Injeção de adrenalina

Rosane de Oliveira conversou por cerca de 40 minutos com estudantes de Jornalismo da UniRitter de Porto Alegre sem largar o telefone celular — Crédito: Brunna Graco

Vazamento da delação da JBS interrompe palestra de Rosane de Oliveira no campus Zona Sul da UniRitter e revela, na prática, como é a vida de quem trabalha em uma redação jornalística. Em sua breve passagem pelo mundo dos inquietos, que fez parte do projeto ZH na Faculdade, a colunista de política do Zero Hora falou abertamente sobre temas polêmicos como a renúncia de Michel Temer e a difícil relação com ex-colegas que optaram pela carreira política. Confira a cobertura do evento realizada por estudantes da disciplina Escola de Reportagem II — Apuração do curso de Jornalismo do Centro Universitário Ritter dos Reis.

Por Juan Link e Valéria Possamai

Passava das 19h30 da noite de quarta-feira (17/05) quando o coordenador do curso de Jornalismo da UniRitter, Leandro Olegário, fazia a apresentação da jornalista Rosane de Oliveira, escalada pelo projeto ZH na Faculdade para conversar com os alunos de jornalismo do campus Zona Sul.

Inquieta, não parava de deslizar o dedo na tela de seu smartphone. As mensagens do fim do dia prendiam sua atenção de tal forma que a principal colunista de política do Zero Hora não conseguia se desconectar. Ao ser chamada, pegou o microfone com desenvoltura, mas não largou o celular.

Antes mesmo de dar boa noite, soltou a bomba que recebera enquanto aguardava: “O Globo está dando a informação de que Joesley Batista, dono da JBS, teria gravado o presidente Michel Temer dando aval para a compra do silêncio de Eduardo Cunha”.

O grupo de estudantes que presenciava a cena entrou em êxtase. Muitas das perguntas que seriam feitas à Rosane de Oliveira perderam o sentido diante dos acontecimentos daquela noite. Outras puderam ser feitas, como sua relação com os ex-colegas senadores, Ana Amélia Lemos e Lasier Martins.

Ela até que tentou responder as primeiras perguntas, mas sua atenção estava mesmo no seu celular. Entre um questionamento e outro, olhava apreensiva seu smartphone. Pediu desculpas por isso. Após cerca de 40 minutos, anunciou que teria que retornar à redação para refazer sua coluna.

Pediu mais uma vez desculpas e prometeu retornar à UniRitter para continuar a conversa. Disse que viria fora do projeto ZH na Faculdade. Seu corpo estava na palestra, mas a cabeça na redação. Dias depois, Rosane de Oliveira escreveu uma crônica sobre essa noite histórica.

Renunciar ou não renunciar, eis a questão

Antes de voltar às pressas para o Zero Hora, Rosane de Oliveira concedeu rápida entrevista coletiva na saída do campus Zona Sul da UniRitter — Crédito: Brunna Graco

Por Giullia Santos e Rafael Godoy

“Se Temer tivesse um pingo de vergonha na cara, ele renunciaria”, sentenciou Rosane de Oliveira, aos alunos da UniRitter, após receber as últimas informações do cenário político nacional: a delação do dono do Grupo JBS, envolvendo o atual presidente do país, Michel Temer.

No decorrer de sua fala, foi enfática: os dias de governo Temer estariam contados depois do que tinha sido vazado. Com a explosão da notícia de que o Presidente deu o aval para a compra do silêncio de Eduardo Cunha, o cenário político, econômico e social do país estava, mais uma vez, comprometido.

Na entrevista coletiva que concedeu às pressas ao final de sua palestra, Rosane de Oliveira voltou atrás em sua defesa enfática da renúncia: “depois desta bomba não sei o que vai acontecer amanhã, eu disse para vocês, no impulso, que se Temer tivesse vergonha renunciaria, agora eu preciso ler esse material e fazer uma análise”.

“O impeachment só se consuma quando o presidente perde a maioria, agora as forças se reagrupam, eu acho que essa hora está todo mundo pensando no que vai ser feito amanhã, tem de se ver qual é o tamanho deste estrago, até que ponto estas provas são assim mesmo”, analisou antes de embarcar no carro.

