Não tem nada de errado em odiar.

Taylor Swift — Look What You Made Me Do (2017, breaking the internet)

São 3:45 da manhã. No meu fone de ouvido toca Léon, uma cantora maravilhosa que descobri acidentalmente graças ao spotify. Na minha timeline surge mais uma postagem sobre como Taylor Swift está sendo infantil e imatura com essa história toda e sobre como ela, novamente, está se fazendo de vítima e trazendo o discurso de ódio para o mundo musical. Já dizia Petyr Baelish: O caos é uma escada. E quem construiu essa escada foi a Taylor Swift.

Deixa eu contar uma história aqui.

Lá em 2012 eu estava no segundo ano do ensino médio. Nessa época eu estudava em um colégio de período integral que devia ter, no mínimo, uns 500 alunos. Provavelmente tinha mais. No colégio haviam várias meninas homossexuais (existe uma piada interna, inclusive, que é no Alexandre Von Humboldt que as “sapatas” se descobrem) e o comportamento delas era, digamos, aceitável. As pessoas não implicavam se duas meninas se abraçavam ou se beijavam no corredor da escola, e não porque “tudo bem homossexualidade entre meninas” e sim porque: machismo, fetichismo e etc etc. O que não torna a situação menos pior. Porém, de meninos gays deviam existir, no máximo, uns seis. E isso contando comigo.

Nessa época eu comecei a me relacionar com um garoto e a gente meio que teve um namoro que não foi um namoro. Eu era mais novo, ele era um pouco perdido com os objetivos de vida dele. Rolou que, cerca de dois meses depois que estávamos nesse “relacionamento” ele ia precisar ir embora para Cuiabá e a gente provavelmente não ia mais se ver, logo, iríamos terminar. Próximo da data de partida ele apareceu do nada na saída do meu colégio (nós tinhamos uns ônibus fretados que ficavam em um pátio dentro do terreno do colégio e nossa saída era por lá). Ele apareceu, me abraçou chorando, me deu uma aliança “de namoro” e me deu um selinho no meio do pátio de saída do colégio. Minhas amigas ficaram comovidas e a gente se despediu. Fui para casa.

Presta bastante atenção nessa parte: um selinho.

Selinho.

Chegando em casa eu abri meu facebook e me deparei com uma série de postagens de um dos meus “colegas de classe”. Vários insultos homofóbicos e xingamentos, obviamente sem citar meu nome. Nos comentários, um amigo dele postava “mano, fica calmo cara, bora conversar” enquanto ele insistia em escrever com caps lock como se estivesse gritando com alguém. Lembro que entre suas postagens até rolou algo do tipo “Eu estava começando a te respeitar e você me deu uma dessa, filho da puta” e era daí para baixo. Eu suspeitei, mas não quis acreditar. Acabou que confirmaram para mim que, na saída do colégio, ele viu o meu “namoradinho” me dando um selinho e surtou dentro do ônibus xingando a gente de tudo quanto era palavra possível.

Eu, muito inocente na época e com medo dos outros, decidi que ia tentar usar minha aula de sociologia (julgando que meu professor entenderia, tão inocente!) para tentar explicar que o namoradinho estava indo embora de São Paulo e que a gente não ia se ver mais. Levei todos os presentes que ele me deu numa sacola, até um urso de pelúcia amarelo. Chegando na aula pedi licença para explicar, fui até a frente da sala e comecei a falar. Quando terminei, o resultado foi:

“ — Eu não sou obrigado a ver essas coisas dentro da escola.

— Isso é nojento, na moral. Não tenho nada contra mas faça isso em 4 paredes. Ninguém precisa saber.

— Pra quê beijar na frente de todo mundo?”

Foram dois alunos contra mim e uma sala inteira em silêncio. Não culpo meus amigos por terem ficado em silêncio: eu também fiquei. Éramos muito inocentes. O professor concluiu:

“ — É, escola não é espaço para isso”

Naquele dia eu fui embora sem entender o que tinha acontecido. Cheguei em casa, vim para o meu quarto, deitei na minha cama e chorei. Eu fui rejeitado, proíbido, excluído, xingado e demonizado. Lembrei subitamente que, dias antes do ocorrido, o garoto das postagens havia dito em uma aula que se ele tivesse um filho gay ele ia dar porrada até virar homem. Fez até uma piada falando que ia fazer ele rolar uma ladeira.

