Beijing, do medo à surpresa - 4 a 7 e 15/10

pra China! Era assim que dizíamos no auge da irritação a uma pessoa que nos incomodava. Que fosse para bem longe e, este longe, só poderia ser do outro lado do globo, onde se situava a China. Não imaginava que um dia poderia ir à China. Depois e o medo? Viajar por um país misterioso, cheio de gente de olhos puxados, costumes estranhos, que usavam ópio e matavam a torto e a direito. Só de pensar dava arrepios. Também e a distância?

Porém o tempo foi mudando tudo. A China já não constitui desde há muitos anos aquele país desconhecido para nós brasileiros. Os meios de comunicação nos mostraram o desenvolvimento do povo chinês, seus costumes enfocados de diversas maneiras. A distância não significava mais o mesmo, com os jatos cruzando os céus em todas as direções.

Mesmo assim, havia alguma coisa que me atraía nesse país e eu vinha há uns três anos namorando a ideia de conhecê-lo, até que em princípio de 1986 decidi: este vai ser o meu ano da China!

Como fazendeira mineira tinha curiosidade em conhecer a agricultura da China para ver como conseguiam produzir alimentos para todo aquele povo.

Minha filha mais velha, especialista em sociologia rural, também se entusiasmou com a ideia. Assim, depois de arranjos diversos com a embaixada chinesa no Brasil, partimos em 22 de setembro rumo ao Oriente.

Vera e sua filha Lian, no Palácio de Verão, Beijing, 1986

Fizemos uma escala em Los Angeles, outra em Tóquio, passando uma semana no Japão visitando alguns pontos turísticos, fazendo uma viagem no “trem bala” até Kyoto.

Vera no Japão, antes da viagem à China

Dia 4 de outubro partimos de avião de Osaka em direção ao mistério: China, capital Beijing. Uai! Não é que o medo acabou! Difícil explicar bem o que esperava encontrar, mas foi realmente uma surpresa.

Nos esperava no aeroporto Guo Yuanzeng, diplomata do Departamento de Relações internacionais, e Mon Jie, sua colega de serviço.

Guo seria nosso guia, intérprete, informante, secretário, tudo enfim por quase um mês. De uns 45 anos, alegre, falando português aos arrancos, procurando caprichar nos termos empregados, vestido à ocidental com terno de tropical cinza, andava sempre com as duas mãos juntas às costas parecendo um menino muito bem-comportado.

Na foto da esquerda, Lian com nosso guia e intérprete, em 1986, Guo Yuanzeng. Na foto da direita, no centro o mesmo Guo que foi tradutor no encontro de Pedro Pomar (à direita) com o primeiro ministro Zhou Enlai (esquerda) em 1971

Muito prestativos e gentis, Guo e Mon se encarregaram da nossa bagagem que foi colocada em uma limusine Mercedes e despachada para o hotel. E nós? “Vamos almoçar que já passa do meio dia” disse nosso anfitrião, e nos levou para o restaurante do aeroporto. Salão enorme com mesas redondas, um terço delas ocupadas. Enquanto ele nos fornecia as primeiras informações sobre o país, ela encomendava o cardápio do almoço. Um pouco atordoada pela mudança de país, me esqueci de contar quantos pratos (nos haviam dito que a sua quantidade correspondia à importância do hóspede) foram servidos. De qualquer forma, nos refestelamos com a farta e deliciosa comida.

Depois desta primeira refeição, em que fomos iniciadas no manejo dos pauzinhos (hashis), saímos em direção à cidade que fica a uma hora e meia do aeroporto fora do horário de rush. A estrada é linda, cercada de cada lado por três fileiras de álamos, pinheiros e plátanos que se fecham em cima, formando uma abóboda tornando o trajeto um passeio à sombra de um túnel de folhas. Em alguns lugares há flores e pomares com macieiras, carregadas de frutos. Perguntamos ao guia como fazem para evitar que os transeuntes colham se apropriem das maçãs ao que ele nos respondeu que ninguém faz isso, respeitando a propriedade alheia.

Chegada a Beijing depois de duas horas de viagem dp aeroporto ao hotel, com álamos dos dois lados da estrada

Chegada a Beijing: Duas horas do aeroporto ao hotel. Álamos dos dois lados da estrada. Trânsito de caminhões, carros, pequenos tratores, carroças de burro e bicicletas (maioria). Tudo louco, ninguém anda à direita, preferem o centro. Poluição demais ou bruma?

