Saudades do coletivo

quentin monge / don’t try studio — cc

Decidi sair da casa dos meus pais e morar no centro da cidade por, entre outras razões, não aguentar mais andar de ônibus. A ideia era economizar o dinheiro da passagem e não gastar três horas diárias no transporte público. Mas contatos esporádicos com coletivos tem me feito repensar minha escolha, que desprezou o fato de que minha formação também aconteceu no busão.

Foram 10 anos andando de ônibus quase diariamente, indo estudar ou trabalhar. Tempo em que dividi espaço com muitos desconhecidos, conversei com alguns deles e li dezenas de livros.

Agora, embarco num ônibus só para ir à casa dos meus pais — e já não leio como antes.

Numa dessas viagens, conheci uma autora. Uma senhora que dizia escrever a história da própria vida. Um diário, “mas com as coisas que eu penso”, dizia. Ela jurava que, em sua casa, havia dezenas de gavetas cheias manuscritos. Era com uma versão tupiniquim de Joe Gould — o literato maltrapilho da Nova York dos anos 1920, retratado pelo jornalista norte-americano Joseph Mitchell.

Eu sempre via essas pessoas excêntricas — e antagônicas — quando andava de ônibus. O vendedor e o ladrão, o casal apaixonado e aquele prestes a romper, o sujeito solitário e o simpático. Um ônibus como o biarticulado é capaz de transportar 200 passageiros, sem distinção. Uma amostra ideal da população.

Ter esse contato com diferentes pessoas faz bem. Pode ensinar sobre convivência tanto quanto uma escola. Por isso, sempre que uma prefeitura anuncia aumento da tarifa, a sensação que tenho é de que o Estado está dizendo para cada um se fechar em si. Compre um carro ou uma bike, vá de Uber ou Cabify. Ninguém precisa dividir o mesmo espaço.

Apesar disso a gente insiste, quando precisa, — e se decepciona ainda mais.

Dia desses embarquei num biarticulado com tantas goteiras que as pessoas tinham de se juntar nos cantos para não se molhar. Os passageiros filmavam e narravam a situação. Alguém dizia estar fazendo uma live — que são usados com frequência quando as pessoas estão bêbadas ou presenciam algo extraordinário. Era a primeira vez que eu participava de uma transmissão ao vivo pelo segundo motivo.

Naquele momento, foi difícil não pensar que aquelas pessoas pertenciam a algo maior. Estavam todos sendo prejudicadas por uma administração municipal que aumentara a tarifa de maneira abusiva. Nada nos impedia de, no dia seguinte, organizar uma manifestação para que a passagem baixasse. “O abismo não nos divide, ele nos circunda.” Me imaginei criando um motim, ajudando a mobilizar pessoas. Poderíamos reproduzir junho de 2013, o prefeito recuaria — seria lindo.

Enquanto eu divagava, um tiozinho de bigode, barriga protuberante e latinha de Skol na mão, parecia já não se importar com a água que caía sobre sua cabeça. Prostrado à janela, ele observa a chuva com um semblante de paz — ou bêbado. Poderia ser um deputado. A idade, o tipo físico e o conhecimento em legislação provavelmente eram os mesmos de um político.

Subi num segundo ônibus. Dividia naquele momento viagem com baratas que caminhavam pelas paredes do biarticulado. Desci, peguei um terceiro veículo. Um dog embarcou. Seguimos viagem.

Já não sei se minhas lembranças reais das viagens de ônibus na adolescência se juntaram a memória afetiva. Mas tenho saudades da época em que — pelo menos em minha cabeça — o transporte era um pouco melhor, a tarifa não era tão cara e todo mundo acreditava que o futuro era coletivo.

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