Foto por Juan Manuel Castro Prieto da obra "L’Origine du monde" de Gustave Courbet

pelo direito de ser carnal

em defesa do direito do corpo ser o que ele é: carne.


Quando estava germinando esse texto na nuvem das ideias, pensei em começá-lo com um pedido de desculpas. Iria começar com um irritante tom de complacência, quase resignação. Pediria para não ser mal interpretado — como se essa função me competisse. Isso acabaria por um ser um tiro na própria testa enquanto considerava estar acertando o outro. Percebi, então, que esse é o grande problema de quando vamos falar do que nos é tão elementar e escamoteado, ser canal, porque sempre iniciamos um pensamento sobre o assunto já em bases que se apressam na justificativa da frase “não é bem isso que você está pensando”. O que você está pensando? A necessidade de desculpas e ressalvas prévias dizem muito sobre como enxergamos a manifestação da carne, do corpo.

Não, não irei lançar leituras acadêmicas — aliás, há uma ampla bibliografia sobre o corpo e a carne para consulta — na nossa conversa. Prefiro que seja uma troca humilde — e por vezes ingênua — sobre o assunto. Dê permissão para que isso seja, realmente, uma conversa.

"Patrocle" de Jacques-Louis David

“Queria poder viver num mundo onde todos pudessem andar nus, sem pudores, menos eu”. Essa frase, contraditória, foi lançada numa conversa entre amigos e me puxou para uma reflexão sobre a vergonha que temos da carne que carregamos. Não há novidade alguma sobre a origem de algumas dessas vergonhas, e o quanto custa confrontá-las; o quanto é complexo encarar um sistema de preferência estética que se enraíza, cada vez mais profundamente, há séculos. Isso engendra uma prisão sobre essa entidade subjetiva que é o corpo. Não falemos somente de repressão. O corpo não se repreende. Ele prende-se. E numa prisão fictícia, como na alegoria do cavalo amarrado à uma caldeira solta: o cavalo não mexe-se por crer-se preso, enquanto não há nada que o impeça do movimento liberatório. Algo assim nos capta e nos prende quando pensamos nas pulsões mais animais do nosso corpo — e só de usar o termo “animal” já nos brota uma série de imagens que sentimos o desejo de reprimir, como se nosso aspecto animalesco precisasse ser combatido. Você já se perguntou: precisa mesmo?

Somos configurados por desejos. Uma confluência de vontades, de excessos, de vazões que, por infindas razões, ficaram condicionadas a lugares que recebem o aval de execução das nossas carnais potências. Se há quebra desse código espacial de manifestação das vontades da carne, a repressão do grupo ou de si atua sem comedimentos. E é uma atuação cruel, castradora. Não se pode ser quem se é, porque há determinadas formas de ser no mundo que não estão contempladas dentro do esquema normatizador da realidade — seja lá o que isso queira dizer.

Para irmos ao campo dos exemplos: alguém que goste do assunto sexo. Em certos momentos, essa pessoa traz o assunto à baila e o quer debater de forma aberta e desavergonhada. O símbolo que irá pairar sobre essa pessoa é de que ela não se contém. “Só quer falar disso!”. Não, ninguém é monotemático — mesmo os insuportáveis e chatos. Mas aprende-se a sublinhar o que não pode ser dito e feito com uma frequência “acima da média”. Fale de sexo, mas disfarçadamente ali no meio de uma piada sem graça. Faça sexo, mas assim quietinho, calado, e dentro das “regras” do jogo — de preferência com um parceiro fixo, papai e mamãe e eventualmente, apenas em ocasiões especiais, fora de casa. Não fale em foder, trepar, não proponha nada, fique quieto. Não seja de carne. Não ser de carne. Você já parou, em algum momento da sua vida, para pensar que tudo nos empurra para não sermos de carne? Você sabe que é de carne e essa carne tem necessidades — se alimentar, se hidratar, descansar e etc. Mas você não pensa que categorizamos essas necessidade entre as aceitáveis e “normais”, e aquelas que precisam estar lá, no cantinho do quarto dos desejos, escondida, com pequenas e ocasionais manifestações — sempre monitoradas, claro.

"Le sommeil" de Gustave Courbet

Aqui pelo Ocidente — essa parte da difusa e mentirosa divisão do mundo -, pela força do discurso do anti-natural — discurso religioso, ético, político, social — fomos nos habituando ao fato de considerar que a carne precisa de limites. Não precisa. O que precisamos é de flexibilidade na compreensão dos desejos que nos movem. De entender de que nem toda zona compartilhada de convivência traz conforto. E mais: que não precisa-se de apenas UMA zona de convivência. É preciso abrir os espaços, sem que eles imputem ao(s) outro(s) limites de como deve comportar-se. Deve ser perene o direito de ser carnal, de satisfazer a carne no que ela quer ser satisfeita — sem que haja invasão do espaço do outro, que ele seja respeitado também nos seus desejos. A carne é soberana. O corpo, essa entidade do prazer, é perene na sua limitação cronológica de existência. Permita que ele seja o que é. Não ter medo de explorar as curiosidades que a carne nos desperta. Não considerar-se impuro/sujo — esses conceitos tão imbricados de uma moral religiosa premida da hipocrisia. Ser carne. Carne, sangue, esperma, gozo, grito, gemido, suor, fricção. Apenas ser. Há um medo em deixar-se ser assim. É o natural medo do desconhecido, porque não sabemos a amplitude do terreno que pisamos. A segurança de saber que reação cada ação traz é apenas um disfarce para não sair de uma mal disfarçada zona de conforto do corpo. É preciso jogar-se no campo das reações inesperadas. Jogue com seu corpo. Brinque com ele. Domine-o — mas não um domínio repressor, mas sim aquele domínio das habilidades. Seja dono da carne que te carrega. Carregue a carne que te carrega. Sinta essa carne pulsar. Não tenha receio dessas pulsões. Quando se vê, há outras carnes desejosas da exploração. Carnes que querem testar as suas reações no encontro de outras carnes. Permita o encontro. Não se preocupe em formular ou adiantar resultados. Carne é carne. Não vai no embalo do relógio, do tempo. Até o seu envelhecer pode ser outro. Deixe-se ser carne. Exerça o direito de ser carnal. E que o “pecado” nos acompanhe.


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