Muito além do Congresso

Brasília não é apenas pano de fundo para discussões políticas e cartão-postal da Praça dos Três Poderes: nos últimos anos, a capital federal tem visto crescer um movimento de promoção da vida ao ar livre, incremento da produção cultural e reforço da identidade local

Quando falamos de Brasília, uma das primeiras imagens que temos é o cenário político. Mas como é a vida do brasiliense além do Planalto? Este mês desembarcamos no Distrito Federal para ver como andam as iniciativas locais em relação a ocupação do espaço urbano, empreendedorismo local e economia criativa.

Empreendedorismo local e economia criativa

O crescimento de pequenos empreendedores e incentivo a iniciativas inovadoras que tem ganhado força no país nos últimos anos também encontra eco em Brasília, com projetos independentes e parcerias que promovam a melhoria de vida na capital do país.

É o caso do Festival Retrato, uma parceria entre o CCBB com o Correio Braziliense para comemorar o 55º aniversário da cidade, no ano passado: além das mostras de cinema local, documentários sobre empreendedorismo criativo, música, workshops de skate e dança de rua, arte urbana e revitalização de espaços comunitários; o festival também teve o lançamento do catálogo e do aplicativo que trazem as informações mapeadas sobre a identidade criativa do Distrito Federal, durante a concepção do projeto Retrato Brasília (que foi realizado entre agosto e dezembro de 2014), revelando os influenciadores do cenário cultural local.

Festival Retrato Brasília (imagem: Experimente Brasília | Foto por Fabio Bakker)

Já em março deste ano foi realizado o Ponto Maiê, com o objetivo de oferecer ao público jovem atividades de fomento ao empreendedorismo: palestras, conversas abertas e um talk show apresentaram aos participantes a realidade do mercado e possibilidades de ação empreendedora. O evento foi criado pela Maiê Lab School, uma escola livre voltada para o desenvolvimento de jovens para o futuro, através de cursos, mentorias, plataformas digitais e serviços especializados.

E o incentivo aos jovens empreendedores só cresce: a cidade também tem uma unidade da Perestroika, centro de estudos presente em outras quatro capitais e que promove cursos e debates sobre empreendedorismo criativo, como explorar os novos rumos da comunicação, arquitetura colaborativa e aprendizado open source.

Em dezembro de 2015, a capital federal também sediou o Seminário sobre Iniciativas Inovadoras na Gestão Municipal: promovido pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM), o evento divulgou as cinco melhores iniciativas selecionadas no projeto MuniCiência, que tem o objetivo de incentivar ações e boas práticas para melhorar a administração das cidades (fonte: MuniCiência).

E quando se trata de espaços de trabalho que promovam práticas inovadoras, temos como exemplo o coworking 4Legal, pensado para ser um ecossistema que promova a força do trabalho cooperativo e o crescimento da comunidade empreendedora brasiliense. O local também é membro do programa Coworking Visa, que permite que membros de diferentes coworkings tenham acesso a mais de 450 espaços ao redor do mundo por até três dias sem custos adicionais.

A cidade também tem um fab lab (rede mundial de laboratórios de fabricação digital criada pelo MIT com o objetivo de facilitar a prototipagem de ideias): o BSB FabLab, laboratório de invenção e inovação que às sextas é aberto ao público — para que qualquer um possa acessar o lab, usar as máquinas e participar dos eventos realizados no dia.

Já o apoio do governo encontrar ressonância em eventos como o de Iniciativas & Práticas Sustentáveis, que teve início em julho e vai até outubro. Visando promover iniciativas inovadoras que contribuem para uma Brasília mais cidadã, colaborativa e sustentável; tem como objetivo mobilizar empresas e grupos capazes de contribuir para o desenvolvimento de ações voltadas à conscientização e formação da sociedade sobre as reduções dos impactos ambientais no planeta e uma visão mais consciente sobre o consumo. As ações fortalecem valores e atitudes que desenvolvem o fomento à sustentabilidade; com atividades que têm como tema tecnologias sociais, agroecologia, energia renovável, resíduos sólidos, saneamento ambiental e economia solidária, entre outros.

