Renata Mendes
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Renata Mendes

Verdadeiros companheiros do homem, bichos de estimação ajudam dono a enfrentar doenças. / Foto: Jens Enemerk

Animais como aliados no tratamento de doenças

Bichos se tornam importantes personagens para a recuperação do homem

Três cães passeiam pelo Instituto Central do Hospital das Clínicas, em São Paulo. Antes de entrarem, bebem água e limpam as patas para então começar a visita. Com uma bandana no pescoço, o labrador Argos, o golden retriever Namour e a vira-lata Chanel já sentem-se à vontade no local.

Logo de cara, é notável a diferença que os animais fazem no lugar. Pelos corredores são abordados por funcionários que se aproximam com um sorriso no rosto para acariciar e brincar com os bichos. Quando chegam ao oitavo andar, os peludinhos já estão preparados para atender aos pacientes da ala geriátrica. Cada idoso reage de uma forma diferente. Uns preferem se manter distantes, mas a maioria recebe o trio em suas camas.

Cães voluntários da ONG Patas Therapeutas durante atendimento no Hospital das Clínicas. / Foto: Patas Therapeutas

Os cachorros fazem parte da Organização Não Governamental (ONG) Patas Therapeutas, que desde 2012 atua com Terapia Assistida por Animais (TAA), zooterapia ou pet terapia, que consiste na interação entre o homem e o animal visando melhora na saúde. Os voluntários trabalham com ou sem seus próprios bichos, levando os pequenos terapeutas a abrigos, asilos e hospitais.

A idade mínima para que o bicho seja usado na terapia é de um ano, precisa ser adulto e não há distinção de raça ou tamanho. “O primeiro pré-requisito é ser um animal afetivo. Ele não pode morder ou ficar rosnando”, explica Silvana Fedeli, psicanalista e fundadora do Instituto. Cães e gatos tomam vacinas para prevenir zoonoses, são castrados e os cachorros recebem adestramentos de comportamento básico.

Tratamento com animais também aparecem dentro de consultórios de psicologia. A clínica Gati Equoterapia (Grupo de Terapia Integrada) promove a relação entre humanos com diferentes espécies como cães, tartarugas, coelhos, calopsitas, porquinho da índia e até bicho de pau. O local tem parcerias com escolas da região, atendendo principalmente o público infantil com problemas de aprendizagem. “Em comparação com a terapia clínica convencional, com animais tem um retorno mais rápido”, afirma Julia Carvalho, psicóloga e coordenadora da Gati.

Animais são utilizados pela GATI Equoterapia durante consultas com pacientes. /Foto: Gati Equoterapia

Até quem aparentemente não gosta de animais procura esse tipo de serviço. “Há pacientes que buscam por terem fobia. Então vamos descobrir o que causou isso”, narra Julia. Além da pet terapia, utilizam a equoterapia que faz essa dinâmica com cavalos. “Na equoterapia lidamos com a reabilitação. Atendemos crianças com dificuldades motoras e com síndromes raras”, conta a coordenadora. Esse método foi oficializado em 1998 pela Associação Brasileira de Equoterapia e é aceito pela Medicina.

Mesmo com avanço dos estudos em torno da zooterapia, ainda há quem olhe com conservadorismo essa ferramenta de intervenção. “Comprovação científica tem, só falta reconhecimento”, relata Julia. Em contrapartida, a aceitação está maior. “A diferença de quando eu comecei para agora é imensa. Antes nós tínhamos que correr atrás dos hospitais”, fala Silvana.

Em fevereiro de 2018, entrou em vigor a Lei Nº 0355/17, que permite a entrada de animais de estimação dos pacientes em hospitais públicos em São Paulo. Agora os donos podem receber visitas de seus amigos de quatro patas. “A diferença é que esses só podem ser manuseados pelos próprios donos”, explica a psicanalista.

Considerada como mal do século 21, a depressão é um distúrbio mental que se caracteriza pela falta de interesse por prazeres da vida, tristeza e desânimo por um longo período. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que mais de 350 milhões de pessoas sofrem com a doença. No Brasil 5,8% da população enfrenta esse problema.

O acompanhamento profissional é fundamental para lidar com a patologia. Mas o convívio com animais aparece nas receitas médicas. “É interessante que a pessoa tenha um bichinho, uma planta, ou seja, seres vivos que precisam de cuidados. Isso move alguma coisa”, aponta a psicóloga Renata de Abreu.

Os bichos podem ser grandes estimulantes no combate. “Podem ajudar através da vinculação afetiva em um contato passageiro ou de longo prazo, com o próprio animal doméstico ou através do acesso constante a um animal de apoio emocional (ESAN — Emocional Support Animal) participante de uma intervenção psicoterapêutica”, conta a psicóloga Vanessa Monteiro.

