Dinastia pra cá, dinastia pra lá…

Artigo escrito por Vera Andrade, publicado na Gazeta de Pinheiros, em janeiro de 1987

Gazeta de Pinheiros, São Paulo, dia 9 de janeiro de 1987

Dinastia para cá, dinastia para lá…

Vera Andrade, nossa colaboradora, esteve na China no final do ano passado. Como ela mesmo diz, ao aportar em Pequim, beliscou-se para comprovar. Aqui, o segundo da série de artigos especiais que ela se propôs a escrever para a Gazeta.

China, capital Pequim, ou Beijing, como escrevem agora os chineses (embora a pronúncia seja Peidjím). Quase me belisquei para comprovar. Na minha infância era uma ofensa dizer: Vai pra China! A ideia que tínhamos era de um país misterioso, cheio de gente viciada em ópio, crimes horrorosos e muita história. Só de pensar me dava arrepios.

Há alguns anos essa ideia que eu tinha da China foi mudando, à medida que os meios de comunicação foram mostrando um pouquinho daquele planeta de mais de um bilhão de habitantes. Até que decidi: Este vai ser meu ano da China! Como fazendeira mineira tinha curiosidade em conhecer a milenar agricultura chinesa, e como conseguiam alimentar toda aquela gente.

Minha filha, sociólogo rural, conseguiu, junto à Embaixada da China no Brasil, um esquema semi-oficial de pesquisa em dez comunidades rurais em diferentes regiões do país. Com guia e toda a infraestrutura.

Mas nem só de agricultura vive o homem. E tome cultura! O que visitamos de museus, palácios, prédios históricos… Acho que agora sei mais da história da China do que da própria história do Brasil. Também os chineses estão saindo de uma revolução cultural que foi antes de tudo anti-cultural, pois proibia a admiração e o estudo da China Antiga. Agora estão tirando a “cabeça” da miséria, numa nostalgia que nos parece às vezes até exagerada. É um tal de dinastia pra cá, dinastia pra lá…

Voltemos a Beijing, onde aterrissamos no dia 4 de outubro. A cidade lembra um pouquinho Brasília. Avenidas superlargas. A principal tem 40km de extensão. Prédios quase iguais, todos de 15 andares e centenas deles em construção. Ainda vemos casas antigas, todas cinzas, sendo derrubadas para dar lugar aos prédios residenciais, a maioria verde ou amarelo suave.

A cidade está enfeitada de flores. São cem mil vasos colocados para a festa de 1º de Outubro, quando se comemoraram 37 anos de Libertação — em 1949 fundou-se a República Popular da China, com a tomada do poder pelo Partido Comunista.

Nosso primeiro passeio foi à praça da Paz Celestial (Tian An Men), bem no centro da cidade. Aí estão os principais monumentos comemorativos da revolução, e o mausoléu de seu líder Mao Tse-Tung. Desde sua morte em 1976, os chineses fazem filas quilométricas para visitar seu corpo embalsamado. A gente tem que passar por ele muito rápido, mas a impressão é de uma estátua de cera.

Durante os 26 dias de permanecia na China, nosso intérprete foi Guo Yuanzeng, de 48 anos, um verdadeiro guia “espiritual e material”. Através dele fiquei sabendo dos principais fotos históricos do país: a revolução foi feita principalmente pelos camponeses, que eram mais de 90% da população de 500 milhões de pessoas. Ela começou na realidade em 1911, quando o médico Sun Yatsen depôs a dinastia Xin e instaurou a República. O país era praticamente feudal, e explorado por “8 potências imperialistas”. O Dr. Sun Yatsen não conseguiu expulsar essas 8 potências e nem fazer a reforma agrária, pois morreu em 1927. A partir daí, o país viveu em guerra interna e contra a invasão japonesa até 1949. De lá pra cá, sob a liderança de Mao Tse-Tung, com o pais unificado, começou a reconstrução, sempre seguindo a linha socialista.

Primeiro cuidaram de garantir ao povo as 5 garantias: comida, roupa, moradia, educação e saúde. Isto porque a China era tão miserável quanto a India. Eram milhões de mortos de fome e de frio todo o ano, pais vendendo filhas em troca de um saco de arroz, e outras mazelas que já vimos em tantos filmes.

Com todos os problemas que certamente houve nesse período, é admirável o resultado. A gente não vê miséria. Pobreza sim. Nenhum mendigo (aliás, vi só um, sem braços, num templo budista). Nenhuma criança abandonada. Ninguém com aparência de desnutrição. Praticamente não há roubo (isso merece um capítulo à parte)

Ao garantir o básico para todos, o governo acabou criando um problema maior ainda para si próprio. A população dobrou em uma geração e só com bastante atraso foi instituído um programa rígido de controle de natalidade. A ordem é um filho, no máximo dois por casal. Está funcionando. A pergunta, que fica para a próxima semana, é: como será este país daqui a alguns anos, com um bilhão de filhos únicos?

Vera Andrade

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