A trilha sonora da Ulbra

“A música faz ter disciplina, foco, uma cabeça mais centrada. Desenvolve a coordenação motora, ajuda a aprender melhor”.

Essa é a opinião de Walter Schinke, 57, baixo acústico na orquestra da Ulbra desde os 20 anos de idade. Para aprofundar a relação entre música e universidade, a AGEX conversou com representantes dos grupos musicais da Ulbra Canoas.

O campus é o único da rede que possui orquestras. São, ao todo, quatro grupos musicais: duas orquestras — uma de câmara, profissional, e uma universitária — , uma orquestra de sopros e um coro universitário. A orquestra profissional é composta por músicos que participam ou participaram de outras orquestras do RS, como a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) e a Orquestra Sinfônica da Universidade de Caxias do Sul (UCS). Já os grupos universitários, ligados à Capelania do campus, são formados pelos alunos, sejam do curso de música ou de outras áreas.

Grupos Universitários

Os alunos que participam das orquestras ou do coro ganham desconto na mensalidade pela bolsa de incentivo à cultura da universidade. Porém, os bolsistas também não ficam de fora: eles podem participar do conjunto por amor à música. Para ajudar a completar os grupos da Capelania, músicos que já participaram de orquestras ou que estudam na escola da OSPA também fazem parte das equipes.

Rock in Concert, que juntou os três grupos universitários. Foto: Aldrin Bottega

A orquestra de sopros possui 35 componentes; a universitária, 25; e o coro, 16. Para participar das orquestras, o aluno, após entrar em contato com a Capelania, entra numa espécie de um ‘estágio probatório’. Por um semestre, ele acompanha a orquestra e, caso consiga seguir os colegas, tem o direito de conseguir a bolsa. Entretanto, se não for chamado num primeiro momento, é feito um convite para permanecer mais um semestre estudando e tentar novamente no próximo ano.

O regente da orquestra de sopros, o maestro Max Villamba, já trabalhou no Colégio Cristo Redentor e está há dois anos na Ulbra. “O interesse dos alunos de participar é muito grande”, conta. “Mas somos obrigados a fazer uma seleção, pois o número de bolsas é limitado. Muitos procuram, mas nem todos têm condição. Vem do próprio aluno, também, aperfeiçoar sua técnica musical.”

As orquestras gaúchas vêm sofrendo bastante com a crise econômica no estado. Um exemplo é a OSPA, que há pouco tempo conseguiu um lugar para realizar os ensaios. Outras foram fechadas por retenção de gastos, como é o caso da Orquestra da PUC. A Ulbra é uma das poucas instituições que ainda abrangem um grande número de grupos musicais e possuem um espaço para ensaio. “Por enquanto, em questão de estrutura, estamos bem acomodados”, afirma o maestro. “De repente, no futuro, se for uma formação sinfônica maior, precisaria de um lugar maior. Mas, levando em conta a realidade de outras instituições, está ótimo.”

Os músicos universitários no Rock in Concert. Foto: Aldrin Bottega

A orquestra dos alunos se apresenta com frequência fora da Ulbra, também, seja em grupos separados ou em conjunto. Eles tocam, por exemplo, em aberturas e encerramentos de semestre em outras unidades. Há sempre alguma atividade dentro do campus e participando, além disso, em outros eventos externos, através de convite. O número de apresentações ao ano é muito variado, assim como o repertório. “A gente brinca que vamos do céu ao inferno rapidinho, porque, num dia, o repertório é rock, no outro estamos tocando um culto de formatura na Capela”, se diverte Villamba. “Sem contar também as diferenças nos números de componentes.”

Os grupos universitários já fizeram trabalhos para comunidades carentes, colaborando com o Projeto Compartilhar, um projeto de educação musical da Pastoral para crianças do bairro Guajuviras, em Canoas. O maestro Villamba é um dos professores e ensina instrumentos de sopro para os alunos, como trombone, trompete, clarinete e flauta.

Orquestra de Câmara da Ulbra

A Orquestra de Câmara da Ulbra é composta por 15 músicos profissionais de cordas. Entretanto, dependendo do repertório, mais músicos podem ser contratados para complementar a equipe.