É outono, assim não sei se a bruma que cobre a cidade é normal nessa estação do ano ou poluição das inúmeras chaminés que se vê à medida que vamos penetrando nas áreas mais habitadas.

Nas ruas de Beijing, difícil saber se a bruma que cobre a cidade é normal nessa estaçã do ano, outono, ou é poluição. Em Beijing as fábricas ainda não têm filtros nas chaminés

Construções de prédios em grande quantidade. Até parece que estão reconstruindo a cidade. Avenidas largas e novas com pista de carros no meio e laterais para bicicletas, mas nos cruzamentos!!! Mesmo com o sinal fechado os carros podem virar e aí é aquele pandemônio de carros versus bicicletas e algumas motos. Pedestres na calçada.

Dentro das lojas é outro drama. Não estão comprando quase nada, mas se chegamos num balcão e acenamos para a vendedora para vermos alguma coisa, ela nos atende com toda má vontade e junta gente em volta. Quando se tira a carteira para pagar, só faltam enfiar o nariz dentro dela para ver. Examinam muito nossas caras e meus brincos.

Nas construções também trabalham mulheres fazendo serviços pesados, varrem rua e até estradas.

A praça Tian’anmen (Paz Celestial), túmulo de Mao, retratos dos principais comunistas do mundo, mausoléu Mao e milhares de pessoas circulando e tirando fotos. O nosso guia explica que são pessoas do interior. Fila enorme, de quatro em quatro para ver o corpo embalsamado de Mao que parece de cera, não acredito ser o verdadeiro embalsamado, saem pelo outro lado com a expressão de quem viu Deus. Os guardas fazem todo mundo passar depressa para não dar tempo de observar direito. Fanatismo.

Vera na praça Tiananmen, em Beijing. Milhares de pessoas circulando pela praça e tirando fotos. Atrás o Museu Nacional da China
Lian e Guo na Cidade Proibida

Hotel Wanshou. Hotel velho, antigo, pé direito alto, quarto (suíte) enorme, agradável, limpo. Descarga da privada sempre vazando e Lian consertando. Andamos pela cidade, sempre de carro com o guia que fala português aos arrancos e emprega os termos errados — porém é compreensível — Brasil é paxí — Vera é vilá — Marília é malila — não fala inglês. O chofer só fala chinês.

Visitamos templos e palácios e jardins pra valer.

Lian e Guo no Templo do Céu, na Cidade Proibida, onde o imperador vinha fazer pedidos para boas colheitas

A verdadeira e farta comida chinesa

Tivemos um almoço com dirigentes da Associação de Compreensão Internacional para China.

Pato laqueado no final da refeição porque antes eram uns 16 pratos, desde talos de acelga cozidos, amendoim doce, broto de bambu, carne de porco com molho doce, frango assado fatiado com ossos, presuntada e presunto fatiado, gomos de mexerica, champignon, camarões e lula picados, rabada, tutano, peixe assado. No fim vem o arroz e a sopa (caldo com legumes boiando, ovos mexidos junto etc.). Pode parecer estranho todos esses pratos, mas são muito bons de paladar. Bebem muita cerveja durante a refeição e interrompem várias vezes para fumar soltando baforadas enormes. Tivemos um brinde com copinhos menores que os nossos de licor. A sala do restaurante era privativa e o nome do restaurante era “Para pessoas ilustres”.

Fomos tomar chá com o embaixador do Brasil num hotel grã-fino de ocidentais, depois nos levaram ao nosso hotel. Três dias depois de andanças por Beijing, voltamos à embaixada para jantar. Desta vez havia um grupo snob de brasileiros de Tribunais de Contas do Rio, São Paulo e Brasília.

No trem rumo ao sudoeste de Beijing

Viagem no dia seguinte de manhã para o sudoeste de Beijing após duas horas de viagem. Região plana de lavouras de milho, trigo, algodão, batata doce. Algumas hortas junto às vilas — tudo muito plano. Muitas olarias — tijolos. Saindo de Beijing a estação de estrada de ferro é muito grande — na rua em frente, grupos de pessoas que vão e chegam assentadas no chão do asfalto formando grupos, em geral famílias, com pastas, sacolas de roupa, comida etc, esperando alguma coisa. A maioria parece camponeses, em geral mais idosos, com mulher, filha e neto pequeno (2 a 3 anos) com as calças abertas no gancho. Se querem fazer alguma necessidade, apenas agacham.