Quem possui um animal sabe a importância e o papel que eles têm em sua recuperação. A estagiária em jornalismo Tainá Fernandes, 19, teve crises depressivas em junho de 2017. “O psiquiatra me recomendou ficar perto de coisas que me fazem me sentir bem”, relata a jovem.

Amora é a grande companheira de Tainá e leva alegria para a jovem. Foto: Arquivo pessoal Tainá Fernandes.

Três semanas depois, seus pais lhe deram Amora, sua cachorrinha. “A energia que ela me traz, de querer chegar em casa, de eu querer ver ela pulando, me abraçando e cuidar dela me dá um motivo a mais pra continuar aqui”, completa.

A depressão é uma patologia que pode ser genética, mas “qualquer pessoa está sujeita a passar por instabilidades psicológicas, sem qualquer distinção de gênero ou raça ou classe ou qualquer outro quesito”, comenta Vanessa. Pode estar ligada a outros desequilíbrios psicológicos como a ansiedade.

Ela se caracteriza pela insegurança e o medo que, quando fogem do controle, são sentimentos perigosos. A OMS aponta que cerca de 33% da população convivem com a ansiedade. Já no Brasil, 18,6 milhões de pessoas enfrentam o problema, sendo o maior índice mundial.

Leia mais em: Revista Entre Patas

Camila Silveira, 24, atendente de telemarketing, descobriu ter a doença há dois anos. “Me falta ar e o pensamento fica acelerado. Costuma durar de 5 a 8 minutos para eu me acalmar”, narra. Quando ocorrem as crises, busca controlá-las com a respiração.

A preocupação é um fator que fez com que Deise (nome fictício), 51, desenvolvesse a doença. Passava noites em claro pensando nas pendências no dia seguinte e como solucioná-las. Buscou ajuda clínica e lhe foi receitado um medicamento. “Para evitar tento ocupar meu tempo com coisas que eu mais gosto de fazer, como cuidar de plantas sair pra conversar, e sempre pensar positivo e confiar em mim”, conta.

A primeira já tinha um cachorro, o Napoleão, quando foi diagnosticada com o transtorno. “Quando tudo começou, ele já estava comigo”, afirma Camila. “Pego ele, fico fazendo carinho, deixo ele me lamber e por último e não menos importante, converso bastante”, continua. Já Deise adotou Bob posteriormente e convivem há quase um ano. “Ele mudou minha rotina. Agora levanto cedo para cuidar dele”, diz.

Seja dentro dos hospitais, clínicas ou em casa é notável os benefícios que os animais trazem para a saúde humana. Criar um pet é uma maneira de se distrair, criar responsabilidades e, claro, ter um amigo ao seu lado. A troca de afeto é um dos motivos que comprovam melhora na qualidade de vida do indivíduo.

A parceria homem e animal traz melhorias para o processo cognitivo mental e físico, além de ajudarem com a produção de hormônios como endorfina. “Esses benefícios quem ganha não são apenas os pacientes.Todas as pessoas que entram em contato com animal, mesmo que seja visual, se beneficiam. E os animais também liberam. É uma terapia completa para todos”, diz a psicanalista Silvana.

Na TAA os profissionais que se envolvem com os pacientes sentem-se satisfeitos em contribuir nessa relação. “A pediatria de um dos hospitais diz que no dia que a gente vai lá as crianças tomam menos medicação. Todo dia é uma emoção diferente”, declara Silvana.

A assistente social Priscila Gaia, 35, enfrenta problemas com ansiedade desde 2009, que com o tempo desencadeou em uma depressão. Em 2013, mesmo ano em que começou o tratamento terapêutico, ganhou a gata Serena com 45 dias de vida. Teve outras felinas, mas hoje convive só com uma. “Uma irmã dela morreu porque caiu do décimo primeiro andar. Depois adotei outras duas, uma desapareceu e a outra foi morta por um cachorro”, narra Priscila.

No ápice da depressão há três anos, sentiu-se muito perdida, com dificuldades de sair da cama e até tentou suicídio. Nessa época, dividia apartamento com duas garotas. “As pessoas me tratavam como se fosse uma estranha. O afeto que eu tive veio dos animais. Aquilo que muitas pessoas falam ‘ah o gato é um bicho egoísta, ele só pensa nele’ não é assim. Eu tive o amor das minhas gatas”, conta.

Serena é a grande amiga de Priscila e seu animal de apoio emocional (ESAN). “Quando eu precisar viajar de avião, ou alguma coisa, ela vai ter um atestado de que ela é um animal de suporte psicológico”, explica a jovem. “Eu cuido o máximo possível para que ela dure bastante, para que a gente possa viver muitas coisas felizes juntas”, finaliza.

Após a publicação da reportagem na Revista Entre Patas, Serena, gata de Priscila Gaia faleceu após uma complicação. Deixo esse texto e meus sentimentos a Priscila.

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Jornalista. Espaço para registrar reportagens, matérias e outros trabalhos na comunicação.

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