Por que ler o Pequeno Manual Antirracista de Djamila Ribeiro?

Renata Arruda
Mar 11, 2020 · 3 min read
Foto: Divulgação/Companhia das Letras

Nas últimas semanas vimos Lucas da Silva Nascimento, professor de artes da prefeitura de Duque de Caxias, negro, ser preso como bandido por filmar uma abordagem policial abusiva em um supermercado; no dia seguinte, a Mangueira entrou na Marquês de Sapucaí com uma alegoria que trazia um rapaz negro crucificado. A ironia é que a imagem do rapaz, periférico, com os cabelos oxigenados, em muito se parecia com o visual do professor e, assim como este, não havia nada que indicasse que ele era, de fato, algum tipo de criminoso. No entanto, muitos correram para gritar “blasfêmia” e acusar a escola de ter colocado “um bandido” no lugar de Jesus Cristo, em uma reação que demonstrou justamente o ponto no qual o carnavalesco queria chegar: o racismo e o classismo estão tão arraigados em nossa sociedade que pessoas negras e periféricas, principalmente os homens jovens, são julgados como marginais apenas por existir e ocupar espaços, mesmo que não tenham cometido crime nenhum. Assim, a violência que sofrem e mesmo suas mortes não sensibilizam ou revoltam quase ninguém.

Nos últimos dias, o anúncio de uma série ficcional sobre Marielle Franco, idealizada por Antonia Pellegrino e com direção de José Padilha, levantou desconfiança e inúmeras críticas da comunidade negra, o que fez com o que os envolvidos se defendessem da forma mais equivocada possível: distorcendo o conceito de racismo estrutural para alegar a ausência de “um Spike Lee e uma Ava DuVernay brasileiros” — ou seja, desmerecendo o trabalho de realizadores negros para justificar o chamado Pacto Narcísico da Branquitude (em que o grupo hegemônico deprecia e mina as possibilidades de desenvolvimento e evolução de negros para exaltar-se entre si) — , e acusando o movimento negro de promover “linchamento moral”, manipulando a história de mártires como Malcolm X e Martin Luther King para se dizer vítima de racismo reverso (!).

Esses episódios recentes mostram não só o quanto o racismo continua naturalizado como sendo o normal na sociedade brasileira, como quem se diz aliado na luta contra a opressão racial ainda tem muitas dificuldades para entender como ela funciona. É notável a escassez de leitura do pensamento de intelectuais negros e, principalmente, a incapacidade de escuta dos que se refugiam na posição de salvadores brancos injustiçados ao enfrentarem críticas.

Imagem: Divulgação/Companhia das Letras

E é por isso que em pleno ano de 2020 ainda são necessários, e urgentes, livros como o “Pequeno Manual Antirracista” (Companhia das Letras), de Djamila Ribeiro, que aborda de maneira acessível e didática vários dos temas caros à militância negra e ao feminismo negro. Embora todos possam se beneficiar da leitura, é um livro voltado justamente para pessoas que ainda não refletiram sobre sua própria racialização (o que inclui, principalmente, pessoas brancas). No capítulo “Enxergue a negritude”, ela escreve:

“É importante ter em mente que para pensar soluções para uma realidade, devemos tirá-la da invisibilidade. Portanto, frases como ‘eu não vejo cor’ não ajudam. O problema não é a cor, mas seu uso como justificativa para segregar e oprimir. Vejam cores, somos diversos e não ha nada de errado nisso — se vivemos relações raciais, é preciso falar sobre negritude e também sobre branquitude”.

Ainda que a autora não pretenda esgotar o assunto, acredito que o volume seja uma excelente porta de entrada para quem quer começar a se esclarecer sobre opressão racial e antirracismo e não sabe por onde começar: em cada capítulo, Djamila destrincha uma faceta do racismo, trazendo dados e referências de obras de intelectuais negros. Ela ainda faz questão de incluir uma lista apresentando cada um dos autores citados, para que o leitor possa buscar e aprofundar seus conhecimentos por si só.

Embora curto e sucinto, é o tipo de livro introdutório que deveria ser discutido em escolas e rodas de conversa. E fica a dica: se você quer deixar de reproduzir racismo e ser um aliado de verdade, leia autores negros, ouça o que estão dizendo e se disponha a aprender com eles.

Editado em 12/03: A produtora Antonia Pellegrino pediu desculpas por suas declarações, que considerou “desastrosas”.

Originalmente publicado no Instagram.

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