Bolsa família não é esmola, ou pelo menos não devia ser

Não gosto de charges.

Uma das objeções mais frequentes ao Bolsa Família é a que pinta o programa de “mensalão popular”, um suborno em troca do voto na próxima eleição. Mais do que um programa de redistribuição de renda, seria um criadouro de apoio eleitoral. Dá-se lá o dinheiro e o pobre, que não é bobo, mantém o PT no poder pra continuar lucrando. Tanto que 79,5% dos beneficiários do Bolsa Família em 2007 aprovavam o governo Lula, contra apenas 46,1% de aprovação por parte daqueles que não eram beneficiários e não conheciam alguém que o fosse. A objeção, é claro, é absurda.

Absurda porque já parte da ideia simplória de que dar dinheiro é pagar por alguma coisa. Simplória mas coerente, até certo ponto. Você geralmente recebe algo em troca do seu dinheiro. É o fato do Bolsa Família ser uma quantia monetária, então, que causa o estranhamento? E se o programa fosse uma Cesta Básica Família, ainda seria suborno? Ah, mas não é. É dinheiro, que dá pra trocar por qualquer coisa, não precisa usar pra comprar comida. Fosse uma cesta básica, seria uma propina mais sutil, mas nem isso.

Tudo bem, o programa transfere uma quantia em dinheiro, não em comida. No entanto, estima-se que 87% dessas transferências sejam utilizadas pelas famílias na compra de alimentos. A estatística de 2007 faz com que o Bolsa Família, na prática, seja uma ajuda de custo na alimentação. E aí? Ainda é suborno?

É suborno sim. O que caracteriza o suborno é a troca de favores, o CLIENTELISMO, não o dinheiro em si. Joia é suborno, jatinho é suborno, triplex no Guarujá é extremamente suborno. O povo pega o dinheiro, compra comida e vota no PT pra continuar alimentado. A ideia é a mesma.

Bom, mais ou menos. Se o problema não é a forma do pagamento mas sim a aprovação eleitoral que se ganha dele, então toda política pública que gera lealdade no povo é suborno. Ciclovia? Suborno, Haddad quer voto de ciclista. Tarifa zero? Suborno, Erundina quer voto de quem se transporta. Parque no Interlagos? Vai construir parque pra quê? Suborno.

Que exagero. Também não é assim. Política pública popular é diferente de transferir dinheiro na mão do pobre, não dá pra comparar as duas coisas em pé de igualdade. A política tem um objetivo definido. Constroem-se ciclovias, por exemplo, pra permitir a passagem segura dos ciclistas. Gerar boa repercussão eleitoral e uma eventual reeleição é típico de qualquer boa gestão, de qualquer bom gestor. A questão do Bolsa Família é que o benefício foi depositado diretamente na conta do cidadão com o fim específico de comprar voto. Fica com esse dinheiro aí, só manter o PT no poder. Simples.

Nem tão simples. O objetivo expresso do Bolsa Família é conectar redistribuição de renda e desenvolvimento, condicionando o recebimento do benefício à permanência das crianças na escola. Já é um fim mais definido do que “toma esse dinheiro aí”, existe toda uma lógica por trás. Você recebe a Bolsa desde que seu filho receba a educação que eventualmente, possivelmente, o colocará acima da renda mensal máxima pra elegibilidade ao programa — 170 reais ao mês. Caralho, 170 reais ao mês. E você enchendo o saco do pobre por querer que o PT se reeleja.

Claro, vai se reeleger como, dando esmola? Melhora com uns trocados a vida de quem ganha miséria e fica por isso mesmo, não dá condição da pessoa sair da pobreza. Cadê a capacitação, o treinamento pro trabalho? Como se interrompe o ciclo perpetuando a dependência na ajuda do governo?

Bom, vamo recapitular. O problema do Bolsa Família não é o dinheiro, porque também seria propina se fosse cesta básica, como é na prática. Não é a aprovação eleitoral, senão tudo que gera repercussão positiva nas eleições daria problema. Também não é a falta de propósito definido, porque é definido, é definidérrimo. Então o problema é que o programa não serve ao objetivo a que se propõe, que é de interromper o ciclo da pobreza. Ninguém fica menos pobre com um dinheirinho a mais pro mercado do mês. Mais aliviado, sim, mais nutrido, com certeza, mas não menos pobre. O Bolsa Família dá só aquela ajuda suficiente pra conquistar o coração do povo e vaza, cheio de voto na mão. Fosse um programa social legítimo, faria diferença a longo prazo. É isso?

Porque se for isso, a solução não é extinguir o Bolsa Família, é expandi-lo. Incorporar ao programa não só a ajuda de custo básica com alimentação como também a capacitação de trabalho, o acesso à saúde e a educação. Investir pesado nos fatores capazes de interromper o ciclo da pobreza, ao invés de só dar uma mesada ao fim do mês pra manter a família viva. É isso? Porque se for, eu concordo demais.