Eu sou um péssimo leitor

Sério, eu não sou um leitor muito bom não

Rodrigo Prata Orge
Jul 25, 2017 · 4 min read

A minha pilha de livros vinha crescendo exponencialmente desde 2011. O primeiro livro meu que eu comprei foi Pigmy, de Chuck Palahniuk; nunca terminei. Bukowski, Dickens, Dostoiévski, Márquez, Adams, Wilde, Asimov, e até meu amado Lovecraft; eram pilhas e mais pilhas de alguns dos meus autores favoritos que não paravam de crescer, empoeirar, amarelar e muitas poucas vezes eram lidos até o final.

Orwell, Wilde, Hemingway e Asano foram os que tiveram mais sucesso. Terminei 1984 em 2012 e mudou minha vida; li O Retrato de Dorian Gray poucos anos depois e se tornou meu segundo favorito. Huxley não me agradou, Verne me encheu o saco, Salinger me fez detestar adolescentes e Bradbury eu literalmente entreguei.

O que veio depois disso, então? Bukowski me entretia em suas doses homeopáticas (ainda acho que comecei imitando ele, mesmo que inconscientemente — uma ex namorada me dizia a mesma coisa). Lovecraft fazia eu esquecer do universo ao meu redor com seu horror cósmico. Hemingway me fez ver do cotidiano o fantástico, Asimov fez eu amar ficção científica pela primeira e única vez na vida, Márquez deu vivacidade ao que deveria ser ficção e eu amo Vonnegut e aquele seu maravilhoso bigode até o fim dos dias.

E eu acho que é só isso, mesmo.


Eu nunca fui o melhor dos leitores. Desde que li Orwell pela primeira vez me apaixonei por literatura e não sei se voltei a me apaixonar tanto desde então. Fui procurando por aquelas listas e listas de melhores autores e livros obrigatórios e via sempre as mesmas recomendações, e tinha a impressão de já ter lido os melhores — ou que seriam os melhores pra mim, ao menos. Encontrei acalento não em inúmeros autores, mas nos mesmos; percebi que meu amor não se resumia à obra, mas por quem estava por trás dela. Descobri, na leitura, que a escrita transparecia a pessoa, e eu adorava isso.

O que ocorreu em seguida foi uma busca incessante por saber o que ler, como se eu precisasse saber o que ler. As pessoas me viam de um lado pro outro com algum livro diferente na mão; havia se tornado minha marca registrada. Eu era um leitor. Queria não ser um daqueles leitores chatos que se achavam o máximo simplesmente por serem leitores e só sabem falar disso, mas olhando em retrospecto, eu provavelmente era. Que bom que a gente cresce, né?

Após algumas buscas curtas e pouco frutíferas, do tipo que você lê apenas as primeiras trinta linhas de algum ebook, percebi que talvez esse negócio de ler não fosse lá o meu forte. Em algum dia de maio de 2012 eu escrevi o que considero a primeira coisa que eu escrevi e não tive mais vontade de parar desde então. Eu percebi que eu tentava me habituar com a rotina da maioria das pessoas, que é a de consumir mídia; mas eu sempre fui um cara chato que tinha uma vontade insana de criar. Desde os meus seis anos, quando eu criava minhas próprias histórias em quadrinhos com meus personagens e gastava inúmeros cadernos de desenho fazendo fases de videogame, eu sempre tive a vontade imensa de criar.

Virei escritor, acho. Mas não gosto de dizer que sou escritor; acho presunçoso. Eu prefiro me ver só como um cara que gosta de escrever. No dia que eu sentir que cheguei lá, o que quer que chegar lá possa significar, talvez eu consiga me considerar um escritor. Mas até o momento, eu sou só um cara que gosta de botar palavras em um papel, mesmo.

E eu meio que continuei até aqui. Tudo que já tentei ler desde então eu sempre o fiz como treinamento; a vontade de ver o que pessoas melhores do que eu faziam, não para imitação, mas para saber mais. Literatura para mim deixou de ser entretenimento, mas aprendizado. Nunca vou saber o quanto de outros atores eu incorporei em mim, visto que somos um pouquinho de todos os aprendizados que recebemos, mas hoje sinto que não tento pegar carona do estilo de ninguém. Ainda assim, eu permaneço um péssimo leitor.

Mas eu continuo tentando. Li Harry Potter e a Pedra Filosofal duas vezes, não por gostar, mas só pra saber qual era o estilo da Rowling. Nas duas vezes, separadas por uns 10 anos, tive exatamente a mesma impressão, cena por cena. Não é pra mim — mas o que quer que ela faça, eu sei que é algo incrível para alguém, e isso só mostra que eu ainda tenho muito a aprender. Permaneço tentando, mesmo sendo ruim em tentar, mesmo bem esporadicamente; porque descobrir um novo autor ou autora que você gosta é como se apaixonar de novo, e eu não passaria a oportunidade se pudesse.

Deixei de ampliar a minha pilha de livros já tem uns anos. Decidi que só voltaria a comprar um novo depois de terminar tudo aquilo que já tinha. A pilha não mudou muito desde então. Já minha pilha de escritos continua crescendo freneticamente a cada dia, nem tanto por vontade minha, mas porque eu não consigo parar.

Comprei um Kindle no ano passado; há exatamente 16 meses, no meu aniversário. Enchi ele de livros. Ainda não terminei nenhum. Talvez algum dia eu leia nele.

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Rodrigo Prata Orge

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Baiano sem sotaque. Gosta de escrever, mas só escreve quando quer.

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