Amazonita — Marcela Cantuaria

Hortas de encontro

Por Jasmin Sepahzad

A partir das reflexões da Jasmin, alemã que transita entre Berlim e São Paulo e se arriscou generosíssimamente na proposta de escrever em português, nos ocorreu promover um segundo encontro: entre o texto dela e as pinturas de Marcela Cantuaria. A artista carioca constrói camadas de indistinção entre corpo e paisagem. Nas suas pinturas, qualquer possível delimitação estável entre o binômio homem-natureza é borrada pelas cores em intensa contaminação. O encontro entre a pesquisa da Jasmin sobre as hortas comunitárias e essas imagens contemporâneas é uma aposta no diálogo sempre latente entre práticas artísticas e reinvenção das formas de convívio.


O planeta Terra é um espaço bastante abstrato para o ser ­humano. Ele dificilmente consegue abranger o seu tamanho, riqueza e valor. Mas em menor escala conseguimos dar valor para o espaço e criamos laços afetivos por ele. Em contato direto com o nosso redor, o espaço físico ganha finalidade e se torna tangível e desfrutável por nós. O nosso espaço mais próximo é a nossa vizinhança. Entre muitas emoções e lembranças, ela se compõe de prédios, casas, ruas, quintais, pessoas, bichos e plantas. A flora, no nosso mundo moderno, não está mais vivendo próxima das nossas casas para alimentar nossos corpos e sim para alimentar nossas almas. Pode ser o mero descuido ou contrariamente ela pode assemelhar o cuidado que existe com a nossa vizinhança, o nosso espaço, e assim com nós mesmos e o próximo.

Nos últimos anos um fenômeno verde se afirmou no mundo inteiro, que está aparecendo como uma resposta potente aos complexos e desafios iminentes. São as hortas urbanas comunitárias que estão brotando em diversos cantos do mundo. Para muitos, elas parecem ser um fenômeno moderno, porém a sua história já começa bem antes. Conhecemos os Schrebergärten ou Kleingärten aqui na Alemanha desde o final do século XIX. Nos anos 1970, Liz Christy fundou o primeiro community garden em Nova York, que representa a primeira ocupação de espaço urbano com um contexto de ativismo e luta pela vizinhança. Hoje, em um momento no qual os problemas ecológicos, sociais e espaciais estão chegando a um pico, as hortas representam uma resposta sustentável que convence pessoas no mundo inteiro.

Dizendo isto eu não estou negando os inúmeros projetos de agricultura urbana que existiram, estão crescendo e surgirão. Geralmente, eles têm como finalidade a geração de renda, a produção de alimentos e a atenção na questão da segurança alimentar. Mas as hortas urbanas comunitárias, como a “Horta das corujas” em Vila Beatriz, bairro em São Paulo, ou a Prinzessinengärten (em alemão, hortas da princesa) em Kreuzberg, Berlin, estão timidamente e muitas vezes indiretamente enfrentando vários outros aspectos negligenciadas da nossa sociedade. Focando, por exemplo, em questões sociais da vizinhança ou na educação ambiental, não é raro que elas assim ultrapassam os alvos mencionados acima.

Abraço Noturno — Marcela Cantuaria

Nós estamos desmontando esse planeta com uma velocidade assustadora. Com cada prédio novo, cada campo de milho geneticamente modificado, com cada passeio motorizado e cada marmitex de isopor mudamos o nosso planeta. Ninguém sabe dizer se isso necessariamente significa o fim do nosso mundo, ou ainda “pior”, da raça humana. Fato é que essas intervenções estão mudando a natureza visivelmente e em muitos casos, de forma irreversível. A transitoriedade está cada vez mais tangível também nas nossas vizinhanças. Estamos defrontando o agravamento da poluição do ar, a escassez de recursos e, no pior caso, as repercussões diretas da mudança climática.

Uma bonitinha horta urbana comunitária não vai poder deter esses processos. Ou antes, ela representa a esperança dos habitantes do mundo de uma maneira criativa. E ela, sim pode fazer uma diferença. Por exemplo, no micro­clima, na qualidade do solo, na diversidade biológica e nas nossas cabeças.

O que falta para alguma coisa mudar para o melhor são atos de transformação sustentável que são feitas por pessoas solícitas em movimentos sociais. De um lado, as hortas urbanas podem facilitar a criar essa energia de ativação. Por outro, oferecem um espaço de prática direta e assim um campo experimental, que para muitos moradores da cidade é uma oportunidade rara.

Uma horta urbana para mim representa uma célula da vizinhança, por ser um lugar de encontro. Primeiramente de encontros sociais que assemelham a cola da vizinhança. A vontade de criar um laço encarado com as pessoas que nos circulam parece ser uma necessidade humana, que tem um efeito de cura. Faz bem rever os rostos que conhecemos no mutirão do domingo, na padaria da esquina e cumprimentar­-los com um sorriso ou até pelo nome. Através da participação na horta nos sentimos contextualizados no esqueleto social do nosso bairro e também lhe criamos ativamente, e assim fortalecemos a nossa auto-­eficácia.

Hoje em dia, mais raro do que o encontro social é o encontro com a natureza. Estou falando do contato direto, no qual todos os nossos sensos estão apelados, nos quais nós podemos nos sujar ou até mudar a nossa percepção do mundo dentro e fora de nós. Você lembra daquele momento (se não for recentemente, tenho certeza que na sua infância vivenciou alguma experiência parecida) no qual o Sol bateu numa única folha, a borboleta apresentou as suas cores só para você, as formigas engatinharam tão rapidinhas no seu pé que você sentiu o que significa estar vivo?

Gaya — Marcela Cantuaria

Esses momentos, disse Arne Næss, fundador da deep ecology, são elementares para sermos pessoas que se preocupam com o nosso planeta e, por inferência, que cuidam dele ativamente. Ao criar espaços nos quais esses encontros naturais podem acontecer, mesmo sendo em pequena escala, em alguns metros quadrados entre prédios e calçadas, nós consequentemente formamos o acontecimento da educação ambiental. E assim é possibilitada uma futura mudança de comportamento em relação ao meio­ ambiente.

E por fim nós, por simplesmente mexermos na terra com todo nosso coração, damos tempo a um encontro consigo mesmos. Longe dos deadlines e dos conflitos diários, criamos um espaço de tranquilidade e paz que facilita entrarmos em conversa com a nossa essência. No transe do ritmo regular do ancinho, esquecemos para que existe a cidade e não perguntamos mais porque não vimos antes. Esses momentos são ouro para nossa sociedade e para todas as vizinhanças que lhe formam e curam a parte mais importante. Vivendo a vizinhança no contato direto com as partes vivas dela, sejam seres ­humanos ou plantas, ela vira sinônimo para a aprendizagem, e assim para evolução e desenvolvimento, ­ seja pessoal ou mundial.

- Jasmin Sepahzad é estudante de Horticultura e Biologia na Universidade Humboldt, em Berlin, Alemanha. Ela realizou uma pesquisa para o seu trabalho de conclusão de curso sobre a educação ambiental informal dentro de hortas urbanas comunitárias em São Paulo durante o verão 2015. Esse texto foi também inspirado por uma conversa amigável em Novembro 2015 com Marco Clausen, co­fundador da Prinzessinengärten, Berlin.



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