A ousadia de amar Frida Kahlo

Por Sofia Mandelert

Frida Kahlo, artista mexicana morta em 1954, somente em plenos anos 2000 se tornou um ícone pop. Sua imagem é consumida em todas as formas e tamanhos, de almofadas à capas de iPhone, por milhares de pessoas. Fui uma das que se atraíram por suas cores e olhar sério sombreado pelas sobrancelhas rebeldes, o que me levou a estudar mais sobre essa figura pública. De repente e intensamente — como deve ser — me apaixonei. Me envolvi com sua arte e personalidade e, quanto mais eu soube, mais profundamente a amei.

No delírio dessa paixão, acreditei por muito tempo que, como eu, todos que a conhecessem melhor cederiam aos seus encantos e usariam suas bolsas estampadas de Frida com mais orgulho do que nunca. Foi um erro ingênuo, típico de uma usuária do facebook que graças ao filter bubble* acha que o mundo é feminista. A verdade é que Frida dificilmente seria popular se fosse viva hoje para dizer o que pensa. Ela era uma mulher de personalidade espaçosa, insolente, controladora, brilhante e absurdamente forte. E nós sabemos que mulheres fortes são tudo, menos “pop”. Mulheres fortes incomodam, são inconvenientes, não servem ao gosto das massas. Se o mundo conhecesse Frida, talvez ela saísse das vitrines (o que eu lamento), mas certamente entraria no coração de muitas mulheres que veriam nela um exemplo, um espelho.

Frida, como todo grande artista, deve ser reconhecida por sua obra, não só por sua vida pessoal. Em seu caso, no entanto, as duas coisas são indissociáveis, já que a maioria de seus quadros são autorreferentes. Suas telas são uma janela para seu mundo, universo criado no isolamento que sua condição física lhe impunha, nos campos férteis de sua mente, em sua busca pelo autoconhecimento. Ela, como muitas artistas mulheres de sua geração, pintava autorretratos como uma forma de retomar o poder sobre si mesma, de extravasar os limites impostos por sua realidade, representando-se como gostaria de ser, como se enxergava.

“Pinto a mim mesma porque estou quase sempre sozinha. Porque sou o assunto que conheço melhor

Um bom exemplo do reflexo que seu espírito tinha em sua obra é a dupla de quadros “Unos cuantos piquetitos!” e “Lembrança de uma ferida aberta”. O primeiro, pintado em 1935, é inspirado em uma manchete de jornal, que noticiava um assassinato sangrento, um homem bêbado que apunhalou a namorada vinte vezes em uma cama e, quando interrogado pela polícia, disse que tinha sido “apenas umas facadinhas de nada”. A tela é crua e impactante, retratando a cena do crime: o corpo da mulher jaz nu e esparramado na cama ensanguentada, enquanto um homem a encara de forma pouco expressiva, com a arma do crime em suas mãos. A mulher tem seu corpo coberto por feridas abertas e é posta em uma posição que lembra Jesus, com umas das mãos caídas e viradas para cima, com um ferimento do qual escorre sangue. A cena imprime um estereótipo: o “macho” e a “chingada”, em tradução literal o homem e a fudida. “Chingar” denota uma violência, é um verbo masculino, ativo e frio, enquanto a pessoa que sofre a ação é passiva, inerte e aberta, em contraste com a dureza de quem a realiza. “Chingar” era o palavrão preferido de Frida, que o utilizava com frequência. Para completar a agressividade da cena, como que de tão animalescamente atacada, o sangue da mulher espirra por toda a moldura. Frida disse a uma amiga que pintou o acontecimento por sentir simpatia pela morta, já que ela própria quase foi “assassinada pela vida”. Estava falando do caso que seu marido, Diego Rivera, teve em 1935 com sua irmã, Cristina Kahlo. O quadro é uma óbvia reação a essa traição, e demonstra a agressividade devastadora com a qual Frida sentiu esse ato.