Em sua coluna escrita naquela noite, defendeu o fim do governo: “Se resta ao presidente alguma dignidade, a renúncia é um imperativo”. Após processar os fatos ocorridos, a colunista especializada em política contextualizou o impacto das denúncias realizadas por Joesley Batista, envolvendo o atual Presidente da República.

“A economia, que vinha dando sinais de recuperação, será fatalmente atingida. O impacto será sentido já no início desta quinta-feira, com a abertura do mercado financeiro”. E não deu outra. Naquele dia, o circuit breaker da BM&F Bovespa foi cedo acionado para estancar a sangria causada pelos especuladores.

“É um desserviço para o jornalismo!”

Rosane de Oliveira: “Só tenho uma certeza na vida, jamais entrarei para a política”. — 
Crédito: Brunna Graco

Principal colunista de política do Grupo RBS questiona decisão de ex-colegas de entrarem para a política

Por Cristiano Lopes, Leonardo Bartz, Paulo Ricardo Netto e Victória Fogazzi
 
“Não concordo com o jornalista usar o espaço que temos e depois concorrer. Respeito a Ana Amélia, respeito o Lasier [Martins], mas acho profundamente desconfortável isso que eles fizeram. É um desserviço para o jornalismo. Passa para o público a ideia de que estamos aqui usando este espaço, para depois ganhar no voto”, criticou Rosane de Oliveira, a principal colunista de política do Grupo RBS durante palestra aos estudantes de jornalismo da UniRitter realizada no Campus Zona Sul, no dia 17 de maio.

Além de considerar um desserviço para a profissão, Rosane de Oliveira afirmou que não tomaria a mesma atitude de seus ex-colegas Lasier Martins (PSD) e Ana Amélia Lemos (PP), que após fazerem carreira no jornalismo ingressaram na vida pública. A declaração surgiu após Rosane de Oliveira ser indagada por um estudante a respeito de sua relação com seus ex-colegas de empresa, Lasier Martins e Ana Amélia Lemos, que hoje ocupam duas das três cadeiras gaúchas no Senado Federal. 
 
“Só tenho uma certeza na vida, jamais entrarei para a política. Se algum dia não servir mais para o jornalismo, irei cultivar orquídeas”, garantiu. Rosane de Oliveira revelou que evita publicar notícias sobre Ana Amélia e Lasier, para não parecer que há favorecimento.

Além da decisão dos atuais senadores, Rosane de Oliveira ainda lembrou o caso de Antônio Brito, ex-funcionário da RBS que governou o Rio Grande do Sul de 1995 a 1998, e de seu ex-colega de rádio Gaúcha André Machado, que tentou uma vaga na Câmara dos Deputados em 2014 mas não conseguiu.

“Lasier Martins pediu para não publicar a notícia”

A jornalista Rosane de Oliveira informou ainda em conversa com alunos da UniRitter que o senador Lasier Martins, seu ex-colega de RBS, solicitou recentemente que não fosse publicado nada a respeito da denúncia, divulgada primeiramente pelo jornal Correio Braziliense, de que ele havia agredido sua mulher, pois ele seria inocente. Ao contar o caso, a colunista admitiu que a relação jornalista-fonte é complicada com qualquer político.

Para colunista do ZH , profissional competente deve saber transitar por todo tipo de assunto

Rosane de Oliveira apresentou aos estudantes da UniRitter os desafios rotineiros da vida de jornalista — Crédito: Brunna Graco

Por Brunna Santos e Gabriel Verdi

Na sua passagem pela UniRitter, Rosane de Oliveira falou brevemente sobre sua trajetória, os desafios que passou até chegar ao posto de colunista de política do jornal Zero Hora, além de dar conselhos para os futuros profissionais da área. “O mundo vai precisar de jornalistas por muito tempo. Vai haver lugar para alguns, só para os melhores”, disse.