Outra iniciativa que tem movimentado bastante a economia local é a regulamentação do Uber na cidade: o aplicativo de transporte privado tem possibilitado que autônomos ofereçam o serviço a habitantes e troquem de emprego ou se recuperem mais rapidamente após uma demissão. Além disso, o serviço possibilitou que mais pessoas passassem a usar serviços de carro privado (antes proibitivos por conta dos altos custos de corridas de táxi); e vem se popularizando também entre faixas etárias mais altas e com jovens que querem ficar independentes do carro.

Ao ar livre

Em 2010, o planejador urbano dinamarquês Jan Gehl publicou o livro Cities for People (Cidades para Pessoas, em português), em que analisa experimentos colaborativos para tornar as cidades mais amigáveis numa escala humana — projeto sobre o qual esteve debruçado por quase 50 anos. No capítulo chamado A Síndrome de Brasília, ele mostra como o planejamento urbano modernista deixou de lado os habitantes: (esta síndrome trata de) quando os urbanistas planejam e organizam edifícios na cidade como se fossem vistos pela janela do avião, em vez de edifícios vistos da rua. Em vez de planejar a cidade de baixo, planejam de cima. Primeiro os edifícios, depois os espaços livres e depois, finalmente, preocupam-se um pouco com as pessoas. Nos tempos antigos, sempre se pensou nessa ordem: pessoas, espaços e edifícios. Até que se inverteu a ordem: edifício, espaços e pessoas.” (fonte: AU)

A “escala humana” leva em conta a cidade vista da perspectiva dos olhos das pessoas, é a forma como os habitantes ocupam e experienciam o local: é a escala dos deslocamentos a 5 km/h. “A síndrome de Brasília significa nortear o planejamento urbano apenas a partir da maior escala. Todos os setores são interligados por vias expressas e o carro é um equipamento indispensável para percorrer a cidade. A partir dos olhos humanos, quando estamos inseridos dentro da maquete, Brasília parece um enorme e entediante superfície cheia de grandes prédios e avenidas expressas difíceis de atravessar. Comprovei por experiência própria. E o resultado de uma cidade sem escala humana é que ela acaba não sendo nunca ocupada por seus moradores, só percorrida”, cita Natália Garcia, em matéria no Planeta Sustentável.

Mas as coisas parecem estar mudando nos últimos quatro anos (data deste depoimento): a demanda jovem por eventos que possibilitassem a tomada do espaço público fez com que projetos de ocupação urbana e mais atividades ao ar livre crescessem e se multiplicassem. É o caso do Picnik, evento itinerante e aberto ao público que já teve versões no calçadão da Asa Norte, no Parque da Cidade e na Concha Acústica, entre outros. Com barracas de comida e serviços, food trucks e shows (que muitas vezes são uma plataforma para lançamento de novas bandas), o Picnik tem o objetivo de oferecer um espaço democrático para lazer e confraternização.

O espaço físico plano e os períodos de chuvas quase sempre bem definidos são os aliados das mais diversas formas de ocupação do espaço urbano que, de uns tempos pra cá, acontecem com frequência na capital. (4Legal)

É que o acontece também no carnaval: a articulação dos blocos de rua, que tem ganhado força ao redor do país, também cresceu em Brasília. Com temas que vão de música popular a eletrônica, passando por marchinhas tradicionais; o carnaval na capital federal cresceu consideravelmente nos últimos anos e, mesmo sem apoio oficial do governo e disponibilização de verba pública, este ano bateu a marca de um milhão de foliões (fonte: EBC).

Já o Chefs no Eixos é conhecido por levar gastronomia para espaços ao ar livre. Com o propósito de proporcionar o acesso à alta gastronomia por preços populares, o evento teve sua primeira edição deste ano realizada em julho.

E colocando a bicicleta no foco da combinação do esporte com lazer surgiu o #PedalNasAsas, evento esportivo amador que tem como objetivo estimular a mobilidade urbana sobre duas rosas; e realiza encontros periódicos para explorar as diferentes áreas da cidade.

