O folclore vive, é só saber escutar

Em 1965, o Congresso Nacional oficializou que o dia 22 de agosto seria destinado a comemorar o folclore brasileiro. Foi, então, criado o Dia do Folclore Nacional. A data surgiu como uma forma de valorizar as histórias e personagens do imaginário social.

Ilustração: Anderson Awvas

O folclore representa a identidade de uma sociedade e é parte essencial da cultura de uma nação. Por isso, a criação de um dia específico para ele foi um marco, pois ressaltou a importância de zelar-se pela cultura popular.

A importância do folclore

O homem sempre desejou entender tudo que engloba a vida, mas isso nem sempre é possível. Antigamente, quando a ciência não era tão evoluída e a tecnologia estava longe de ser o que é hoje, as pessoas recorriam ao imaginário para explicar fatos naturais e sobrenaturais.

Porém, o folclore é muito mais do que lendas e mitos. Os seres fantásticos são apenas uma parte dele, assim como as cantigas, parlendas, cancioneiros e cordéis. Folclore também são os modos de sentir, pensar e agir de um povo, guiado pela tradição e que caracterizam sua identidade.

Foto: Andreolli Costa

Andriolli Costa é jornalista e dedica boa parte da sua vida para pesquisar a cultura popular, especialmente o folclore brasileiro. Segundo ele, abrir espaço para discussão desse tema é redescobrir a história do país. “Os mitos, por exemplo, nos ajudam a compreender os medos, angústias, sonhos e esperanças de um povo”, explica Andriolli.

Um dos exemplos citados pelo pesquisador foi em relação ao fruto do coqueiro, comum nas imagens representativas de Brasil. Segundo ele, a sua origem etimológica está no monstro do “Coco”, um papão do folclore português. Segunda a lenda, o Coco ficava em cima dos telhados e devorava as crianças quando os pais saiam para trabalhar.

Folclore e discussões sociais

O folclore captura as imagens coletivas que a sociedade constrói e expõe. Através dele é possível perceber a forma como um povo lida com questões sociais em determinadas épocas. “Muita gente acredita que o folclore é estático, imutável, mas na verdade ele está sempre em transformação e desaparece quando não faz mais sentido”, explica Andriolli.

Ilustração: Anderson Awvas

Um exemplo disso são os contos populares de Pai José, muito famosos na primeira metade do século XX. Neles, o protagonista aprontava, mas acabava sendo castigado e torturado pelos senhores brancos. “Certamente eram histórias que arrancavam risos na época em que surgiram mas, por conta das mudanças sociais, acabaram desaparecendo com o tempo”, relata Andriolli.

O pesquisador afirma que, ao se analisar as histórias folclóricas, é possível retirar mensagens que dialogam com a época atual. “Quando vejo pessoas espancando pobres e negros por, supostamente, terem cometido crimes, noto nisso uma atualização imediata da lenda do Negrinho do Pastoreio”, afirma Andriolli. “A lenda relata uma história de racismo, violência e poder que, por mais que tenha surgido no final do século XIX, ainda carrega lastros que são possíveis de identificar atualmente”, complementa o pesquisador.

No programa piloto do seu podcast Popularium, Andriolli cita um caso específico que auxilia a compreender melhor essa relação entre folclore e discussões sociais. Em 2014, um vídeo de um homem sendo torturado viralizou na internet. As imagens foram feitas no Piauí e mostravam um suspeito de assalto, amarrado pelas mãos e pés, sendo jogado em um formigueiro. A ação foi praticada por um grupo de moradores e postada em uma página intitulada “Apoio Policial”. O suposto assaltante aparece com o rosto inchado e gritando de dor. Na época, foi aberto um inquérito policial para investigar o caso, mas nenhuma informação foi divulgada.

Andriolli afirma que é impossível não traçar um paralelo entre este caso e o Negrinho do Pastoreio. Segundo ele, as narrativas são muito parecidas e não se limita a classe social, mas a raça. Para exemplificar melhor, ele relembra outra duas lendas folclóricas que envolvem negros: Saci e Romãozinho. Ambas, assim como a do Negrinho, trazem um protagonista capaz de encontrar itens. Andriolli faz uma reflexão sobre a forma como o negro era visto na época em que essas histórias surgiram (como um serviçal) e o seu “poder”. Segundo ele, é necessário se ter esse olhar sobre as lendas e histórias para encontrar pistas de como determinada sociedade agia e pensava.

Colecionador de Sacis

Andriolli Costa tem 28 anos e há 10 se dedica ao estudo do folclore e da cultura popular. Ele nasceu no Mato Grosso do Sul, onde cresceu maravilhado pelas histórias contadas pelo avô, principalmente as de Saci. Na faculdade, foi autor e coautor de diversos projetos sobre mitos folclóricos. No mestrado, estudou a cobertura de lendas e mitos pelo jornalismo paraguaio. Atualmente, Andriolli mantém o blog “Colecionador de Sacis”, onde une duas paixões: o jornalismo e o folclore.

Ilustração: Anderson Awvas

Com sua pesquisa de doutorado ganhou o prêmio Freitas Nobre, do Intercom. O artigo investiga os modos de capturar mitos e lendas pelo fotojornalismo. “Falar sobre folclore na academia é uma experiência incrível, pois é um ambiente onde o tema nunca foi muito bem aceito”, relata o pesquisador.

Além desse estudo, Andriolli também destaca outros três projetos da sua carreira: a contação de histórias para crianças, o podcast Popularium e o ensaio artístico Folclore Nu.

No blog “Colecionador de Sacis”, o pesquisador compartilha fotos, vídeos, artigos e outros conteúdos que envolvem a cultura popular e o folclore. O foco, obviamente, é no personagem Saci. Especialmente no mês de agosto, Andriolli está postando mais conteúdos referentes ao tema.