- Logo quando eu entrei na faculdade em 1978, um professor nos falou: saiam daqui enquanto é tempo, porque o mercado está horrível. Que belo jeito de chegar! O meu pensamento na época foi que o mundo vai precisar de jornalistas e apesar das redes sociais hoje em dia, vai continuar precisando. Vai ter sempre espaço para jornalistas, mas para os melhores. Essa aqui é uma turma pequena, na minha época eram mais de 100 alunos, nossas aulas eram feitas em um auditório. E vendo todas aquelas pessoas eu pensava, só vão sair daqui os melhores, os que saem do comum. O que me diferenciava dos outros era meu texto, minha dedicação, minha rapidez para fazer perguntas. E hoje, o que te credencia a ser um futuro contratado em um grande veículo?

A colunista acredita que a profissão nunca será obsoleta, apesar da revolução digital. Ela frisou que mesclar o conhecimento técnico com o conhecimento geral em diferentes áreas é essencial. “Isso que te faz uma profissional competente, saber transitar em todo tipo de assunto”, disse.

Rosane de Oliveira, que está na profissão há 35 anos, começou sua carreira escrevendo a primeira reportagem aos 15 anos. Sempre teve o sonho de ser jornalista, então aos 17 anos entrou para a faculdade de jornalismo na PUCRS e começou a trabalhar no escritório da empresa Esso para sustentar os custos. Veio a se formar em 1982 e pediu demissão para seguir a carreira tão desejada. 
 
Depois de passar pelas rádios Guaíba e Pampa, finalmente conseguiu trabalhar em um jornal impresso que era seu objetivo desde o início. Em 1986, teve a oportunidade de trabalhar como repórter de política no Correio do Povo, onde permaneceu por sete anos. Após editar economia por três anos, aceitou convite para trabalhar no Zero Hora em 1993. Começou como editora de política até que em 2003 substituiu José Barrionuevo na coluna Página 10, o principal espaço político na imprensa gaúcha. Hoje também trabalha no programa Gaúcha Atualidade, na rádio Gaúcha.

Uma noite histórica

Rosane de Oliveira visitou o campus Zona Sul da UniRitter pelo projeto ZH na Faculdade na noite do vazamento da delação dos donos da JBS — Crédito: Brunna Graco

Por Angelo Antonio, Hiashine Florentino, Jocelias Costa e Raquel Santos
 
- Diante de tudo que acontece, a senhora está decepcionada com a política?
- Eu lido há tantos anos com isso que fico muito triste de chegarmos a esse vazio de credibilidade política.

Essa foi uma das respostas da entrevista relâmpago concedida pela colunista do jornal Zero Hora Rosane de Oliveira na histórica quarta-feira em que o jornal O Globo publicou em primeira mão trechos da delação premiada dos donos da JBS.

A jornalista da Zero Hora chegou por volta das 19 horas e, muito à vontade, conversou alguns minutos com professores do curso de Jornalismo enquanto os alunos se acomodavam no Foyer do Auditório Master do campus Zona Sul da UniRitter.

“Vou pular essa parte, pois vocês futuros jornalistas devem saber disso”. Assim começou sua palestra, lendo que Michel Temer teria dado seu aval para a compra do silêncio do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha.

Refazer a coluna

Rosane de Oliveira recebera as informações através de uma mensagem de whatsapp e não hesitou em compartilhar com os presentes no auditório. Certamente para quem gosta de jornalismo, foi uma aula prática.

“Se tivesse que começar tudo de novo, hoje, por pior que seja a situação, eu começaria novamente. Não tenho dúvida que essa era a profissão que eu escolheria”, destacou a jornalista aos alunos. 
 
Relatou rapidamente sua trajetória de 35 anos de carreira com passagens pela Folha Espumosense, Assembleia Legislativa, Correio do Povo, rádios Guaíba, Pampa e Gaúcha, e jornal Zero Hora.

A primeira pergunta respondida por Rosane de Oliveira foi a respeito do assunto da noite, o pedido de cassação da chapa Dilma-Temer que deverá ser julgado no dia 6 de junho pelo Tribunal Superior Eleitoral.

“Isso é o jornalismo, isso é o nosso dia a dia, adrenalina pura”, ressaltou Rosane de Oliveira. Ela prometeu aos estudantes de jornalismo da UniRitter que vai voltar em breve para mais um encontro. Perguntas não faltarão.

Produção dos alunos da disciplina Escola de Reportagem II — Apuração / Noite do campus Zona Sul da UniRitter. Supervisão: Prof. Roberto Villar Belmonte.