As melhores notícias que você não sabe

‘O ser humano deu errado’, ‘Só tem notícia ruim na televisão’, ‘Para o mundo que eu quero descer’. Calma. Muita calma nessa hora.

Nesta semana, um colunista do The New York Times chamado Nicholas Kristof publicou o texto ‘The Best News You Don’t Know’. A ideia dele era, basicamente, comentar como as pessoas estão acostumadas a ouvir notícias ruins e a procurar por isso (o que consequentemente dá uma visão desesperadora do mundo), mas ao mesmo tempo ignoram que estamos vivendo na melhor época para se estar vivo — Tá ruim? Tá horrível, mas era ainda pior — e ele comprova isso com dados sobre segurança, fome, igualdade e outros temas que a mídia usa para assustar todo mundo (Por exemplo: Em 1981, 44% da população mundial vivia na extrema pobreza, hoje essa taxa caiu para 10%. Nos anos 1960, a maior parte dos adultos eram analfabetos, hoje 85% dos adultos no mundo sabe ler. E por aí vai.). Ninguém está dizendo que as coisas ruins não precisam ser divulgadas, pelo contrário.

Kristof só tentou sair do senso comum da mídia de que tudo está perdido e não tem solução. Isso nos afeta em tudo, principalmente e ultimamente nas discussões políticas. Parece que as pessoas estão acostumadas a analisar tudo sobre a ótica do ódio (não me tiro dessa, não tiro ninguém dessa), como se fossem o social media da Folha de S. Paulo. Os debates, na maioria, giram sempre em torno de notícias ruins, nunca em soluções ou projetos bem-sucedidos de um ou de outro candidato. É uma troca de acusações. Logo, cria-se a ideia de que é todo mundo bandido e que tudo está perdido. A mídia se divide em dois lados e cada um demoniza o oposto (no livro ‘Como Conversar Com Um Fascista’, a Márcia Tiburi explica bem como o ódio nasce da incapacidade de entender ou dialogar com o outro, um fenômeno da burrice).

Uma conversa saudável significa estar disposto a ouvir as ideias do outro e, talvez, a admitir o erro. E ninguém quer isso. Ninguém quer estar errado. Ainda mais nesta época de redes sociais, onde todos assumem a postura de críticos, cientistas políticos e artistas. Que querem mostrar como são inteligentes, sentir-se importantes e transformam a vida em uma fonte de entretenimento para os outros. E mesmo nisso existe um lado positivo, mas isso é outra discussão. Juntando o excesso de notícias ruins, as redes sociais viram o lugar perfeito para ser um depósito de ansiedade e frustrações.

O texto do Kristof me levou a pesquisar outro artigo, o ‘Psychology: Why Bad News Dominates The Headlines’, da BBC, publicado em 2014. O artigo fala sobre um estudo psicológico que mostra porque nós sempre preferimos ler notícias ruins sobre desastres, corrupção e violência, mas adoramos falar que queremos ‘boas notícias’ ou culpar a mídia por ‘só mostrar desgraça’. Motivo 1: o ser humano, por instinto animal, reage ao perigo com maior velocidade do que às situações neutras ou positivas. O cérebro entende mais rápido palavras como ‘câncer’, ‘bomba’ e ‘guerra’ do que ‘bebê’, ‘sorriso’ e ‘diversão’. Motivo 2: o ser humano está, ironicamente, acostumado a acreditar que o mundo é cor de rosa e que ele é melhor do que de fato é. Por isso, as notícias negativas trazem decepção, que vem com o fator ‘surpresa’ que o seduz para leitura. E a mídia quer audiência — isso não é novidade, né?

Por isso esse texto. Para dar uma pausa, respirar e lembrar algumas coisas que podem não estar entre as mais lidas nos portais de notícias, mas o Google ajuda a encontrar. E, não, o mundo não está tão ruim assim, por exemplo:

  • Nunca se buscou tanto conhecimento sobre a importância de representatividade social na mídia e na política
  • Negros, mulheres e gays ganharam mais espaço para defender seus direitos com as redes sociais e não dependem mais da mídia seletiva
  • Brasileiros foram responsáveis por criar uma vacina contra o vício em cocaína
  • Um novo exame de sangue poderá detectar câncer de mama até 5 anos antes
  • A internet chegou, pela primeira vez, a mais de 50% das casas no Brasil
  • O número de mortes no trânsito teve a maior queda em São Paulo, a maior metrópole do país, desde 1998
  • O Brasil irá distribuir de graça o novo remédio contra HIV
  • Nas duas últimas décadas, os direitos das mulheres passaram a ser reconhecidos como direitos humanos fundamentais mundialmente
  • E os direitos de lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros foram colocados na agenda internacional
  • De acordo com a OMS, a esperança média de vida teve seu aumento mais rápido desde 1960. Uma criança nascida em 2015 deve viver cinco anos a mais que uma nascida em 2000.
  • O Brasil se tornou líder na erradicação da pobreza extrema na América Latina
  • Entre 2000 e 2015, a taxa de mortalidade por malária caiu em 60% globalmente, e o número de casos de malária caiu em 37%
  • O Brasil é quarto maior mercado para produtos saudáveis no mundo
  • Nos anos 1960, acreditava-se que a fome mundial iria aumentar. Pelo contrário, em 25 anos a fome mundial caiu em 25%
  • Desde 1990, 2,6 bilhões de pessoas ganharam acesso à água limpa
  • O trabalho infantil tem caído a cada ano. Um estudo prevê que apenas 10% dos jovens entre 15 e 17 anos, da próxima geração, irá trabalhar
  • E a atual geração é a que mais experimentou paz, liberdade e avanços na educação e na medicina em toda a história
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.