Eu estou me habituando ao ghosting, e isso é relativamente assustador


Talvez você não saiba a definição, mas conhece o sentimento. Pra quem não sabe: “ghosting” é o termo popularizado para definir aquelas relações que terminam quando uma das pessoas misteriosamente some sem dar muitas explicações. Todos nós já passamos por uma dessas: demora crescente a responder mensagens, ligações sem serem atendidas, uma ausência repentina até que, finalmente, a outra pessoa simplesmente não está mais lá. Em geral, a pessoa vítima de ghosting se vê confusa, dispondo várias perguntas as quais não tem como obter respostas, e muitas vezes culpabiliza-se diante disso, internalizando a motivação para o término do relacionamento. É repentino, é impessoal, é meio covarde e é até cruel, mas é a forma como grande parte dos relacionamentos — que foram ou que poderiam ser — se esfacelam hoje em dia.

Eu já fui bastante vítima de ghosting nessa vida. A pessoa que mais gostei nessa vida não teve muitos temores em me deixar uns anos atrás sem dizer nem meias palavras. Na época fiquei arrasado, lógico; mas há poucas coisas que o tempo não cure, a ponto de hoje eu conseguir relembrar e contar sobre essa história sem me sentir mal. Não há como negar que, de um modo ou de outro, há um aprendizado envolvido nessas histórias; e mesmo que não seja da forma mais agradável possível, a gente aprende, mas ao mesmo tempo também desconfia.

Mas o motivo pelo qual eu escrevo esse texto é porque eu sinto que antigamente eu me incomodava com o ghosting. Hoje em dia… não sei dizer se me habituei, mas a verdade é que não sinto quase nada. Como disse uma amiga minha, a Cris: anestesiei. Aquilo que antes parecia o fim do mundo hoje em dia parece cada vez mais provável, cada vez mais previsível, e cada vez menos digno de se importar.

Eu só parei pra perceber o quanto isso havia se tornado uma constante ao relembrar os meus relacionamentos de curta duração que aconteceram nos últimos meses, especificamente durante esse ano: salvo pouquíssimas exceções, a grande maioria terminou da mesma forma, sem um adeus. E a coisa mais complicada não é que eles terminaram, e sim que terem terminado dessa forma me incomodou muito menos do que me orgulho em admitir.

A verdade é que seja eu ou a outra pessoa, há um grande sentimento de que ninguém está nem aí para mais nada, e isso não parece ser um caso isolado. Qualquer perspectiva de seriedade ou relacionamento já é motivo para um temor, e o consequente afastamento. Eu não quero ser clichê e ficar culpando o Tinder, não: isso é um reflexo de uma mudança comportamental e de valores que teriam acontecido com ou sem ele, e decorrem de uma diferença de atitude generalizada. Se não fosse ele, teria sido outro; então em nada adianta ficar buscando culpa.

A sensação que me parece mais predominante é de que todo mundo está tão preparado pela hora que a outra pessoa pode deixar de gostar repentinamente que ninguém mais faz questão de “segurar a corda”, por assim dizer. Já aprendemos que quem segura a corda é quem se machuca no final, então estamos agindo em reflexo a isso. Há uma cautela excessiva nas relações e nos relacionamentos, então estamos constantemente pisando em ovos. Temos cuidado em quais palavras usar, ou quais emojis enviar pra não passar a ideia errada. Ninguém quer se mostrar ligado emocionalmente porém ninguém quer dar o braço a torcer, então parece que ambos se afastam ao mesmo tempo. A sensação que predomina após o termino dessas relações é geralmente uma de insatisfação. Parece que nada mais importa muita coisa.

Talvez o mais estranho de tudo seja reconhecer que, no fim, não pensamos em como o outro está se sentindo diante do nosso sumiço, ou nós diante do sumiço deles. A nossa sensação de insatisfação é tão autocentrada que se torna predominante, e sobrepõe todo o resto; a nossa insatisfação parece mais importante que o próprio ghosting que sofremos ou cometemos. Vemos o problema da indisponibilidade como um reflexo de nós mesmos.

É estranho o sentimento de, ao conhecer uma nova pessoa, sentir que eu não vou ter muito o que sentir por ela. Cada vez mais conheço novas pessoas e infelizmente sinto como se houvesse uma “data de validade” nelas; vamos a um primeiro encontro tão desacreditados que já sentimos que aquilo não vai dar certo. Vamos a mais dois, talvez três, e sabemos que não vai ir muito além daquilo. É como se desistíssemos antes mesmo de tentar.

Eu estou me habituando a sentir cada vez menos; e eu realmente não sei se gosto de estar sentindo tão pouco. Há alguma diversão, porém não é uma satisfação plena; ao mesmo tempo, no momento que terminar, quase não tem dor. É estranho. É estranho, e é assustadoramente confortável, e eu temo se isso é só uma fase ou se é algo que vai se tornar uma constante cada vez mais proeminente de agora em diante.


Talvez isso tudo aqui seja apenas um desabafo momentâneo meu; talvez na semana que vem eu descubra alguém que eu goste muito e que muito goste de mim também e repentinamente isso tudo possa parecer uma grande bobagem. Talvez isso seja um reflexo de eu começar a compreender que gostar não é possuir, e ainda esteja me adaptando a essa nova fase onde eu compreenda que existem várias formas diferenciadas de se exprimir um sentimento. Mas no momento, no agora, isso me parece relevante; então mesmo que eu me arrependa disso amanhã, acho importante registrar o que sinto aqui, hoje.

De qualquer modo, de uma coisa não restam muitas dúvidas: sumir sem deixar vestígios parece ser a forma de se terminar relacionamentos nesta nova era que vivemos. E eu sinto que isso vai ter — ou já tem — uma influência muito grande na forma que nos relacionamos, e que muitos de nós não vão esquecer disso tão cedo.


Oi, meu nome é Rodrigo. Eu escrevo. Se quiser ler mais textos que eu escrevi, me siga aqui no Medium. Eu tenho uma publicação chamada Crônicas de um Ano Que Nunca Aconteceu; tem mais textos lá também, então sinta-se à vontade.