Estou considerando andar com um canivete.

Um pequeno desabafo sobre o medo de ser LGBT em uma sociedade doentia.

Prayers for Bobby, 2009 — Russell Mulcahy

Em 11 de janeiro de 2014 um jovem gay negro foi assassinado em São Paulo. Seu nome é Kaique Augusto, ele tinha 16 anos e seu corpo foi encontrado próximo ao viaduto da avenida Nove de Julho, no centro de São Paulo. Estava desfigurado, sem os dentes e com uma barra de metal enfiada na perna. A policia atestou que foi suicídio.

Nesse mesmo período houve uma passeata por ele no centro da cidade e eu participei. Andei junto com outros LGBTs que marchavam e protestavam contra os crimes de ódio e o descaso do governo brasileiro para com nós. Então, enquanto caminhava nessa passeata, um susto: uma pessoa com o rosto coberto por uma camisa me entregou um panfleto. Achei que aquele ser (não sei se era homem ou mulher) ia tentar me agredir, mas não fez nada. Só me entregou o panfleto, olhou nos meus olhos e saiu correndo, distribuindo mais panfletos.

O panfleto era simples, em um pequeno recorte, e tinha uma ilustração de personagens aparentemente punks com bandeira LGBT. Lembro que o texto do panfleto estava escrito com várias gírias gays, de uma maneira até mesmo cômica, porém carregava uma mensagem pesada cujo me lembro algumas partes: “[…] Beeesha, deixa eu te contar uma coisinha querida! Héteros não são nossos amigos! Eles querem nos matar, eles nos matam todos os dias![…] Junte-se ao nosso movimento! Nós distribuímos canivetes e damos aulas de auto-defesa! […] Não podemos deixar que eles nos massacrem bee! Arrasa!”

Se uma mensagem dessa circulasse na internet atualmente já ia ter gente chamando esses caras (que eu nunca mais ouvi falar na vida, exceto que meses depois descobri que isso é um movimento chamado queercore, se não me engano)de heterofobicos. A parte bizarra é que eu vejo essa mensagem todo dia falando sobre como gays devem ser marginalizados, menosprezados ou até mesmo mortos, mas ai é só questão de opinião. LGBTs merecem um alvo estampado nas costas que isso não é preconceito, é só opinião. Se for hétero, é um descaso, é heterofobia.

Bem, o caso é que na época eu havia achado isso super bizarro. A única coisa que eu pensei é que eu tenho amigos héteros (hahaha heterofobico eu? até tenho amigos héteros!) e que aquela mensagem estava sendo bem exagerada, pra quê dizimar os héteros gente? São pessoas também poxa.

Mas afinal de contas, quem é que mata os LGBT’s por crimes de ódio mesmo?

Eu sei que existe uma parcela desses crimes que são cometidas por LGBT’s que não conseguem se assumir e vivem de maneira frustrada. Mas até mesmo nesse caso: esse LGBT vive frustrado por qual motivo? Por que ele não se assume? Porquê ele vive em uma sociedade de sistema heterossexual, onde quem não faz parte desse clubinho é condenado ao inferno social.

Então não deixa de ser mentira: somos mortos por heterossexuais. Quando não diretamente pelas próprias mãos, através da manutenção do sistema social dos mesmos.

Pois bem, domingo de manhã, dia 31 de julho, surgiu um texto no meu feed de notícias do facebook. Era de um rapaz chamado Renato Siqueira, relatando que ele estava andando no centro de São Paulo em direção ao metrô república quando foi enforcado por alguém, pelas costas, que estava acompanhado de outras duas pessoas. Ele gritou socorro, mas ninguém ajudou. Ele tentou se defender, mas foi espancado. Ele conseguiu fugir, mas vai ficar marcado com esse fato pra sempre. Ele poderia ter morrido.

Sabe quem caminha sozinho no centro em direção ao metrô república? Eu.

Até uns dois anos atrás eu não tinha medo de demonstrar afeto em público ou de estar com alguém. Atualmente até a perspectiva de andar sozinho me assusta. Eu não me privo, mas qualquer pessoa que se aproxima eu já fico na defensiva e cerro o punho, coisa que talvez não vá adiantar muito mas talvez me dê uma chance. Dias atrás estava em um encontro com um rapaz e ficamos na praça do Spot, do lado da Avenida Paulista. Passaram alguns caras do outro lado da rua, descendo sentido centro de São Paulo, e eles gritavam insultos uns aos outros e faziam baderna. Meu sangue gelou e por um instante eu pensei que se fossemos vistos, teríamos problemas. Não aconteceu nada e talvez eles fossem pessoas de boa, talvez até fossem LGBT’s. O ponto é: estou sendo tomado por medo a cada dia que passa.

Quando alguém aponta uma arma na sua cabeça e te manda passar seus pertences, você tem uma chance boa de sobreviver se não tentar reagir e fizer o que mandam. Quando alguém te ameaça com uma faca e te manda passar o celular, você tem uma chance boa de conseguir sair ileso.

Mas o medo do LGBT é igual ao medo da mulher de ser estuprada: se alguém vier nos agredir, se alguém vier tentar nos matar, não existe absolutamente nada que a gente possa fazer. A probabilidade de sobrevivência é acharem que você morreu ou conseguir escapar de alguma maneira, o que pode dar muito errado também. Eles não querem celular, bolsa, carteira ou carro: eles querem teu sangue. Meu sangue, nosso sangue.

Então de uns tempos pra cá, eu tenho considerado realmente comprar um canivete para guardar comigo. Algo prático, pra poder ter a chance de me defender em uma situação de violência, algo pra me acompanhar igual meu celular, a onde quer que eu vá.

E é realmente assustador tomar uma medida dessas, mas infelizmente ser LGBT tem se tornado um jogo de roleta russa com um revólver calibre 38, mas ao invés de colocar uma só capsula e deixar os outros espaços vazios, nossa vida é um só espaço vazio com todos os outros lotados de cápsulas, esperando só um aperto para atravessar nossas cabeças.


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