Resenha: Os Prisioneiros de Rubem Fonseca — No Limiar entre a Normalidade e a Loucura!

Nessa caminhada sangrenta, escatológica e visceral pelos livros de contos do Rubem Fonseca, que fiz sem obedecer a nenhuma ordem crononógica, na doida mesmo, seguindo o caos, chego em “Os Prisioneiros”, o livro que colocou o Rubão no mapa literário.

Publicado em 1963, “Os Prisioneiros” explodiu em meio a mesmice de crônicas e contos brasileiros, causando sensação entre os críticos da época, pelo que vi dando uma fuçada pela net. Achei que nesse livro de estréia, Rubão estaria mais cruzão, ainda no começo. Que nada! O cara mandava bem desde o começo, e até mais experimental e com temas mais variados do que desenvolveu mais tarde (é claro, cada autor acaba descobrindo a sua praia, onde curte mais criar narrativas, mas sinto falta desse experimentalismo do Rubão em seus romances e narrativas mais recentes).

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Parece que Os Prisioneiros foi uma preparação para a piração geral do Lúcia McCartney (que, pelo que me disseram pela internerd, é o livro mais experimental e piradão do Rubão), e gostei muito, mas muito mesmo de vários contos, principalmente do último, o Inimigos, que é um conto com gosto de romance, complexo estruturalmente, com uma técnica perfeita de flashback e flashforward, equilíbrio entre a sanidade e a loucura, e várias camadas de significado. Só por “Inimigos” o cara já seria lendário na literatura brasileira, mas ainda tem o “250 gramas”, que deve ter sido inovador pra caralho na época que foi escrito.

“O Agente” é outro exemplo de estrutura narrativa impecável do Rubão, uma verdadeira aula; e “Fevereiro ou Março” revela de cara uma habilidade fodásica do Fonseca, sua precisão nos cortes de cena, sensibilidade de diretor fodão; o cara corta as cenas no momento mais que certo, muitas vezes deixando que o fechamento emocional da narrativa aconteça na mente do leitor (ou no estômago do leitor, a literatura de Fonseca é uma literatura de cabeça, coração e estômago).

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O personagem onipresente do Fonseca, a voz de primeira pessoa que vaga indecisa entre o que é considerado normal e o que é considerado loucura pela sociedade parece ter nascido no conto “O Inimigo”. É a mesma voz que surge em trocentos contos posteriores, e em “O Inimigo” conhecemos a biografia desse super-personagem do Rubão, por suas memórias que nunca temos certeza se são reais ou imaginárias, e nem se realmente importa se devem ser reais ou imaginárias, já que os sentimentos que elas evocam são reais.

Mais que recomendo a leitura, e dentro da escala Rubão Doidimais de Livros de Contos, coloco os Prisioneiros nos top 3 livros do Rubão, junto com Feliz Ano Novo e O Cobrador. Se bem que já comecei a ler o Lúcia McCartney e já vi que é outro livraço do cara.

Bem feita a resenha, agora, de volta à leitura! :)

SUMÁRIOZINHO SAFADO DOS CONTOS DO LIVRO “OS PRISIONEIROS” DE RUBEM FONSECA

Fevereiro ou Março
Um bando de trogloditas de academia saem vestidos de mulher no Carnaval para dar porrada em estranhos na rua.

Duzentos e vinte e cinco gramas
Três homens e uma morta.

O conformista incorrigível
Psicólogos analisam um louco na sua frente, para decidir se pode ter alta. Sua doença: a conformidade.

Teoria do consumo conspícuo
Um cara tentando cumprir seu ritual de carnaval de levar uma mulher para a cama.

Henri
Um intelectual misterioso leva sua velha admiradora para uma viagem.

Curriculum vitae
Um jovem desempregado, vagabundo e tocador de bongô é colocado na parede por sua namorada.

Gazela
Um revisor de jornal conta sua desventura amorosa.