Na rua, em frente da estação de trem, grupos de pessoas que vão e chegam assentadas no chão do asfalto formando grupos, em geral famílias, com pastas, sacolas de roupa, comida etc

Na estação muita gente esperando a hora do seu trem. Aperfeiçoaram os mineiros: chegam cedo demais e ficam deitados nos bancos dormindo; às vezes o decano da família distribui pedaços de pão doce, ovos cozidos (cujas cascas ficam no chão) entre os familiares. Comem muito amendoim e jogam as cascas sob os bancos. De vez em quando vêm as varredoras passam as vassouras mais ou menos debaixo dos bancos, trazendo toda sujeira para fora. Depois varrem tudo junto. Há alguns berços que já foram brancos, com um colchão coberto com uma lonita imunda para as crianças pequenas, enquanto os mais velhos dormem nos bancos.

A toalete das mulheres é um cubículo sem porta, privada turca (igual dos homens no Brasil, porém colocadas horizontalmente no chão).

Quando colocam a tabuleta de determinado trem indicando a plataforma é aquele avanço. Todos os homens usam paletó Mao verde, azul ou cinza. O uniforme dos soldados é verde, mas os sapatos podem ser qualquer coisa: até tênis branco e o boné nem sempre vai na cabeça. Com o avanço do outono muitos carregam casacos acolchoados com gola de pele, casacos compridos. As mulheres, com algumas exceções, usam calças compridas com casaquinho curto e apertado abotoadinho e com três bolsos. Alguns homens usam até três camisas embaixo do casaco de algodão. Por causa do frio alguns usam também boné tipo Mao. O sapato de pano ou veludo preto, de sola marrom ou branca, é usado pelos mais pobres. Os de melhor posição preferem os de couro, sendo que os jovens gostam de saltos um pouco maiores, iguais aos usados no Brasil há anos atrás. Gostam também de usar plaquinhas como as de “tap dance” que vão fazendo tap tap a cada passo.

Como bons turistas fomos ver a Grande Muralha. Saímos cedo, de carro de luxo, com Guo e o chofer. Outro carro saiu antes levando o material para nosso almoço, cerveja e refrigerantes gelados.

Vera ao pé da Grande Muralha. Carro de luxo, com o intérprete Guo e o chofer

Depois de uma hora por estrada arborizada de ambos os lados, chegamos ao pé da montanha e vimos lá em cima, serpenteando pelo cume, a famosa muralha chinesa, uma das sete maravilhas do mundo antigo. E agora? Voltamos a Pekin? Não, vamos subir. Subir mais de mil degraus para chegar à grande Muralha. Poder pisar, tocar nela, nos fotografar para mostrar aos amigos que lá estivemos de fato, e descer os mesmos mil e tantos degraus.

Lian e Guo na Grande Muralha, uma das sete maravilhas do mundo antigo
A esquerda, Vera marcando presença na Grande Muralha: mais de 1000 degraus, 644 metros de escada. A direita Lian posando de “Guarda Vermelha”
Ao pé da Grande Muralha, chineses carregam os jumentos e camponeses vendem seu produtos

Em Beijing as fábricas ainda não têm filtros nas chaminés, o que tem causado muita poluição devido ao carvão mineral que usam. Nas construções usam muito tijolo àvista e alguns muros de tijolos deixados a 45 graus sem rejuntar com massa. Só o fazem nas colunas.

Nas construções em Beijing, usam muito tijolo à vista e alguns muros são deixados sem rejuntar com massa

Telhados com telhas de cerâmica, muitos de telhas francesas. No subúrbio, muitas casas nem telha têm: fazem o telhado inclinado, mas cimentado por cima.

Telhados com telhas de cerâmica, muitos de telhas francesas. Também muitas casas sem telha. Fazem o telhado inclinado, cimentado por cima.
Mesmo na zona rural, para aproveitar o espaço, as casas são construídas bem próximas umas das outras e com dois andares

A bicicleta: veículo para toda obra

Usam ainda, no centro de Beijing, muito transporte com tração animal, cavalo ou burro, em geral dois: um na frente da carroça, ou no meio, e outro mais na frente um pouco de lado. Puxam mercadorias pesadas; madeira, ferro para construção, tijolos, etc.

Em Beijing, muito transporte com tração animal, cavalo ou burro. Levam desde produtos da lavoura, até mercadorias pesadas; madeira, ferro para construção, tijolos, etc

Transportam muita coisa também de bicicleta, ou com carrinho atrás ou bicicleta de três rodas e uma plataforma nas rodas traseiras, onde colocam montes enormes de acelga, repolho, cebola com folhas, couve flor, papelão usado, restos de tábuas, etc.

