Implosão de uma ampulheta por um grão de areia

Repensando aniversários, datas especiais e o Réveillon


De uns anos pra cá, passei a não ligar muito para aniversários, da mesma forma que já não ligo tanto para a cerimônia que se faz religiosamente todo fim-de-ano em torno da passagem para o Feliz Ano Novo. Já passei Réveillon sem badalação (e até dormindo) e não vou esquentar se você também não me desejar Feliz Aniversário. Posso passar a impressão de ser um cara meio amargo pra isso tudo, mas a verdade é que estas coisas se tornaram meros detalhes a partir do instante em que revi meus conceitos sobre o tempo (assim como sua medição e contextualização pelo homem).

Estou na fase dos vinte e poucos anos. Só que minha idade física não me diz nada de mais. Ao mesmo tempo, sinto-me como uma criança com muito a aprender e como um velho prestes a passar do prazo de validade [para o mercado, para as investidas amorosas/sexuais e para o que mais se convencionou como exclusivo da população fisicamente jovem].

Da mesma forma que minha idade física não me diz nada, as datas também não me servem para muita coisa ultimamente. Eu entendo que existe a História, que, ah, existe um calendário gregoriano, que temos doze meses, sete dias da semana, 24 horas para cada dia e entendo que isso tudo nos ajuda a institucionalizar datas especiais, definir períodos específicos, jornadas de trabalho e categorizar pessoas de acordo com o instante em que nasceram. Mas, analisando mesmo de forma superficial, todos esses conceitos são simbólicos e abstratos demais pra mim.

Independentemente da translação e da rotação da Terra, será que posso chamar todas essas divisões de tempo de arbitrárias e partes de uma convenção aceita pela nossa civilização em prol da ordem e da redação de nossa História?

Se recebo um sim como resposta, então eu, enquanto indivíduo, posso me livrar de toda a graça e superstição em torno dos anos novos, das segundas-feiras que muitos de nós repudiamos, das sextas-feiras libertadoras pelas quais tanto ansiamos e em torno da data que supostamente eu ganho um ponto a mais na minha idade todo ano.

Pode me chamar de arruaceiro, mas gosto da ideia de poder celebrar vinte, trinta, quantos Réveillons por ano eu bem entender. Sei muito bem da força da passagem de um ano para o outro, sei do poder transformador que um calendário novo traz. E acho incrível que isso se faça de forma institucionalizada pelo mundo todo no dia 31 de dezembro. O zeitgeist da galera, sedenta por novos ares, é contagiante e inspiradora.

Só não me contento com a ideia de que muita gente só pense de forma aprofundada na própria vida, nos próprios sonhos e anseios quando o Ano Novo bate à porta. Deveríamos propor esses Réveillons particulares fora de época a nós mesmos sempre que sentirmos uma alta carga de energia e autoconfiança e quisermos investir em algo, em uma virada em nossas vidas. E claro: nesses casos, não vai fazer sentido algum você felicitar Ano Novo para alguém além de você mesmo. A festa é apenas e totalmente sua.

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