Fabiana (2018) — filme dirigido por Brunna Laboissière

#MargensdeBrasília: O transcinema de Fabiana

Revista Beira
Sep 20, 2018 · 6 min read

Por Bárbara Bergamaschi

A aposta curatorial do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro desse ano demonstra claramente um compromisso com a visibilidade das pessoas trans e do universo feminino. Pela primeira vez, desde 1965, diretoras são maioria no festival. As mulheres assinam a direção de cerca de 70% dos filmes selecionados para Mostra Competitiva. Mesmo os filmes dirigidos por homens abordam a temática do feminismo — com todos os possíveis tropeços e tensões que o lugar de fala desses diretores propicia. Diversos filmes como Espera de Cao Guimarães, Lembro mais dos corvos de Gustavo Vinagre e Bixa travesty de Kiko Goifman trazem à tona as ambiguidades, contradições e diferentes possibilidades de se aproximar dos corpos e vivências transexuais, sem propor manuais éticos e saídas fáceis. Nesta primeira análise crítica da Margem investigamos o documentário Fabiana, dirigido por Brunna Laboissière, exibido na Mostra Paralela — Festival dos Festivais no Cine Brasília no dia 17 de setembro. Acreditamos ser possível vislumbrar nele os debates que nos atravessaram ao longo desses dias e que se desdobram nos demais filmes do festival.


À margem de uma rodovia, abaixo de toneladas de uma carroceria suspensa, vemos o corpo franzino de uma mulher. Ela veste um vestido estampado, sandália de salto com os dedos de fora, seu cabelo longo, liso e preto está preso por uma presilha de strass. Dobrada sob a maquinaria do imponente caminhão, seu rosto é grave, concentrado. Com as mãos de unhas feitas ela pressiona em gestos repetitivos uma válvula no caminhão. Reclama e num muxoxo repete frustrada: “Vai ter que trocar o filtro”. Recomeça o gesto, como se praticando procedimentos de reanimação respiratória nas engrenagens, um movimento quase erótico entre humano e máquina. Mulher e caminhão se embrenham, diluindo as fronteiras que delimitam os corpos orgânicos e técnicos.

Fabiana não se limita a um território ou veículo, transita pelos elementos e diferentes meios de transporte. Anda de barco mesmo sem saber nadar, tem fascínio por aviões — adjetivo que utiliza como cantada para seduzir uma de suas amantes. Olha para os fogos de artifício como quem compartilha com eles um devir transitório de beleza fugaz. Em seu rosto vemos os traços de origem indígena e nordestina, sua pele curtida reflete o sol da estrada. Fabiana é também paisagem. Nela funda-se uma relação especular com sua interioridade. Ela nos conta do episódio da morte do pai em voz over, enquanto a noite cai na estrada. No horizonte vemos o luto dos enlaces, os afetos crepusculares. As paisagens que vemos são diferentes faces de Fabiana que nos fitam, uma relação dialógica que se funda entre imagem, personagem e espectador.

O encontro entre as duas mulheres, a diretora goiana, Brunna Laboissière e sua conterrânea, a caminhoneira Fabiana, se dá de forma sutil e gradual. Laboissière acompanha a motorista no banco do carona, com apenas uma câmera e um tripé na mão. A estética, os enquadramentos em planos fixos, e a fotografia tremida refletem o baixo orçamento, bem como a marginalidade e a precariedade daqueles que vivem suas vidas na estrada. Um filme que transita também entre os gêneros cinematográficos do road movie e do cinema direto de observação, mas sem abrir mão da encenação: transcinema. A história de Fabiana nos é apresentada sem uma cronologia linear. Sem pedagogia ou didatismo jornalístico, o arco narrativo se constrói de forma orgânica à medida que a relação das duas vai se fortalecendo. Como nas culturas orais populares, Fabiana é uma história que se funda no encontro, no acaso e no processo de escuta e troca com o outro.

Narrativa-deriva, fragmentária e fluida, se estrutura de forma lacunar em uma montagem que se tece como o fio da memória. Erigida através de livre associações, Fabiana vai aos poucos tomando forma para o espectador. É interessante observar que o filme termina como se inicia com Fabiana dormindo, como se a narrativa operasse na lógica do universo onírico da protagonista. Nas entrelinhas da fala, difícil às vezes de decifrar, embarcamos nos altos e baixos de sua consciência fluvial, percurso labiríntico que buscamos concatenar como um quebra-cabeças. O único momento em que a transição de gênero de Fabiana se torna evidente é já na metade do filme, quando a voz da diretora pergunta se o evento que ela narra ocorreu “antes ou depois da cirurgia” — dado importante porém não essencial. O filme retrata Fabiana acima de tudo como corpo desejante e se orienta pela bússola dos afetos dessa mulher lésbica.