Transportam muita coisa também de bicicleta, ou com carrinho atrás ou bicicleta de três rodas e uma plataforma nas rodas traseiras
A bicicleta tem preferência em qualquer tráfego e se por acaso um carro atropela uma, o chofer vai para a cadeia sem apelação

Às vezes sem carga, vai ali mulher com ou sem filho com as pernas cobertas com um pano. Algumas bicicletas têm um “side car” pequeno, todo fechado, janelinhas de vidro, onde carregam os filhos pequenos. Outras tem uma cadeirinha presa ao quadro da bicicleta também para levar um filho.

Algumas bicicletas tem uma cadeirinha presa ao quadro da bicicleta para levar um filho

Há uma loucura de bicicletas por todos os lados. Milhares e milhares delas.

Têm preferência em qualquer tráfego e se por acaso um carro atropela uma, o chofer vai para a cadeia sem apelação (dois anos em caso de morte), paga indenização pesada à família da vítima.

Na traseira das bicicletas muitas vezes vai a mulher, a namorada ou filho maior. Há estacionamento de bicicletas por todo lado.

Estacionamento de bicicletas por todo lado, em Beijing

Dizem que em Beijing há mais ou menos 10 milhões de bicicletas e no país quase 500 milhões. No campo também são muito usadas além de transporte pessoal para toda espécie de carga.

Várias espécies de carregamento. Usam um cesto de cada lado, quadrados; usam uma plataforma na roda traseira ou duas rodas traseiras e ali carregam de tudo. Desde montes enormes de palha de milho, sacos de cereais, engradados de galinhas, etc. Alguns fazem a plataforma até de bambu. Aliás, este é o grande material usado em toda China: móveis, cercas, andaimes, tudo que se pode imaginar. Nos subúrbios de Beijing os tratores de duas rodas passam com o produto das lavouras apinhados numa carreta.

De Pequim até Shijiazhuang (sudoeste, 4:30 horas de trem) — tudo muito plano — agricultura em tabuleiros de um hectare cada. Daqui para adiante começam as montanhas com agricultura em pequenos terraços. Na parte baixa também muitas olarias, grande produção de tijolos –Também muito calcário e muito forno de cal. Passam vagões e caminhões carregados de pedras de mais ou menos 15x30 (para construção?).

Costumam cortar o pé de milho rente e vão depositando no chão (após colheita das espigas). Recolhem a palha em tufos enormes. Depois vem um homem com enxada cavando a terra que foi umedecida previamente. Arrastam as raízes para o lado. Aí vem o homem quebrando os torrões. Às vezes essa aração é feita com arado rudimentar puxado por um burro ou boi. Vi uma vez puxado por outro homem. Em seguida vai espalhando o adubo com pá, que havia sido depositado pela em montinhos, após isso vêm uns sulcadores também puxados por burros e em seguida o plantio manual.

Costumam cortar o pé de milho rente e vão depositando no chão (após colheita das espigas). Depois colocam em estrados para secar

Na estação de Shijiazhuang compramos amendoim torrado, muito gostoso. Quase todo mundo desce do trem nessa estação, é um entroncamento e o trem demora mais tempo. Vão comprar pão doce, frutas, etc.


Esquecer = jogar alguma coisa em cima de nove camadas de nuvens (ditado chinês de + ou — 3000 anos). A China era também chamada de país de nove estados (9 era o número máximo que sabiam contar, diz a lenda).


A cabine do trem tem dois sofás embaixo e dois em cima, cobertos, tanto o assento como o encosto com lençol bordado — dois travesseiros (fronhas bordadas coloridas e fios prateados), um edredom dentro de capa de algodão branco. Mesinha junto à janela com garrafa térmica abastecida toda a viagem com água quente. O chá se compra. Um caneco para cada passageiro, com tampa. Almoço ao meio dia no vagão restaurante com oito pratos. Come-se sempre de pauzinho; o outro vagão tem sofá sem estofo. Toalete em cada extremo do vagão iguais a todas estradas de ferro, sujos de preto e malcheirosos. Só usei quando não havia mais jeito.

Vera e sua filha Lian, no trem de Beijing a Dazhai. A cabine do trem tem dois sofás embaixo e dois em cima, cobertos, tanto o assento como o encosto com lençol bordado. Na mesa uma garrafa térmica abastecida toda a viagem com água quente para o chá.

Trocam o R pelo L. Marília = Malila.

Japonês é o contrário. Flower= Frower.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.