324.


“Não faça,
da minha dor, tua casa,
do meu suor, sua chave,
do meu sorriso, fechadura,
da minha carne,

não faça, cadeira,
estante pros livros,
moldura pra espelho,
pras fotos e pra ti,

não me faça,
abajur, mesa de centro,
mesa de sala,
de jantar,
não me faça ornamento,
não quero ser, não faço,

não me faça lembrança, 
de viagem, ocasião,
não me faça escada, torta,
não me faça contenção,

não me faça quebra-cabeças,
não me faça suspirar,
não me sangre, não me queime,
não insista em me marcar,

não seja algoz,
não corte,
não aperte o laço,
não corra,
não empurre a cadeira,
não mostre o remédio,
não seja a minha lâmina.

Não faça do meu corpo carcaça de pensamentos,
baú de sentimentos outorgados no meu eu,

não me faça coisa morta,
já que morto sou só teu.

Não me mate, não me faça, não me crie, não estanque,
não tente reaver,
não há como reconstruir,

uma vez que já sou nada.

Como faço?

Não faça.

nada.”

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