Capítulo 01 | O céu cor de Laranja

Renan
Renan
Jul 28, 2017 · 3 min read

É muito bom acordar pela manhã e sentir que aquele dia vai ser diferente de todos os outros, mesmo fazendo exatamente a mesma coisa. Na época, eu sabia a definição de loucura, mas a contestava sempre. Tão tolo.

Então, resolvi pegar minha xícara de café no coador de pano enquanto me arrumava, era uma espécie de ritual. Tinha o hábito de dar notas de 0 à 10 para os cafés que eu fazia e em média eles ficavam com 9, já que não tinha ninguém lá pra discordar de mim.

Banho, feito. Vestir uma roupa limpa, feito. Café da manhã, que era literalmente só uma xícara de café, feito. Ver se o computador estava dentro da mochila preta com botons do homem aranha, feito.

Quero abrir um parênteses aqui. Todos os dias no metrô eu escutava episódios dos meus podcasts preferidos e, consequentemente, dava boas risadas, e isso era algo muito prazeroso. Não pela risada em si, mas o sentimento de confusão no rosto das pessoas vendo um cara adulto, no auge dos seus 25 anos, dando risada sozinho com fones de ouvido. Isso não tinha preço.

Já estava nesse mesmo emprego haviam 3 anos, e eu era constantemente infeliz lá. Trabalhava muito e com algo que eu não gostava, pra variar. Eu realmente me sentia asfixiado, sem opções, sem saída. Talvez eu estivesse, mas eu sabia quem me prendia, não é, Álvaro?

Trabalhava num escritório de advocacia como assistente de um cara muito, muito babaca. Ele era um advogado renomado de São Paulo e cuidava de casos de grandes empresas. Uma vez, ele ganhou um caso em que o lucro passou dos 6 zeros, se é que me entendem. O que eu posso dizer é que, apesar de tudo o que esse cara representava, ele era honesto e eu conseguia faturar uns bons reais trabalhando pra ele.

Dinheiro que era convertido em viagens sempre que eu podia. Era minha fuga e, como eu só tinha que me preocupar comigo mesmo, era tudo mais fácil. Uma vez fui parar numa casa de praia na ilha bela, no por do sol, torcendo pra não anoitecer e aquele céu crepuscular durar mais tempo.

Eu adorava olhar pro céu e pras estrelas.

Como era solstício de verão, eu achava aquilo até um pouco esotérico. Os livros que eu lia sempre retrataram esse acontecimento como algo místico, espiritual até. Pra mim era apenas solene, um momento de reflexão, um dilema. Eu guardo aquele fim de tarde na memória, mas não porque eu gostei, de fato, mas sim porque me senti muito sozinho.

Sabe o que eu gostava mesmo? Eu gostava de escrever.

Quando eu era apenas um padawan, escrevi 5 livros. Um romance, uma ficção científica, três dramas. Não foram publicados por nenhuma grande editora, mas meus amigos compravam pra me apoiar e me classificavam como um cara muito promissor. Foi a melhor época da minha vida, eu estava no fim da faculdade de letras, empolgado e vislumbrado com o mundo e tudo o que ele tinha pra me oferecer. Tão tolo.

Renan Sousa

Método de documentar e “croniquizar” a vida

Renan

Written by

Renan

Editor, leitor e ex-escritor apaixonado

Renan Sousa

Método de documentar e “croniquizar” a vida

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade