregas, afinal, muitas vezes, é aquela metáfora brega que nos faz refletir sobre aquele erro ínfimo que foi cometido, o qual já havia sido esquecido, que habitava nossa alma e silenciosamente a poluía. Sinto-me obrigado a informá-los, transpirar não libera toxinas, sempre foi mito, o que obviamente não torna o fenômeno menos importante mas sim nos ajuda a metaforicamente aplicá-lo melhor.

Metalinguagem e curiosidades à parte, deixar a alma transpirar não se trata de externalizar o sofrimento, de jogar a dor para fora; se trata de abrandar a temperatura dos sentimentos, acalmar os nervos e preparar a si mesmo para analisar a situação de maneira correta. Deixar a alma transpirar, numa metáfora brega, é nada mais do que o organismo faz quando suamos, é ajudar a normalizar o que estava fugindo do comumente saudável, é amainar a mente e impedir que o sentimentalismo do momento interrompa o fluxo normal das nossas, infelizmente nem sempre, racionais decisões. E assim como o mito de que transpirar libera toxinas, deixar a alma transpirar não acaba com a culpa ou com a mágoa daquilo que nos perturba, apenas nos ajuda a deixar a alma fria. Frieza que nos torna melhores juízes daquilo que vivemos, provocamos ou daquilo que torna-nos humanos: nossos erros.

Enfim, deixar a alma transpirar é, acima de tudo, trazer a vida de volta aos trilhos, não concertá-los mas sim nos reposicionar neles, ainda que esses trilhos não sejam mais os mesmos, ainda que esses trilhos não nos levem mais pela mesma jornada ou para o mesmo destino. E ainda que vagões que costumavam nos acompanhar, não nos acompanhem mais.

Basta de metáforas!