Jornalista Carlos Etchichury fala sobre apuração no Conversa com Reporteros

Carlos Etchichury foi o primeiro convidado do novo projeto da Escola de Reportagem II / Foto: Desiree Ferreira

Quatro equipes de estudantes da Escola de Reportagem II, disciplina dedicada à apuração, destacaram pontos importantes da palestra do jornalista Carlos Etchichury, 43 anos, editor-chefe do Diário Gaúcho, realizada na UniRitter em 28 de março. Atualmente ele coordena também o Grupo de Investigação (GDI) do Grupo RBS.

Pioneirismo com grupo de investigação no RS

Por Daniel Klopp, Rodrigo Cruz, Patryck Lemos e Gustavo Pinheiro (edição)

Novidade no jornalismo brasileiro, o grupo de investigação da RBS (GDI), inspirado no Spotlight, do The Boston Globe, foi criado em dezembro de 2016 em uma parceria entre veículos RBS TV, Rádio Gaúcha, Zero Hora e Diário Gaúcho. O núcleo conta com nove repórteres de diversas especialidades, desde infiltrações jornalísticas até investigações de crime do colarinho branco por meio de documentos. O grupo é coordenado por Carlos Etchichury, que há quase duas décadas atua como profissional da empresa.

Atualmente, no Brasil, são poucas as redações que possuem um grupo de investigação neste modelo. Segundo seu coordenador, o zelo pela integridade das informações é o requisito principal para elaboração das matérias do seu núcleo investigativo. Uma curiosidade: assim como no filme, os repórteres que formam o GDI trabalham em uma área mais isolada do resto da redação, dedicando-se somente às investigações em curso do núcleo.

Durante a palestra, Etchichury adiantou em primeira mão que o GDI investigava um suposto uso indevido de veículos oficiais. Na semana passada, a reportagem foi publicada. Ela mostra um PM que estaria usando viaturas da Brigada Militar para atividades particulares em Porto Alegre, como levar e buscar a filha na escola, levar a mulher ao posto de saúde e ir ao mercado. O editor destacou também, entre outras reportagens de relevância social, a matéria sobre o caso do Grupo Educacional Facinepe, entidade investigada pelo Ministério da Educação por suspeita de irregularidades em cursos de pós-graduação. Em outro especial, lembrado também por ele, a equipe de repórteres revelou o caso de um prefeito do do interior que está sendo investigado pelo Ministério Público Eleitoral. A apuração apontaria suspeitas sobre vantagens oferecidas para um candidato a vereador da cidade.

A criação do GDI pode ser considerada uma iniciativa incomum para as empresas de comunicação brasileiras que não costumam trabalhar com equipes de jornalismo investigativo nestes moldes. “A gente tem uma preocupação grande, no nosso grupo, que é identificar o quanto repercutiu as matérias do GDI, lá no nosso sistema de assinatura e no nosso call center. A gente identificou que o GDI é um dos principais argumentos de retenção para assinantes da Zero Hora”, comentou Etchichury.

Segundo ele, o mais importante para o trabalho investigativo foi a conquista de certa autonomia editorial em relação às redações. Se algum veículo da empresa precisa de algum dos repórteres do GDI “emprestado” para alguma matéria, por exemplo, a cedência passa por Etchichury, que analisa cada situação. Para ele, o trabalho em grupo tem dado certo pois não existiria vaidades entre seus integrantes que prejudicassem o trabalho.

Jornalista apresentou o grupo de investigação criado no final do ano passado / Foto: Desiree Ferreira

Uma conversa com Carlos Etchichury

Por Karina Fraga, Mileni Provenzi e Rafael Brito / Edição de Marina Rocha

O foco principal da conversa foi a maneira como se desenvolve uma pauta que, dentre outras coisas, exige apuração detalhada. Etchichury usou a reportagem “Da fraude ao império: a história do homem da faculdade de papel” para exemplificar a importância de tratar de assuntos que, segundo ele, poderiam passar despercebidos. Ele reforçou o legado que a investigação deixa para a população, como inquéritos abertos pelo Ministério Público (MP) e Ministério Público Federal (MPF).

Durante toda a palestra os alunos puderam tirar dúvidas e conversar com o convidado. Entre tantas perguntas, ele foi questionado sobre o momento do jornalismo e a crise em seu modelo tradicional de negócios. Etchichury comentou que a criação do GDI como uma plataforma de investigação é uma tentativa angariar público com apuração em profundidade. O editor acredita que existe uma crise na indústria devido às mudanças na forma de buscar informações, como o crescente uso das redes sociais, que resultam na diminuição e possíveis fechamentos de redações. Apesar disso, Etchichury lembra que grandes veículos ainda seriam fundamentais para alimentar as redes, pois grandes jornais passam credibilidade, produzindo informações que alimentam as próprias redes sociais.

Ainda na palestra, o jornalista apresentou alguns trabalhos do GDI, dentre eles um que ainda estava em andamento sobre um funcionário público usando recursos oficiais para fins pessoais. No último dia 3, a reportagem foi publicada. Um policial militar de Porto Alegre usaria carro da corporação para a comodidade familiar. Por 8 dias, entre 14 e 30 de março, o GDI flagrou o policial militar, do 1° Batalhão de Polícia Militar (BPM) da capital, utilizando viaturas para fazer estas atividades.

