Tem designer que faz marca e tem designer que faz cicatriz

Aonde está a Trendt?!

Até a minha assessora de imprensa me pergunta: Cade a Trendt?!
Foto: Nendo

Introdução:

Na sociedade atual, sinônimo de marca é fazer barulho com o lançamento de uma coleção nova a cada 6 meses, alimentar a dependência dos consumidores que possuem auto estima baixa e que se presenteiam com roupas novas pra melhorar o humor.

Foto: Vtão Takayama

O excesso de exposição, mostra a falta de conteúdo, tudo passa a ser imagem por imagem, desejo por desejo, posicionamento por posicionamento.

A mídia de consumo prioriza a seleção de pessoas superficiais, pois, é essencial que não haja questionamento, o capitalismo precisa de líderes com ego baixo, que se iludam com a posição/oportunidade que lhe foi garantida. Eu tive a oportunidade de ser superficial, mas, logo que comecei a questionar as incoerências do mercado comecei a ser boicotado, existia então duas opções na minha cabeça:

1˚ Me render ao sistema, ser um designer de uma marca e passar por cima da ética, e, pra amenizar, sonhar que algum dia, com a minha ajuda isso poderá mudar. (Positivismo sempre, quem não?!)
2˚ Ser relevante na sociedade, construir alicerces pra um dia poder voltar a fazer o que eu gosto e deixar não só uma marca mas uma cicatriz na história. (Romântico, mas não impossível)

Problemas e Soluções:

Fui na segunda opção e comecei a parametrizar todos os problemas, alguns amigos até me disseram pra primeiro crescer e depois resolve-los, juro, que fui a fundo, mas não encontrei nenhuma marca que nasceu torta e depois se endireitou. Os problemas abaixo todo mundo já conhece e está latente, mas não deu pra eu ficar esperando alguém fazer.

Já não basta a moda brasileira esperar os gringos fazerem, agora, esperar que escrevam nosso Business Plan já é D+!

Todos os problemas abaixo estão intitulados como 1. porque eles têm a mesma urgência:

  1. Quantidade de resíduos gerados: não é só retalhos de tecido, também tem inúmeras modelagens de papel erradas (que até agora não existe uma solução pra isso, tem alguém ai pra solucionar isso?), protótipos que não deram certo, fichas de produto e arquivos, etiquetas de papel e de composição, sacos e embalagens plásticas, logística…
As etiquetas e aviamentos já tem uma solução ética, se o fornecedor pedir 2 mil unidades e eu só preciso de 500, pago por duas mil e peço pra fabricar só 500
  1. Gestão financeira: essa é clássica e os problemas são os mesmos de um jovem costureiro até uma holding, a diferença é que eles vão se tornando mais complexos e divididos entre mais pessoas que se ocupam em executar tarefas repetitivas ao invés de conhecê-las profundamente, automatizando-as para eliminar o erro humano (quando a função automatiza, temos que nos adaptar a novas que ainda não foram). Por isso, resolvi investir num sistema de gestão entre confecções, marcas, lojistas e consumidor final, depois de cerca de 20 meses de investimento ele acaba de receber um aporte de 2MM =D assim que ele entrar no ar eu compartilho.
Disso, não sobrou nada pra mim, eu só quero algo que funcione de verdade e que seja gratuito pra todos os jovens empreendedores
  1. Fornecedor: nas 3 primeiras coleções, eu contava com fornecedores externos, apanhei muito até que entendi o escopo das funções e montei minha própria oficina, por um tempo eu canalizei meu prazer como designer materializando-o em produtos ideais, mas, depois de um tempo se tornou preocupação, gestão de pessoas, financeiro, treinamento constante, tempo e depois veio a empatia (destuidora), “se esses colaboradores se deslocam diariamente pra cá, em que momento aproveitam seus filhos e família?” Vi aí, uma situação desumana e resolvi doar não só a confecção mas também o setor de modelagem e a estamparia (esta, eu havia herdado do meu pai), cada setor ficou com o seu respectivo supervisor. Agora eles fazem o horário deles, com equipamentos de ponta, trabalham de casa para muitas das marcas que vemos ai pelo SPFW. Eu virei um cliente que paga o real valor pelo trabalho deles e respeita o tempo de cada um.
Foto: Victor Nomoto na Casa do Povo
  1. Tecidos: quem compra Trendt desde a primeira coleção enxerga como o tecido vem evoluindo coleção após coleção, mas após essa última eu não consegui desenvolver uma versão melhor, por isso, a partir de janeiro passarei alguns meses dentro de uma tecelagem que tem todos os tipos de teares e logo mais compartilho o resultado do novo Knitnano e nomes dos envolvidos.
Na minha cabeça, não faz sentido nenhum eu lançar um desenho novo só pra vender mais, tem que ter um motivo maior, como foi até hoje.
  1. Lavanderia: eu como consumidor estrago todas as minhas roupas quando as lavo, algumas no primeiro uso (coitadas das brancas e/ou delicadas), ao invés de eu focar minha energia de designer e criar mais produtos loucamente, resolvi buscar uma solução que tornasse-as invencível, por isso em 2016 também foquei no Biosoftness, agora está um entrave pra produzir no Brasil, eu levanto essa bandeira e me f**** com honra, quero que tudo que se crie aqui dentro seja revertido para o país tanto em dinheiro quanto em imagem.
foto da internet

A solução pra muitos desses problemas está em se aprofundar em cada tema, não dá pra logo de cara terceirizar e dizer “disso eu não entendo, por isso contrato ou faço parceria”, é essencial que, como empreendedor, eu devo compreender onde estão todos os gargalos e falhas, e, delimitar elas dentro de um escopo, caso contrário, eu iria crescer como 100% das empresas de moda brasileira que conheço, ‘linda’ por fora e uma zona por dentro. (Caso isso não seja verdade, quero nomes no comentário!)

Outro lance é: esqueçe o Business Plan, quando você colocar ele em prática muita coisa já vai ter mudado. #despreendimento

Foto: Victor Nomoto
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Conclusão:

O tempo ganhou uma nova dimensão, da mesma maneira que 1 ano entre os seres humanos representa 7 anos para os cachorros; eu sinto como se 1 ano representasse 1 mês na minha vida. O significado de ser ‘bem sucedido’ e ‘dar certo’ tomou uma forma diferente, tudo passou a ter mais significado, coerência e consistência, nada é por acaso.