Exercício para não esquecer
Sou daqueles que tenta não ficar triste com as coisas do mundo. Afirmo que para mudar nossa realidade é preciso alegria, pois o sistema vigente quer nos ver tristes e abalados.
Mas tem sido difícil.
Vivemos nossa tragédia aqui no Ceará, interrompendo vidas de forma violenta diariamente. Nossa memória também não é muito boa por aqui.
Vivemos nossa tragédia lá no Rio de Janeiro, em uma guerra contra as pessoas. Lá o incêndio vem queimando há tempos.
Vivemos nossa tragédia lá em Roraima, devastando o ambiente, agredindo hermanos, moendo com soja e gado nossos povos mais tradicionais.
Vivemos nossa tragédia no Brasil. Massacramos as pessoas, ceifamos vidas, eliminamos nossa história.
Escrevo essas poucas frases na primeira pessoa do plural para destacar que somos parte desse coletivo. Essa pessoa primeira é, em essência, plural.
Confesso que eu mal tenho sido um, o que dirá mais de um.
Somos diferentes e diversos, mas ainda somos. Escrevo para não esquecermos que três letras e um acento expressam o que parece frágil em nossos dias: nós.
Eu também preciso não esquecer disso. A carga tem sido pesada e a memória fragilizada.
Atacando com a memória, repito de outra forma. Em vez de esquecer, lembremos: somos nós.
