Testemunho de Yehiel De-Nur no julgamento de Eichmann.

Qual o lugar do trauma no discurso jurídico?

Felman em seu livro O insconsciente jurídico transcreve a parte final do testemunho de Yehiel De-Nur [ou Denoor, que assumiu o nome K-Zetnik] justo antes de seu colapso no julgamento de Eichmann, bem como as intervenções do promotor de justiça e do juiz presidente do processo:

Esta é uma crônica do planeta Auschwitz. Eu estive lá por mais ou menos dois anos. O tempo lá era diferente do que é aqui na Terra. Cada fração de segundo transcorria em um ciclo de tempo diferente. E os habitantes daquele planeta não tinham nomes. Eles não tinham pais nem filhos. Eles não se vestiam como nos vestimos aqui. Eles não nasciam lá e ninguém dava à luz. Até mesmo sua respiração era regulada por leis de outra natureza. Eles não viviam, nem morriam, de acordo com as leis deste mundo. Seus nomes eram os números ‘K-Zetnik tal e tal…Eles me deixaram, continuaram me deixando, para trás…por quase dois anos eles me deixaram e sempre me deixaram para trás…eu os vejo, eles estão me observando, eu os vejo [191].
Neste ponto, o promotor interrompe gentilmente: ‘Sr. Dinoor, eu poderia talvez fazer algumas perguntas ao senhor, se o senhor consentir?’. Dinoor continua a falar ‘Eu os vejo…Eu os vejo em pé, na fila…’. O juiz presidente interveio: ‘Sr. Dinoor, por favor, por favor, ouça o sr. Hausner; espere um minuto, agora me ouça!’. A testemunha, extenuada, levantou-se vagamente e, sem dar sinal, caiu desmaiada, desabando no chão, ao lado da tribuna da testemunha [192]. Dinoor permaneceu duas semanas no hospital entre a vida e a morte, paralisado [193].
Planeta Auschwitz