Foto: Francesca Woodman

Os olhos que tudo viam

Por Ana Luiza Albuquerque

- Ai, desculpa, Mônica! Foi o João que apertou a campainha — explicou risonha a mãe do menino, que carregava um sorriso sapeca e bochechas gordinhas.

João tinha apenas quatro anos. Seu mundo se resumia ao bairro de Ipanema, onde morava. Por mais que já tivesse cruzado outros lugares da cidade — na maioria das vezes no banco de trás do carro — ali era seu feudo. Aqueles quarteirões eram marcados por cheiros, barulhos, cores e personagens dos quais da maioria lembraria para sempre, mergulhado em nostalgia.

Domingo tinha cheiro de bolo de cenoura, feito pelo Paulo, marido da Mônica, sua vizinha de porta. Segunda cheirava ao perfume da Noêmia, velhinha do 302 que chegava da fisioterapia quando João saía para a natação. “Está virando um homenzinho, hein?”, ela repetia semana após semana. Terça era cheiro de peixe — dia de feira. Toldos listrados, sacolas no braços, vai e vem de pernas desconhecidas. Conversas flutuando, sol queimando a pele clara, frutas colorindo o ambiente. Quarta cheirava a sal, onda e mar. Era dia de escolinha de futebol de areia. Já a quinta-feira tinha o melhor cheiro do mundo: o do papai. Era a única noite da semana em que ele conseguia sair mais cedo do trabalho, a tempo de colocar o pequeno para dormir.

João era muito atento — tinha o olhar observador de criança que estranha o mundo vez após vez, para um dia desestranhar. Já havia estranhado os latidos do Tom; os beijos da Solange do 601, que molhavam as bochechas; as sardas da amiguinha do 401; a televisão do porteiro ligada no futebol; a moça do supermercado que empacotava tudo tão rápido e mecanicamente; as tranças da Milena, sua babá; a quentura do asfalto e o gelado do sorvete nos dias de verão; as escadas; os elevadores; as paredes e os tetos que sustentavam a redoma em que vivia.

As sextas-feiras tinham o cheiro da pipoca do Flávio, que ficava na pracinha. Também era ali que encontrava seu amigo imaginário. Na primeira vez que seus caminhos se cruzaram, não pode desviar o olhar e o fitou com seus grandes olhos azuis. O amigo estava sentado embaixo de uma grande árvore, se protegendo do sol, enquanto comia um pedaço de pão puro. Não tinha camisa e usava uma bermuda surrada. A pele negra desnuda causava estranhamento — era diferente da de João e de seus coleguinhas da escola. Se perguntou o que o garoto fazia ali sozinho. Ele estava perdido da família? Em que escola estudava? Será que também era seu vizinho? Queria tanto chamá-lo para brincar!

Até então, João não sabia que o amigo era imaginário, mas logo descobriu quando se aproximou para dar oi e foi interrompido. “Que que foi, filho? Vamos pra casa, vamos?”, a mamãe pediu, distraída, enquanto conversava com o papai pelo celular. João pediu que ela esperasse e até fez má-criação, sem sucesso. “Será que ela não viu o menino?”, se perguntou. Os dois foram se afastando, mas a cabeça de João foi ficando para trás. Olhos arregalados, boca aberta. O olhar só desviou quando dobraram a esquina. Chegando em casa, decidiu testar sua teoria. “Mamãe, sabe o garoto que estava na pracinha hoje?”, questionou. “Que garoto, João?”. Seu coração deu um pulo de felicidade. “Devo ser muito sortudo em ter um amigo imaginário!”, pensou.

Toda semana encontrava o amigo no mesmo horário e no mesmo lugar. Sempre esboçava um sorriso cúmplice, divertindo-se com o segredo que pensava carregar e que não queria que ninguém descobrisse. Não importava se passeava com a mamãe, vovó ou titia: ele tinha certeza que era o único que podia vê-lo. Será que o amigo sabia que era invisível?

Durante anos João ficou contente porque tinha olhos especiais — olhos que chegavam onde os outros não alcançavam. Olhos atentos que mapeavam o seu mundinho. Olhos que reconheciam, questionavam, estranhavam. Com o passar do tempo, João acabou perdendo os superpoderes. Ele não sabe, mas sua filhinha, a Isabela, fez um amiguinho novo na semana passada.

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