A etimologia do termo trans permite dois sentidos, o primeiro seria o de “cruzar a fronteira” e o segundo a noção do “além de”. “Cruzar” e “estar além” são conceitos bastante diferentes: um aponta para uma mobilidade outro para a stastis, ou seja, um para a trajetória no espaço material e outro para a transcendência. O filme Fabiana e sua protagonista homônima abarcam, de certa forma, esses dois conceitos antitéticos e complementares, porém sem hostilidade e sem a mitologia do conflito intrínseco a eles. Fabiana é um filme que atravessa variadas topologias dos espaços e dos corpos, desterritorializando os afetos, reforçando o poder dos desvios, em especial em relação ao sistema heterocentrado.

Não se limitando ao locus da beira, permanentemente fronteiriça, há algo em Fabiana que escapa, nela pode-se sempre traçar uma linha de fuga. O desejo de Fabiana se move de forma paradoxal, em uma dupla-articulação entre o fixo e o nômade. Age por captura mágica, vivência imediata, se “agarrando” ao contingente, é multiplicidade pura e sem medida, irrupção do efêmero e potência da metamorfose. Porém, ao mesmo tempo é fluxo e parada. Ela conquista territórios temporários, porto seguros pontuais, ligados entre si em uma cartografia dos afetos como arquipélagos de ilhas de amor. Nesta relação erótica com o mundo Fabiana parece querer reivindicar, acima de tudo,uma alegria de viver e uma potência de vida — suas histórias vem sempre acompanhadas de um sorriso largo.

Por vezes, Fabiana parecer transitar sob o comportamento e performatividade herdados do mundo masculino machista, ainda latente. Ela se vangloria de suas diversas aventuras amorosas com seus amigos caminhoneiros homens, orgulhosa de sua longa lista de conquistas. Há uma curiosa mise-en-scène, arquitetada pela diretora, (com um auxílio do acaso) em que Fabiana conversa com dois homens, também caminhoneiros. Sentados os três de frente um para os outros, com o caminhão ao fundo, ela conta sua versão das conversas de alcova que circulam entre seus colegas curiosos. Revela a eles que “gosta da mesma fruta”, eles riem, incrédulos, e o terceiro pergunta: “como é gostar da fruta e ter o mesmo corpo da fruta?”, Fabiana prontamente responde: “é chique!” e todos riem.

A narrativa erótica de Fabiana passa também por uma auto-fabulação. Enquanto na ordem do discurso ela se constrói como corpo desejante, pulsante e vibrante, a todo instante em movimento, inquieto e insaciável, a realidade por vezes contradiz a imagem que desenha para si e para o outro. Fabiana é ciumenta, em uma cena a vemos brigando com sua namorada ao telefone por ser excessivamente “festeira”. Fala de forma contida sobre o filho que foi obrigada a se afastar por não ter sua transição de gênero aceita pela ex-mulher. O único momento em que chora é quando descobre que seu cachorrinho, Billie, desapareceu. Sofre os desenlaces afetivo em silêncio. Silêncios e contradições expressivas que se multiplicam ao longo do filme.

A personagem Priscila, namorada de Fabiana e também mulher trans, introduz a problemática da religião, uma outra contradição que enriquece as potências disruptivas do filme. Na rádio do caminhão ouvimos a todo instante músicas sertanejas e cânticos evangélicos. Priscila sabe cantá-los todos. Enquanto faz as unhas, uma manicure pergunta a ela: “Quem você acha que está agradando: Demônio ou Deus?”, ela responde calmamente: “Sinceramente não sei te responder”, enquanto a outra responde: “Não é possível agradar aos dois”. Priscila ao longo do filme fala de suas visões premonitórias, conta de seu desencontro com a morte, reza e dança com igual fervor, transita entre o sagrado e o profano e demonstra que é possível sim conciliar seu corpo e sua espiritualidade.

Para além de um libelo de visibilidade das vivências transsexuais — necessário e urgente em termos de representatividade no cinema e nas mídias — em Fabiana acompanhamos uma narrativa que abarca temas como a dissolução de limites entre o humano, a natureza e a técnica, e que também adentra temas da espiritualidade, da religião, e em última instância, da transcendência do corpo. Fabiana detém uma relação de porosidade e simultaneidade com o mundo, com as coisas, com os elementos e a natureza. Paul B. Preciado afirma que a “história da humanidade” poderia ser rebatizada como “história das tecnologias”, sendo o sexo e o gênero dispositivos inscritos em um sistema tecnológico complexo. Essa “história das tecnologias” demonstra que a “natureza humana” não é senão um efeito de negociação permanente das fronteiras entre humano e animal, corpo e máquina mas também entre órgão e plástico. A diretora e a personagem buscam não fixar o filme a uma temática trans mas, para além disso, contrassexual.

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