Resenha Carlos Chagas

Por Marcela Reis

É duro falar em ditadura sem cair nos clichês. Como esse agora (ops, irresistível). É ainda mais duro fazê-lo em 2014, ano de rememoração do cinquentenário do sanguinolento e pouquíssimo saudoso golpe militar de 1964.

É essa a tarefa da qual o jornalista Carlos Chagas se incumbiu, no ano passado, ao iniciar uma série de dois volumes, na qual traz novas cores e perspectivas inexploradas à fértil (e ainda atual) temática dos anos de Chumbo. Prosseguindo com a estratégia literária que o consagrou (de acompanhar, por meio da história paralela da imprensa e seus veículos, os fatos que conformaram nosso país em sua trajetória política e social), Chagas, ex editor de O Globo, advogado e hoje professor da Universidade de Brasília, dá um novo passo em sua obra. Após o sucesso de sua primeira série de dois volumes (O Brasil Sem Retoques- 1808 a 1964, de 2001, na qual examina a história nacional do país de acordo com a imprensa, e seu desenvolvimento conjunto) o jornalista retoma da pausa dramática feita em 2001 para dedicar uma nova série completa ao que foi, pode-se dizer, o período mais politicamente fervilhante e complexo da história nacional.

Em A Ditadura Militar e Os Golpes Dentro do Golpe, de 2014, Chagas inaugura um viés inovador na análise histórica do período ditatorial ao reconstruí-lo a partir de um ponto de vista peculiar: o seu próprio, enquanto jornalista, e de sua classe profissional. Embora trivial, parece comum esquecer que, em sua função de redatores da história, os jornalistas sejam frequentemente olvidados como parte e peça central em seu decorrer. Agora, um ano após a publicação do primeiro volume, é lançado o segundo e último, A Ditadura Militar E A Longa Noite Dos Generais.

Em conjunto com o caráter inegavelmente envolvente da temática histórica, está o brilho da escrita e estilo de Chagas, que conduzem o leitor pelos corredores do Congresso, redações dos mais variados veículos de notícias e bastidores de todos os tipos de círculo político, dentro dos gabinetes, escritórios e salas de estar daqueles que moldariam a história como hoje a conhecemos. A combinação de inéditas revelações de bastidor sobre a intimidade (de pensamentos de um ditador sobre o outro a problemas conjugais no leito presidencial), articulações e manobras dos principais atores políticos do período ditatorial disputam espaço com as não menos intrigantes disputas e dilemas no interior das redações, que significariam, ressignificariam e consolidariam toda a imagem que hoje temos sobre a era militar.

Não faltam obras sobre o golpe. Falta(va)m obras cativantes e completas como a de Chagas, capazes de humanizar nossa interpretação da história a partir da exposição da humanidade daqueles que a escreveram.

Marcela Reis, é aluna no 3˚ período da FGV Direito Rio.

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