Natureza-podre ou Franz Potocki e o mundo
Um conto sobre a podridão da arte e a arte da podridão. A história de um pintor obcecado com o podre.

O agente
Um recenseador e um suicida.

Os prisioneiros
Uma psicóloga tentando desvendar a estranha neurose de seu cliente.

O inimigo
Um adulto tentando reencontrar seus amigos de infância para compartilhar suas memórias de infância.

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CITAÇÕES MASSAVÉIAS TIRADAS DE “OS PRISIONEIROS” DO RUBÃO “DEDO NO OLHO” FONSECA

“DR. LEVY: (Para Amadeu) Mas a base da Revolução preconizada por Fromm e Mailer é a luta contra o Conformismo; um perigoso tipo de “autoridade” que chegou ao seu esplendor em meados do nosso século.
DR. PROM: Substituindo o pai, o mestre, o rei, o deus, a lei.
DR. LEVY: Exatamente. Como disse o grande Fromm, um tipo de autoridade anônima, invisível, alienada; em que ninguém dava ordens — nenhuma pessoa, nenhuma ideia, nenhuma lei moral — mas todos se submetiam. A quê?
DRA. KREUZER: À Conformidade!
DR. PROM: A essa coisa iníqua e asfixiante que era a comunis opinio.
DR. LEVY: (Sempre olhando para Amadeu, que atento segue suas palavras) Exatamente. Todos queriam ser iguais, e toda cultura era influenciada por isso. Vejam por exemplo a arquitetura de Le Corbusier, Gropius, Niemeyer e outros alienados, que se espalhou como uma epidemia pelo mundo, com as suas paredes de vidro e seus playgrounds coletivos condicionando os moradores a um mimetismo obsessivo. A pessoa não precisava sair da sua casa para ver ou ser vista, nas coisas mais íntimas.
DRA. KREUZER: Soube hoje que as últimas casas e apartamentos desse tipo estão sendo destruídos pelo Icontrab.
DR. LEVY: O mesmo ocorria com o que se denominava a Moda. Todas as pessoas se vestiam igual na Finlândia, em Gana, no Marrocos e no Curdistão. Pura imitação.
DRA. KREUZER: Agora as pessoas não podem mais se vestir igual. A não ser os membros uniformizados dos institutos, é claro.
TODOS: Excelente, excelente! “
Rubem Fonseca — Os Prisioneiros — “O Conformista Incorrigível”

“O senhor já amou? Não se ofenda se lhe pergunto isso, mas milhões de pessoas nunca amaram. Há aqueles que amaram seus livros, seu cachorro, seu país, suas roupas, suas joias, seu automóvel, mas eu não falo disso, nem de amor paterno ou fraterno — tudo isso é besteira comparado com o amor da mulher que amamos e nos ama; e que temos vontade de matar quando achamos que não nos ama mais. Uma coisa grande. “ Rubem Fonseca — Os Prisioneiros — “Gazela”

PRÓXIMAS LEITURAS
Devo ler mais dois livros do Rubão, o Lucia McCartney e o Confraria dos Espadas (conto que curti demais quando li os 100 Melhores Contos Brasileiros do Século).

Depois desses dois, volto aos livros de dicas para escritores (para manter a mente afiada) com The Sense of Style — A Razão do Estilo, do linguista de olhos azuis e QI de elefante Stephen Pinker, que dá dicas para escritores com base nos últimos desenvolvimentos da ciência linguística (a galera da internerd de escritores gringos está babando nesse livro, e quer ver qualé).

Após o The Sense of Style, retorno para a literatura de fantasia com a trilogia Bas-Lag, com o Perdido Station do piradaço China Miélville (uma mistureba steampunk, realidade alternativa, artistas plásticas com corpo de mulher e cabeça de besouro, homens-cactus, cyborgues mortos vivos, etc.); que vou intercalar com a leitura da trilogia O Tempo e o Vendo, do Érico Veríssimo (que nunca li,