São projetos como esses que nos últimos anos têm tirado os brasilienses de seus condomínios e centros fechados, levando os habitantes às ruas para consumir moda, design, gastronomia, esportes e minifestivais de música.

“Nos últimos dez anos, a programação cultural cresceu muito. Antes não tinha muita coisa para fazer, e agora sempre tem alguma exposição, festa ou evento. Antes víamos o pessoal mais confinado em espaços fechados; mas de uns tempos para cá percebemos um movimento maior de ocupação do espaço urbano e o aumento de atividades ao ar livre.” 
(Maira Costa, 37 anos, turismóloga, mineira que mora em Brasília desde 2006)
Picnik no calçadão (imagem: reprodução)

Valorização da cultura local

Outro movimento que vem ganhando força na capital federal é a valorização da cultura local. Um exemplo é a Mimosa, que nasceu há quatro anos e a cada edição ganha mais fãs: uma festa de música brasileira que, segundo seus criadores, “Nasceu em Brasília pra trazer mais amor à capital federal, com nome de drinque, batuque de Brasil e duas versões: Mimosa Dia e Mimosa Noite!” A edição diurna já foi realizada no espaço aberto do CCBB, local que tem se tornado cada vez mais popular para este tipo de evento.

Outro grande evento que abraça a música brasileira é o Festival Satélite061, que está em sua quinta edição e levanta a bandeira da representatividade em toda a programação: Elza Soares e Gal Costa representando a força feminina na música brasileira, As Bahias e a Cozinha Mineira trazendo ao palco a nova geração, BaianaSystem com seu movimento de experimentação do underground para a massa; entre outros representantes de rock, nu jazz e cultura afro-brasileira.

E mais um festival que quer movimentar a cena local é o Festival Móveis Convida, que tem como intuito promover o intercâmbio cultural entre profissionais da música do Distrito Federal e de outros estados e países. Já mais consolidado na cena musical local, e completando 17 edições e 11 anos agora 2016, o festival começou trazendo artistas de fora da cidade, com projeção na cena independente, mas que não tinham espaço para se apresentar em Brasília. Hoje já tem em seu histórico mais de 150 nomes que participaram do evento, como O Teatro Mágico (SP), Los Hermanos (RJ), Pato Fu (MG) e Gaby Amarantos (PA), além de nomes internacionais como Coiffeur e Mutadina (Argentina) e Juana Fé (Chile).

Banda Muntchako, trio instrumental brasiliense que mistura ritmos brasileiros (imagem: reprodução)

Essa valorização da identidade brasiliense não se restringe apenas à cena cultural: estão se tornando mais populares também objetos de design que remetam a Brasília. É o caso da BSB Memo, loja de artigos de decoração que faz referência aos elementos locais, como as “tesourinhas” (pista que dá acesso às superquadras) e o “Eixão” (Eixo-Rodoviário-Residencial). A marca também realiza eventos para explorar diferentes aspectos da cidade; como o Brasília Pantone, para “descobrir a cor de Brasília”, e o Mais ipê em BSB, para plantar novos ipês pela capital.

O Mercado Cobogó também oferece objetos de design e artesanato local com preços acessíveis, além de um café e um parquinho de lazer para as crianças.

“É perceptível um movimento de valorização da cultura local, seja com uma loja de souvenires que se utilizam da identidade brasiliense, seja através de eventos. Antes, nas festinhas só tocava música internacional. Já hoje em dia estão cada vez mais populares as festas com música brasileira, como a Odara e a Mimosa.” 
(Henrique Aragão, 34 anos, analista de sistemas, brasiliense que cresceu em Fortaleza e voltou para o DF há um ano e meio)

*Sobre Regionalidades: o Brasil tem dimensões continentais e muitos comportamentos são recortados e restritos a regiões específicas. O objetivo aqui é interpretar movimentos de sotaque regional e buscar entender sua ressonância, significado e dimensão.