Eu aprendi a ter amigos

E a não mendigar a amizade de ninguém.

As vantagens de ser invisível — 2012, Stephen Chbosky

Eu sempre fui uma pessoa um pouco melancólica. Minha mãe diz que isso veio da família do meu pai, não sabe muito bem como explicar mas diz ela que da parte da linhagem dele a família sempre foi meio solitária ou depressiva, diz até que teve um parente (que eu nunca ouvi falar) que se matou. E eu tenho certeza que se herdei algo da família do meu pai, foi isso. Não o desejo suicida, mas a atitude melancólica. Acho que eu poderia até me considerar um dos Buendías, saído diretamente de Cem Anos de Solidão do Gabriel Garcia Marquez.

Você já teve aquela sensação de solidão no fim do dia? Mesmo que seu dia tivesse sido absurdamente divertido com “amigos”, mesmo que você tenha ficado sorrindo e dando risada o dia inteiro? Eu já, várias vezes. E foram algumas das piores sensações que eu já senti, pois ela era (e eu acredito que talvez ainda seja) completamente inexplicável. Como se pode ficar triste no fim de um dia tão feliz? A felicidade se esgota e depois só resta a tristeza? Ou temos uma cota diária de tristeza que precisa ser atingida?

Não sei. Mas com o passar do tempo muitas das amizades foram substituídas e eu nunca mais tive essa sensação no fim do dia. Eu acho que sentia isso porque bem lá no fundo eu sabia que eles não eram meus amigos, de fato. E hoje eu sei que não eram mesmo pois eu nem tenho mais contato com essas pessoas.

E é muito ruim passar um dia aparentemente feliz com pessoas que não sabem nada de você. Essas eram minhas amizades. Como não ficar triste no fim do dia?

Mas eu acho que parte disso foi culpa minha. Durante um período eu tentei me entrosar em círculos sociais que não tinham nada em comum comigo. Eu queria ser amigos de pessoas que já tinham muitos amigos, queria frequentar lugares que hoje, olhando para trás, eram completamente diferentes de quem eu era e de quem eu sou agora. No meio de vários flamingos eu era um crocodilo tentando fazer parte do grupo, mas não rola. Ali não era meu lugar, não era meu estilo e nunca ia ser.

Mas se ali não era meu lugar, onde era meu lugar? Atrás de uma tela de computador?

Ano passado eu tive essa sensação esquisita, lá na Avenida Paulista. Nessa época eu era muito participativo de um grupo do facebook e os membros desse grupo organizavam alguns encontros e eu até cheguei a ir em alguns, mas em determinado momento comecei a me questionar: pra quê? Não que eles sejam más pessoas, eles não são. Mas eles também não eram a minha turma, o meu rolê. Então um dia eu estava chorando na Paulista porque o meu padrinho havia morrido e eu ainda não tinha chorado, e eu passei em frente ao ponto de encontro dos membros desse grupo e eles estavam lá. Eu pensei em parar, em ir me distrair com eles, tentar dar risada. Mas era isso que eu precisava? Não. Eu precisava de alguém pra me confortar, eu precisava expulsar as lágrimas que estavam esquecidas em mim pois eu me esforcei ao máximo, por meses, em tentar não pensar no assunto. Eu tive a sorte de encontrar uma amiga (sim, uma amiga) no reserva cultural, que me recepcionou toda sorridente falando que estava com saudades. Sentamos na cafeteria e ela disse:

— E ai, como você está?

— Eu…

E comecei a chorar. Uma torrente de lágrimas. De soluçar. De doer o peito. De ficar sem ar. Acho que assustei ela, mas ela ficou ali comigo até eu conseguir parar de chorar e contar tudo que estava acontecendo. Era essa a pessoa que eu precisava, e acho que o universo colocou ela ali para mim. Não que o universo gire ao meu redor, mas se eu tenho um sentimento por ele e por essa amiga, é gratidão por ela ter estado ali.

Eu não sou exatamente uma pessoa sem amigos ou que não gosta de ter amigos. Ou que é anti social. Eu só não sei exatamente quando as pessoas se tornam meus amigos e se elas chegam a serem meus amigos. Colegas de balada ou de bar é uma coisa. Ter alguém pra te apoiar em um momento difícil ou ter alguém que faça questão de te ter por perto é outra.

Tudo fez sentido pra mim em uma festa, onde essa mesma amiga me abraçou e me disse que eu era “uma pessoa muito querida”.

Sabe quando alguém havia dito isso pra mim? Nunca. E eu me senti tão querido, tão amado, que acho que finalmente entendi o que era ter um amigo. O sentimento de amizade. E aprendi a não tentar fazer parte de um rolê que não fosse o meu, de uma turma que não fosse a minha.

E aos poucos eu fui fazendo outros amigos por interesses em comum. Claro que são poucos, mas são meus amigos, e eu fui descobrindo as minhas turmas e rolês e fui sentindo com quem eu queria estar, com quem eu deveria estar. Pois eu não escolhi meus amigos. De um dia para o outro eram eles, pronto e acabou. E eu tenho essa coisa engraçada de ficar feliz quando penso muito neles.

Mas eu sei que as vezes é difícil se abrir para as pessoas. Pessoas mentem, enganam, manipulam. Ter um amigo é diferente de qualquer outra relação interpessoal que você possa ter, pois é mostrar-se vulnerável. Acho que mesmo quando você namora ou quando você está casado, e você gosta muito dessa pessoa, é preciso ter um amigo. Meredith Grey precisa de Cristina Yang, e você também vai precisar de alguém. Alguém de verdade, não uma janelinha de texto do facebook com uma foto estática.

E eu definitivamente não sei quanto tempo dura uma amizade. Não acho que seja algo calculável, nada desse tipo é. A vida vai acontecendo e vai transformando a gente, com o tempo pode ser que não dê mais pra fazer contato. Estar presente. Mas é muito bom saber que, naquele período, foi importante. Naquele período, fez a diferença.

Desde então, para as amizades que eu vou fazendo eu sempre tento deixar claro o quanto eles são importantes para mim, e para as que eu já tinha (e que aqui confesso quase ter perdido elas por não saber demonstrar o quanto elas eram queridas) eu passei a mostrar como me importava e como queria ter elas por perto.

Esse ano eu fiz um jantar em casa e chamei amigos e colegas, mas principalmente amigos. Eu fiz hambúrguer caseiro pela primeira vez enquanto bebia vinho e gotículas de óleo quente pingavam na minha mão as vezes (que eu não sentia por motivos de: álcool). E meus amigos estavam aqui, na cozinha da minha casa, conversando comigo, dando risada, elogiando a comida e se oferecendo para me ajudar com as coisas.

E tiraram essa foto minha:

Quando eu a vi no outro dia, tive a certeza de que após todo mundo ter ido embora e eu ter deitado na cama, eu não fiquei triste. Tive a certeza de que dormi com um enorme sorriso no rosto.


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