A sala riu. Eu não ri.

Agora, voltamos para 2017, cinco anos depois do ocorrido.

Estou no ônibus voltando de um serviço quando encontro uma conhecida. Papo vai e papo vem, descubro através dela que o indíviduo das postagens, o que disse que empurraria o filho da ladeira se fosse gay, havia contraído uma bactéria e estava correndo risco de vida.

Institivamente e com certo deleite eu desejei que ele morresse. Eu fiquei por dias fuçando o perfil do facebook dele esperando que algum conhecido postasse alguma mensagem de luto, algum aviso de que ele havia morrido. Mas ironicamente eu me deparava com mensagens de apoio, de pessoas dizendo sobre como o fulano era uma boa pessoa e sobre como Deus ia prover um milagre na vida dele pois ele tinha um bom coração.

Deus ia prover um milagre na vida do cara que me traumatizou no meu ensino médio. Piada né. O caso é que aparentemente ele se recuperou e passa bem.

Que pena.

Outra história, mas agora bem abreviada.

No ensino fundamental eu não tinha amigos homens. Acho que eu tinha um ou dois, algo do tipo. Vivia rodeado pelas meninas porque os garotos me zoavam pelo meu jeito. Nunca aprendi a jogar futebol porque eu não levava jeito para a coisa e eles me xingavam demais. Eu sempre fui o bixinha, o veadinho, a menininha da classe. E eu lembro que eu odiava todos eles por isso. Eu ficava pensando em como ia me vingar daquelas pessoas e na época tive uma idéia que me pareceu muito coerente: eu ia estudar muito, ficar rico e fazer eles trabalharem para mim por um prato de comida, e todo mundo que me maltratou ia se arrepender de ter feito isso.

Ponto.

Observação:

Good Vibes é o caralho.

O mundo é infestado de gente filha da puta. Eu consigo perdoar a grande maioria, sério. Apesar de tudo isso eu não sou uma pessoa que sente muita raiva ou ódio do que os outros fizeram comigo e tenho o dom de rapidamente esquecer essas coisas.

Mas se eu não esqueço, então desiste. Eu vou morrer e vou levar esse sentimento comigo. E não, não acho que tenha nada de errado com isso.

Os poetas cheios de paz e amor no coração dizem: odeie seu ódio. Eu acho que isso se aplica a algumas coisas, mas não se aplica a outras. Não se aplica quando alguém te fez mal diretamente sem motivo nenhum. Então eu não odeio meu ódio: eu abraço ele, como um velho amigo. Sentamos juntos, damos risada, contamos umas fofocas sobre o passado e sobre o presente, como velhos colegas que se vêem muito raramente. Eu aceito o fato de que sou imperfeito e de que não sou obrigado a ser superior e a saber perdoar sempre.

Mas não vamos confundir as coisas.

Eu me refiro a um ódio que é fruto de uma ação e reação. Então não tem espaço e nem acho aceitável o ódio por simplesmente ter o que odiar. Isso vale para homofóbicos, racistas e afins. Se você for odiar alguém, que seja por terem te feito mal e existir de fato um motivo para isso. Mas não odeie alguém por essa pessoa ser o que ela é. Isso não é aceitável e aqui isso fica bem explicito: o fulano do colégio me odiava por eu ser gay, mas eu nunca fiz mal para ele. As postagens dele, os comentários e toda a situação me fizeram um mal gigantesco.

E eu odeio ele. E eu não ligo de odiá-lo. Eu aceito o sentimento e vivo com isso. Não é grande coisa. Muitas coisas são possíveis de serem perdoadas. Algumas coisas não são e eu convivo com elas. Vida que segue.

Então você, que se acha superior porque seu auto nível de aura chakra te permite uma espiritualidade elevada e no seu mundinho perfeito imaginário as pessoas devem se perdoar e se amar e desejar que os outros mudem enquanto correm em um arco-íris gigante de mãos dadas, Parabéns por ser assim! E foda-se.

Foda-se porque ninguém é obrigado a engolir esse papo furado. Somos humanos e somos imperfeitos.

Quem perdoa e esquece é Deus. Eu sou Renan Oliveira.