Salários e o papel do jornalista entraram na lista de perguntas dos estudantes para o editor / Foto: Desiree Ferreira

A luta pela melhoria salarial no jornalismo

Por Willian Cardoso / Edição de Diego Rodrigues

Um assunto constante nas rodas de conversa entre jornalistas e estudantes, o fato de que o "mercado pagar mal", foi um dos temas levantados por alunos durante o Conversa com Reporteros. Sobre essa questão, o editor-chefe do Diário Gaúcho, Carlos Etchichury, afirmou que os futuros profissionais, como os que iniciam um estágio, tem uma remuneração considerada por ele razoável, aproximando-se de um salário mínimo.

Ao se formarem, por sua vez, a coisa mudaria pouco, segundo a apuração da Reporteros. Segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ), o piso salarial de um jornalista na capital do Rio Grande do Sul gira em torno de R$2,2 mil. Para alterar o quadro, os sindicatos locais têm buscado compensações salariais, mas o cenário tem se mantido com poucas alterações nos últimos anos.

Importância e papel do jornalista

Por Desiree Ferreira / Edição de Diego Rodrigues

O jornalista tem um compromisso: informar a sociedade. Segundo as dicas de Carlos Etchichury, editor-chefe do Diário Gaúcho e coordenador do grupo de investigação da RBS (GDI), durante o encontro, o jornalista necessita buscar a veracidade da informação para apresentar um relato preciso dos acontecimentos ao público.

Para Etchichury, o jornalista agora deve ser multitarefas. Diante disso, ele faz um alerta: o profissional deve ingressar no mercado de trabalho ciente e preparado desta nova realidade. Conforme ele, apesar das mudanças, o que não muda hoje é a necessidade de apurar a notícia. O editor lembra, no entanto, que “ao iniciar em uma redação, o repórter terá um tempo de aprendizado, onde irá errar, corrigir esses erros e amadurecer com eles”.

Reportagem indicou falhas na fiscalização sobre alimentos vendidos

Por Debora Dallacort / Edição de Diego Rodrigues

No encontro com mais de 100 estudantes, Etchichury contou os bastidores da reportagem Perigo no Prato, feito pelo GDI, onde foram analisados produtos vendidos na Ceasa — responsável pelo fornecimento para um terço da população gaúcha. A investigação mostrou que nos alimentos foram encontrados agrotóxicos acima do recomendável, além de produtos proibidos no Brasil, apesar da existência de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), entre o Ministério Público (MP) e a Secretaria de Agricultura do Estado, ao qual a Ceasa é vinculada, para coibir a ação.

Desde 2012, quando foram apontadas irregularidades nos produtos comercializados na Ceasa, o acordo determinava que em laboratórios do Estado a quantidade de agrotóxicos nos produtos para consumo deveria ser testada. Não foi o que aconteceu, segundo apurou a matéria especial. Após a divulgação da investigação, o presidente da Ceasa, Ernesto Teixeira, afirmou ao GDI que alguns produtores usavam produtos proibidos por falta de informação.

Segundo Etchichury, depois da reportagem, entre as repercussões, ocorreu uma reunião entre integrantes do MP e pasta da Agricultura, além da direção da Ceasa. Ernesto Teixeira teria afirmado que cumpriria as medidas solicitadas. Segundo o jornal Zero Hora, foram abertos inquéritos sobre o abuso de agrotóxicos pela Policia Civil e Ministério Público.

Estratégias de investigação foram detalhadas pelo editor aos alunos / Foto: Thiago Luz

Conceitos e objetivos do GDI foram detalhados por Etchichury

Por Nicole Escouto, Kizzy Morais e Thiago Nascimento e Vitória Karoline (edição)

O processo de produção das investigações do Grupo de Investigação da RBS (GDI), criado há quatro meses, foi revelado por Carlos Etchichury, coordenador da equipe. Segundo ele, tudo começa com uma reunião semanal com a equipe de jornalistas para discutir sugestões e o andamento das pautas em curso. Neste processo, revela ele, cada reportagem é tratada como um projeto de investigação, sendo escolhido um repórter para liderar a equipe.

O jornalismo mudou o modelo de negócio em função da crise, hoje depende muito do assinante. Nunca se deu tanta atenção na redação como se dá hoje” — destacou Etchichury.

Em função disso, o imediatismo, sede por notícias novas a cada instante, tem modificado os modelos de consumo das notícias. O impresso, neste sentido, tem perdido espaço ao online. Para acompanhar esse processo, os veículos passaram a oferecer assinaturas online. Além do conteúdo oferecido nas bancas também têm oferecido conteúdo exclusivo ao longo do dia informações, conforme as coisas vão acontecendo. Segundo o editor, no entanto, permanece a missão de produzir, em ambas as plataformas, conteúdo com qualidade, investindo em apuração e checagem. Em sua visão, a estratégia acabaria por tornar os produtos jornalísticos mais atraentes para o leitor, o que despertaria seu interesse para conteúdos exclusivos, garantindo a manutenção das assinaturas online.

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