Foto: Thiago Gomes

foto: thiago araújo

“Morreu alguém famoso?”. Foi o que me perguntou a vendedora da feira bem em frente ao Cemitério São Jorge, na Marambaia, onde hoje enterramos nosso amigo Thiago Araújo. De pronto, respondi que não, que quem tinha morrido era um amigo nosso e falei o “nosso” incluindo ela, porque se ela tivesse conhecido o Thiago, com certeza teria se tornado amiga dele também. Mas fiquei pensando sobre a pergunta. O velório e cemitério estiveram “lotados” de amigos próximos, distantes, familiares e nenhum curioso — porque todos ali conheciam aquele gigante que estava deitado lá e que, mesmo sem vida, não tinha perdido o ar malandro no rosto. Parecia que a qualquer momento ele iria rir, tirar os algodões do nariz e dizer que estava nos aplicando uma pegadinha. Era minha esperança, aquela que teimou em morrer tarde e que só virou ficha caída quando joguei minhas flores por entre a terra revolvida por cima do esquife do meu amigo e com voz embargada falei: “vai mano”. É, aquele gaiato filho da mãe não ia levantar e dizer que estava brincando. Tinha morrido a fina flor da malacagem. O cara que conseguiu algo cada dia mais raro nos dias de hoje: ser uma unanimidade positiva.

Foto: Salim Wariss

Thiago pode ser descrito de mil formas e todas elas vão precisar ter, pelo menos uma vez, as palavras “cínico”, “pilantra”, “malaco”, “broder”, “mano”, “já me pegou” — que não é bem uma palavra mas descreve muito bem o espírito aventureiro do jovem fotógrafo, que sabia olhar algo que muitas vezes não conseguíamos olhar. Ele via um pouco além. Mesmo com apenas 27 anos já tinha construído uma carreira que dava inveja em muito fotógrafo que se considerava um Sebastião Salgado dessas bandas daqui (ei Thiago, essa tu vai sacar!). Estava sempre no olho do furação. Os prêmios que ganhou e os relatos mil de companheiros de trabalho dizem bem o que ele fazia quando estava com a câmera em punho: era um profissional de ponta, de alta perfomance. Era o mano que animava quando todos estávamos na bad, como dizemos por aqui quando estamos de baixo astral. Era aquele mano que tinha o dom de puxar as histórias que seriam as mais engraçadas de qualquer aventura, fosse ela de trabalho ou só de sacanagem mesmo. Foi com ele que dividi meus melhores porres e era ele que chamávamos de “sócio” quando o assunto era mulher, porque não existia nenhuma que quiséssemos cortejar que ele não tivesse cortejado antes. Era um namorador, galinha, pegador, galanteador, um duplo sentido constante. Não tinha tempo ruim para aquele cara que tinha quase dois metros mas parecia sempre um moleque de sorriso fácil e cínico. Ele também era um colecionador de amigos, de todas as classes, de todas as esferas, todo mundo gostava daquele porra. Fazia amizades com facilidade que fazia fotos. Parecia que ele tinha um botão pra apertar e pronto, lá estávamos nós achando aquele cara o nosso melhor amigo de infância.

Foto: Thiago Araújo

Mas ele foi, e o meu ceticismo ainda não me permite dizer com muita certeza para onde. Só sei que não vamos mais ver aquele poste ambulante perambulando pelas zonas boêmias da cidade com uma latinha de cerveja numa mão e a câmera na outra. Não vai conseguir ver a sua filha crescer. Vai fazer uma falta desgraçada. Vai deixar milhares de dezenas de mulheres carentes daquele amor pilantra e escorregadio dele. Foi embora muito cedo. A partir de agora não vamos mais ver a onipresença dele em todas as boas fotos que víamos por aí e que sempre tinha como crédito “Foto: Thiago Araújo”. Não vai rolar mais de ir no Palácio dos Bares e não lembrar do seu eterno rei. Não vai dar mais pra amanhecer sem recordar que os melhores amanhecimentos embriagados eram com esse bicho. Não fui o primeiro e certeza que não serei o último a dizer que ele era foda. Mas foda pra caralho. Espírito de energia única.

Foto: Elieson Silva

Mas ok, tu pode até ir mano, mas por aqui não vamos deixar que tu morra. Todas as risadas, o dar as mãos quando precisávamos, a tiração de onda, a gaiatice, tudo isso vai ficar com a gente como memória viva de que todos esses curtos e intensos anos que tu passou por aqui foram vividos bem, e bem pra caralho. Vai mano, ainda que seja a contragosto geral, vai com a certeza de que está deixando uma multidão de carentes dessa alegria saltitante de gingado típico dos malacos do Condor.

Foto: Antônio de Oliveira

Não consigo escrever mais. É hora de dar um “até logo” definitivo. Mas com uma frase ainda ecoando na cabeça — essa que insiste em racionalizar tentando criar ainda alguma saída pra dizer que tudo isso é mentira — aquela frase que já vi e li no relato de muito dos teus amigos: “perdemos um dos nossos”. E era isso mesmo: perdemos um dos nossos, porque tu era de todos.

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