Há poesia no sexo.

Love — Gaspar Noé, 2015

Primeira parte: os rótulos sociais do sexo.


Desde que me entendo por gente e desde que o mundo é mundo, existe o ato sexual nele. E desde que o homem existe ele foi transformando aos poucos o mundo em um enorme super mercado onde todos os aspectos e facetas da humanidade são rotulados, redesenhados e vendidos iguais a produtos. O que é feio ou bonito, o que usar, como se comportar, do que gostar, como pensar. E com o sexo, não seria diferente.

E o sexo nos é vendido de várias e várias maneiras: romantizado de um jeito excessivo, fetichizado, depravado, delimitado como proibido, delimitado como a melhor coisa do mundo, associado ao pecado, associado a poder. Todas essas características estão nas prateleiras para vender. E elas vendem muito: para jovens, adultos e idosos. Para homens e mulheres. Qualquer um está passível a comprar essas descrições. Mas as vezes precisamos ver o sexo do jeito cru que sentimos ele, sem comprar um roteiro pré-estabelecido em prateleiras que vai definir como devemos nos sentir a respeito dele.

Os motivos que fazem uma pessoa gostar de sexo não são válidos para todas as outras pessoas. Tem gente que gosta de sexo por ser um jogo de poder, dominação e submissão. Mas tem gente que gosta de sexo pelo sentimento que aquele ato com alguma pessoa em especial representa. Não se tem uma unanimidade a respeito das razões pelas quais as pessoas gostam de sexo, e não tem nada de errado nisso. O problema de transformar sexo em produto é correr o risco de limitar quem você realmente é.

Muitas vezes esses rótulos sequer são para nós mesmos e sim para que sejamos socialmente identificados. Na nossa sociedade, a mulher muitas vezes é obrigada a comprar o rótulo de que só gosta de sexo quando está apaixonada. O homem compra o rótulo de que só transa por transar, se estiver apaixonado ele é viado. O gay compra o rótulo do promíscuo, a lésbica compra o rótulo de que “não transa”. Compramos rótulos, somos rotulados, delimitados, amarrados. E a pior parte é que as vezes sentimos medo de nos desprender deles, pois isso gera julgamentos.

Blue is the warmest color — Abdellatif Kechiche, 2013

Segunda parte: a poesia e o sexo.


Eu descobri o “sexo” ainda muito cedo, quando criança. Não gostaria de ter descoberto naquela hora, pois isso foi algo que claramente mexeu muito com minha cabeça, mas agora já foi e hoje eu já acho que tenho maturidade o suficiente para lidar e discorrer sobre o assunto.

Pois bem, desde que eu soube que existe o sexo, sempre rolou uma mistura muito conflituosa dentro de mim. De um lado, por ser extremamente tímido, eu via o sexo com frequência durante minha adolescência como algo depravado, do qual qualquer pessoa deveria ter vergonha de conversar publicamente ou de expor o assunto. Do outro lado, eu criava uma super valorização e romantização dos sentimentos de paixão, amor e carinho, e era completamente incapaz de interligá-los ao sexo. Na minha cabeça, o sexo era algo errado, e o amor, quando cultivado, não gerava sexo. O meu mantra de “quem ama cuida” havia sido substituído por “quem ama não transa”.

Eu tive alguma conversa com alguém que eu não vou lembrar agora, e essa pessoa me perguntou se eu sabia a diferença entre poema e poesia. Eu, burro do jeito que sou, não entendi a colocação e para mim ambos eram a mesma coisa, até que esse alguém me explicou que, na verdade, existe uma diferença. Portanto, vou discorrer ao dicionário e suas especificações, seguindo de exemplos para ilustrar o que ele me disse.


po.e.ma — 1. Obra em verso ou não em que há poesia.
2. Composição poética de certa extensão; com enredo.”

po.e.si.a — 1. Arte de criar imagens, de sugerir emoções por meio de uma linguagem em que se combinam sons, ritmos e significados.
2. Composição poética de pouca extensão.
3. Gênero poético
4. Caráter do que emociona, toca a sensibilidade”

E no exemplo desse meu amigo: “Poesia é tudo aquilo que se sente.”

Portanto, os sentimentos e o sexo são interligados assim como o poema e a poesia. O poema é a transcrição daquilo que se vêm por poesia. O sexo é transcrição daquilo que se vêm por seus sentimentos interiores, sejam eles amorosos ou não. E isso reflete quem nós realmente somos. O próprio significado da palavra poesia sugere sexo: “1. Arte de criar imagens, de sugerir emoções por meio de uma linguagem em que se combinam sons, ritmos e significados.”

E o que é o sexo, se não arte e poesia?

Weekend — 2012, Andrew Heigh

Terceira parte: a poesia não precisa ser amorosa.


Existe poesia no sexo, pois poesia é tudo aquilo que sentimos e o sexo é realizado e idealizado por aquilo que sentimos dentro de nós. Mas nem sempre o que sentimos é afeto, amor ou paixão. Nem sempre o sexo tem um pano de fundo amoroso, e não tem nada de errado nisso. Desde que o pano de fundo do sexo seja quem você realmente é, e não um produto criado para isso.

A poesia não existe somente como um fruto de complexos sentimentos amorosos em colapso. Ela surge de qualquer coisa que nós sentimos. E canalizar tudo o que sentimos em um ato é completo de significado, e aquilo que tem significado faz sentir. E o que faz sentir, é poesia. E arte.

Portanto, mesmo o sexo mais sujo tem seu fundo artístico. O lado mais depravado, obscuro e secreto das pessoas tem sua faceta bela, que é cheio de significado e histórias por detrás.

Não precisamos tratar o sexo como um produto de mercado. Não precisamos tratar o sexo como algo super romantizado e não precisamos tratar o sexo como algo vergonhoso. Precisamos tratar o sexo da maneira que ele existe: sendo sexo, e sendo nós, sendo arte. E a honestidade consigo mesmo, gera a poesia.


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