Porém, nem tudo é morte e mágoa na cena retratada. Frida não se permitia lidar de maneira tão sentimentalista com suas tragédias pessoais. Sorrateiramente, o cenário horripilante é transformado em caricatura com a presença de elementos bucólicos, como a delicada fronha de renda e as cores alegres das paredes em rosa e azul. A piada se completa com uma romântica e deslocada fita azul clara erguida por duas pombas, uma branca e uma preta, onde está o título da obra. Frida, como boa mexicana, ri da morte. Ri por último de sua própria desgraça.

“Nada vale mais do que uma risada. É sinal de força gargalhar e se abandonar, ser leve. A tragédia é a coisa mais ridícula.”

Três anos depois, em 1938, pintou “Recordação de uma ferida aberta”** onde podemos ver os 3 pilares da obra de Frida de forma gritante: sexo, dolorosos ferimentos e humor. Ele mostra uma transformação na maneira que Frida encarava a situação com seu marido. Se antes se via um corpo inerte e passivamente agredido, agora se vê uma Frida atrevida e desafiadora, sentada de pernas bem abertas e com a saia tehuana levantada para exibir suas feridas: o pé enfaixado e um grande corte aberto em sua coxa de onde goteja sangue. O pé, na época em que o quadro foi pintado, estava de fato trazendo problemas para Frida. Tinha sido operado pela primeira vez e teve um processo muito lento de cicatrização. Já a ferida na parte interna da coxa é inventada, mas representa a ferida em sua genitália causada pelo acidente de ônibus que sofreu aos 18 anos. Uma barra de ferro atravessou seu corpo pela coluna e bacia, rasgando o lábio esquerdo de sua vagina. “Perdi minha virgindade nesse dia”, Frida costumava dizer. Esse terrível ferimento não a inibiu sexualmente, sendo conhecida por seus inúmeros amantes, dentre eles León Trotsky. No quadro, Frida tem sua mão direita coberta pela saia, e ela dizia abertamente que se retratou dessa forma para mostrar que estava se masturbando. Assim, Frida encara o espectador de frente, o olha nos olhos sem nenhuma vergonha, constrangendo-o com sua impassividade.

Seu rosto, tantas vezes retratado, às vezes chorando, às vezes parecendo estar prestes a dar uma piscadela desafiadora, é invariavelmente sedutor, graças às pinceladas precisas. A sexualidade livre de Frida e seu gosto pelo constrangimento alheio eram sua marca, e transparecem em seus quadros e diversas passagens de sua vida. Quando em 1931 Diego foi chamado para os Estados Unidos para expor no Museu de Arte Moderna, a diversão de Frida, obrigada a comparecer a eventos sociais que muito a entediavam, era chocar a “gringolândia”. Contava às gargalhadas para Diego sobre como tinha usado palavrões e expressões vulgares fingindo não saber o significado, falava entusiasmadamente sobre o comunismo em casas nobres e outras traquinagens. Certa vez, quando seria entrevistada em sua casa, recebeu os jornalistas deitada na cama debaixo das cobertas, e devagar foi se levantando chupando um longo pirulito. Em outra ocasião, quando em uma noitada na casa de Henry Ford, que Frida sabia ser antissemita, virou-se para ele e perguntou “o senhor é judeu?”.

Frida detestava os Estados Unidos, e tinha duras críticas ao seu estilo de vida. O quadro “Meu vestido pendurado ali”, completo em 1933, está recheado de ironias em uma visão esquerdista do país. Ela, ao presenciar os efeitos da depressão da década de 30, ilustra a crise em uma multidão de figuras muito pequenas, amontoadas na parte inferior do quadro, e também em uma lata de lixo, de onde transbordam itens como flores, um pano de babados manchado de sangue, uma garrafa de bebida alcoólica e uma mão humana, simbolizando o desperdício. Toda a cena passa uma forte imagem de decadência, um apocalipse da sociedade capitalista. No meio do caos, está pendurado um vestido tehuano de Frida, extremamente feminino e delicado, fazendo entender que suas roupas vagam fantasmagoricamente pela cidade, já que ela mesma está em outro lugar. Essa ideia é reforçada pelo navio no canto da tela, no qual a artista desejava estar a bordo.

