República da vina

Eu demorei 20 anos para descobrir que moro no interior.

Na barraca de cachorro quente o rapaz pede um dog com duas salsichas. Veja bem, salsichas. É como aquela cena em Bastardos Inglórios na qual Michael Fassbender acaba com seu disfarce ao pedir três cervejas da maneira errada em um pub nazista. O dogueiro se reconhece nos termos e sotaque: ambos de São Paulo. Em um instante passam de desconhecidos a conterrâneos e no meio da troca de amenidades salta a frase:

— Meu, Curitiba é tipo um interior grande.

O primeiro instinto é o de orgulho ferido. Como pode? Curitiba, cidade-modelo, protagonista em rankings de qualidade de vida, feudo europeu no país tropical. A vontade é de defender a pátria, exigir aos brados retratação. Mas curitibano que é curitibano observa, remói e depois, sim, destila o veneno. Passado o momento e o cachorro quente com duas vinas — nada de salsichas por aqui — a frase soa menos como ofensa e mais como observação sensata. Veja bem, uma vez às 2h da manhã uns amigos meus — paulistas — resolveram ir a uma espécie de padaria que também era sushi bar e tinha várias modalidades de hambúrguer. Lotado como se fosse meio-dia. São Paulo, senhoras e senhores.

Voltando à terra das araucárias. O que fica aberto ali na Rua XV, coração e cartão postal dessa cidade, depois das seis da tarde? No máximo a Confeitaria das Famílias. Família, doces e tradição, tem algo mais interiorano do que isso? Provavelmente não. Ali mais para frente o Bar Mignon também estende o expediente — lembrança de uma XV que já foi mais boêmia. Sem sushi bar. Nos finais de semana o movimento fica restrito especialmente aos shoppings, parques e à vida noturna — que, segundo fontes, é bem menos intensa que a paulista. De resto: passada a hora do almoço no sábado o movimento dos lojistas é em direção ao lar. Domingo então nem se fala, é dia da família, não da cidade.

Esse jeitão de Curitiba tem muito a ver com o comportamento de quem mora por aqui. Cristovão Tezza ilumina alguns pontos da personalidade curitibana — resultado de uma grande sopa eslava da qual vem essa alma meio rural. A mistura de alemães, poloneses e ucranianos faz nascer o curitibano, essa figura que — nas palavras do próprio escritor — “seria uma espécie de alemão protestante urbano com uma alma rural, católica e eslava”. Não importa quanto Curitiba cresça, nem quantos dos seus prédios arranhem os céus, não há concreto que sufoque o colono que há dentro da gente — “isso aqui era tudo mato”.

A sensação que tive quando conheci Gaspar, uma cidadezinha catarinense perto de Blumenau cujo prédio mais alto tinha cinco andares, provavelmente era a mesma que aquele rapaz sentia ao pedir seu dog com duas wieners. No fim do dia é tudo questão de perspectiva. Compartilho essas divagações com a minha namorada. Ela que cresceu em Colorado, capital paranaense do rodeio e constantemente me lembra o quão piá de prédio eu sou por ter passado a infância sem comer fruta direto do pé. Tal como Ygritte sempre diz que Jon Snow não sabe de nada, responde:

— Curitiba é enorme.


Essa crônica faz parte do livro “Cidade aos Pedaços”, você pode ler ele na íntegra nesse link: https://drive.google.com/file/d/0B4VgLHmEnpN1Xzg5Q19CMkw0Nzg/view

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