A orquestra na Associação Leopoldina. Reprodução/Facebook Orquestra de Câmara da ULBRA

Os concertos oficiais da orquestra acontecem uma vez por mês na Associação Leopoldina Juvenil, em Porto Alegre. Outros concertos, populares e eruditos, também acontecem no Theatro São Pedro, no Salão de Atos da UFRGS e no Auditório Araújo Vianna. Eles também se apresentam no interior do estado e realizam concertos didáticos em várias cidades da região metropolitana. Isso tudo dá uma média de três concertos por mês. E o repertório dessas apresentações é extremamente eclético, desde o período Barroco, Clássico, até MPB, samba e rock gaúcho e internacional.

Thiago Flores é o maestro regente da Orquestra desde sua fundação, em 1996, e também já trabalhou na OSPA. Ele conta que há grande interesse do público em relação às apresentações e os espetáculos têm sido lotados. “Todas as orquestras têm que batalhar para ter um espaço para ganhar uma programação artística”, diz. “Então, tem que ir atrás de patrocínio, vender concertos, buscar várias maneiras de se sustentar. Temos tido êxito, nesse sentido. Vários projetos foram aprovados pela Lei Rouanet e pela Lei Estadual de Incentivo à Cultura, além de apoio de empresas e pessoas físicas.”

A orquestra na Associação Leopoldina. Reprodução/Facebook Orquestra de Câmara da ULBRA

Walter Schinke toca baixo acústico nas orquestras da Ulbra e da OSPA desde os 20 anos. Também está na orquestra da Ulbra desde a sua fundação. Ele conta que o interesse pela música é de família: “Minha mãe tocava violão e cantava, e meu pai tocava um pouco de piano. A minha infância sempre foi num ambiente de música. Mas músico profissional não teve ninguém, até então”.

Schinke diz que a música impactou profundamente sua vida e não consegue se imaginar sem ela, desde que a descobriu em sua adolescência. “Nem consigo dissociar as duas coisas. É interessante, não tem outro jeito de explicar: simplesmente faz parte.” Para ele, é um privilégio ser um músico profissional. “Acho que a música toca mais imediatamente a alma das pessoas, é mais instantâneo. É mais impactante em termos de sensibilidade”.

Entretanto, segundo ele, apesar de alguns avanços nos ideais dos brasileiros, ainda há muitas dificuldades para ser um artista no país. “Acho que as artes, num país que está em desenvolvimento eterno e tem tantas prioridades, são sempre vistas como secundárias”, relata. “O artista, para muita gente, é vagabundo, não trabalha. O jeito de mudar essa concepção seria se a arte passasse a ser curricular, como era um tempo atrás. Havia coral nas escolas, tinha o ensino das músicas. Depois que saiu isso, ficou algo de fora, secundário.”


Como a música clássica pode impactar a vida de uma pessoa?

Max Villamba:

“A gente tem a música clássica como uma escola de música. Então, eu acho importante a questão de juntar um tema popular com o clássico, poder aproximar, assim, a música clássica da população em geral. É difícil que alguém saia de casa hoje só para poder ouvir uma música clássica. A gente tem que aproximar os dois lados. Agora, quando a gente começa a estudar a música clássica, começamos a melhorar nossos horizontes, em cultura, em vários aspectos. Então, acho que ela é muito importante, principalmente no estudo musical. Mas precisamos tentar aproximá-la das pessoas. Hoje, temos um paradigma de que a música clássica é algo de elite. Acho muito pelo contrário. Podemos tirar pessoas das suas carências e pelo menos melhorar o futuro, sua qualidade de vida e a intelectualidade”

Thiago Flores:

“A música clássica pode mexer com várias coisas se a pessoa estiver aberta para esse conhecimento, né. Toda a arte tem função social e cultural para aquelas pessoas que querem realmente ampliar os horizontes e seus conhecimentos. Uma vantagem da música clássica, por exemplo, onde não tem texto, então, o espaço para a pessoa que tá ouvindo aquela música “viajar” é muito maior. Onde tem texto, induz a pessoa a pensar, aquela música que não tem você pode ter sentimentos diversos com aquela mesma música. Então, a introspecção ajuda muito na música clássica, a mexer em coisas tuas, por dentro, através da música, através da arte, e isso é muito importante para o ser humano.”

Walter Schinke:

“Não acho que tenha diferença entre música clássica e música popular. A música faz ter disciplina, te faz ter foco, ter uma cabeça mais centrada, desenvolve coordenação motora, ajuda a aprender melhor. Acho muito importante que todas as crianças tivessem oportunidade de estudar música. Depois pode escolher se quer ser profissional ou não, mas o fato de se fazer música é muito bom e é comprovado.”