É importante lembrar das fortes concepções políticas de Frida, que até o último momento, contra a indicação dos médicos e qualquer expectativa, compareceu às manifestações de esquerda, em grandes aparições das quais muitos nunca se esqueceram. Ela sempre foi um símbolo de resistência, inspiração de fervor revolucionário, muitas vezes retratada nos murais de Diego distribuindo armas, presente em reuniões e com o braço erguido em punho pronto para a luta. Aos 47 anos, Frida fez sua última aparição pública em uma marcha heróica contra a deposição do presidente esquerdista da Guatemala Jacobo Árbenz e a imposição do regime do general Castillo Armas. Seguia liderando um grande grupo de vanguardistas da cultura mexicana, empurrada em sua desconfortável cadeira de rodas por Diego. Ao retornar à sua casa, confessou a uma amiga que “eu só quero três coisas na vida: viver com Diego, continuar pintando e fazer parte do Partido Comunista”. Frida morreria pouco tempo depois, devido a uma broncopneumonia.

Antes de morrer Frida fez exposições importantes na Europa e Estados Unidos, conquistou a admiração de muitas figuras importantes no mundo da Arte e fora dele. Hoje é mundialmente conhecida e fez isso em uma época nada fácil para as mulheres desse ramo. Fez isso sem ceder em nada. Irredutível, não se masculinizou, não diluiu seu nacionalismo, não abdicou de seus vestidos tehuanos, não depilou as sobrancelhas. Frida se impôs ao mundo com seu próprio rosto, com sua imagem tal e qual, e tudo que vem com ela. Nunca deixou que ninguém apreciasse sua arte esquecendo-se de quem a tinha produzido. Era tão presente quanto as pinturas em si.

Hoje, Frida foi retirada de sua própria imagem. Isso porque as pessoas não conhecem seus quadros, que carregam seu simbolismo, sua ideologia, sua vida. Ela é conhecida apenas por seu rosto emudecido. Frida foi aprisionada e silenciada em uma estampa para que se tornasse palatável, conveniente. Essa mulher que tanto viveu e tanto fez merece ser libertada, merece ter voz novamente em um último grande ato póstumo. Para isso, é preciso difundir aquilo que Frida queria ser conhecida por, aquilo que fez intencionalmente para a posteridade: sua arte.

Meus estudos para esse texto foram o início de um intenso e duradouro relacionamento entre mim e Frida e, por não ser ciumenta, meu desejo é dividir minha amada com o mundo. Há espaço para todos na Casa Azul.

Gostaria de lembrar que a exposição “Frida Kahlo: conexões entre mulheres surrealistas no México” estará aberta no espaço Caixa Cultural Rio de Janeiro até o dia 27 de março, e para lá irei voando:

¡piernas para que las quiero si tengo alas para volar¡***

*Filter Bubble é o resultado que se tem depois que o algorítimo de um site seleciona o que o usurário gostaria de ver baseado em suas informações (como histórico de pesquisas, localização etc). O resultado é um isolamento do usuário, que não mais entra em contato com pontos de vista diferentes do seu.

**A pintura foi destruída em um incêndio, mas foi preservada em uma fotografia em preto e branco.

***Pernas para que as quero se tenho asas para voar!

Esse texto foi baseado no livro “Frida: a biografia”, de Hayden Herrera, da Editora Globo, de onde retirei as interpretações dos quadros e passagens da vida de Frida. O livro conta toda a história de Frida de uma forma riquíssima, uma obra prima, que eu recomendo fortemente.

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