3%: uma visão brasileira sobre as distopias

Por Ana Cecília, Brenda Maranhão, Daniela Matos, Felipe Duarte e Paulino Sulz

(Alunos da disciplina de Estudos em Comunicação, ministrada pela professora Simone Rocha)

Você já ouviu falar em histórias do gênero Distopia? No geral, elas buscam mostrar uma sociedade em que as coisas deram errado: conflitos que se localizam no presente e podem se agravar, com descrições pouco otimistas sobre o futuro. O gênero nasceu na literatura do século XX, em livros como “Admirável Mundo Novo”, “1984” e “Laranja Mecânica”, e hoje em dia se popularizou no cinema e nas séries, como é o caso de 3%: a primeira série brasileira da Netflix.

Parte da não tão recente onda de histórias de Distopia, 3% traz para o catálogo da Netflix uma história carregada de brasilidade para o gênero que atualmente é composto pelas grandes produções internacionais. Apesar de 3% se aproximar muito de obras como Jogos Vorazes, consideradas hoje como grandes sucessos do cinema de Distopia, não é possível dizer que a série brasileira apenas usa a receita padrão do gênero. Afinal, para se fazer uma distopia brasileira em um contexto onde as referências são norte americanas, muita coisa muda.

Uma nova televisão brasileira?

Hoje em dia é difícil imaginar ligar a telinha e não encontrar traços da sociedade brasileira. O formato diário de telenovelas, que existe no Brasil desde 1963, ganhou popularidade ao se encaixar em nossa cultura por meio da linguagem do melodrama — estilo televisivo já muito reconhecido e especialmente forte no país. Atualmente, a telenovela continua dominando as grades de programação, mas não está sozinha: tornam-se frequentes as apostas em outros formatos como minisséries e filmes produzidos para a TV — os chamados Telefilmes — que trazem um novo estilo nas imagens e na forma de contar histórias.

Grandes produtoras de conteúdo, como a Netflix e emissoras de TV paga, estão investindo nesses outros estilos de dramaturgia. Nessas novas produções, há abordagens diferentes de gêneros mais comuns típicos da TV norte americana, com alguns elementos culturais emprestados de contextos de outros países. E, nesse momento, séries como 3% vêm para mostrar que esse tipo de inovação a partir de um gênero mais explorado nos EUA também é possível no Brasil.

Um contexto diferente

Em 3%, nos deparamos com um mundo pós-apocalíptico no qual a maior parte da população mora em um lugar miserável, decadente, com falta de água, energia, comida, entre outros recursos — como na maior parte das distopias. Ao completar 20 anos de idade, todo cidadão pode participar do Processo — uma seleção que oferece a única chance de conseguir uma vida digna. Mas somente uma porcentagem mínima dos candidatos são aprovados. Se você já leu ou assistiu Jogos Vorazes, provavelmente percebeu algo de semelhante.

Com o lançamento de 3% em novembro de 2016, muitos fãs do gênero relacionaram, de alguma forma, a história vivida por Michele com a da protagonista de Jogos Vorazes — Katniss Everdeen. Nas duas histórias, as protagonistas se veem prestes a enfrentar um desafio que pode tirá-las da situação de miséria na qual sempre viveram, em um mundo futurístico imerso em desigualdade social e corrupção. Seja nas telas do cinema ou no monitor do seu computador, as temáticas e ganchos de um roteiro de distopia presentes em 3% e Jogos Vorazes aparecem de forma muito semelhante.

Em Jogos Vorazes, o enredo se concentra em um futuro no qual, anualmente, um garoto e uma garota de cada um dos doze Distritos de Panem — uma nova versão da América do Norte — são selecionados para os Jogos Vorazes. Lá os jovens lutam até a morte em um programa televisionado para toda Panem, feito principalmente para o entretenimento da Capital — único lugar onde a riqueza e abundância predomina às custas da situação difícil de todos os demais distritos. Basicamente, a questão da desigualdade é mostrada através de uma espécie de competição, em que o ganhador pode usufruir de melhores condições de vida. Uma premissa muito próxima à da série 3%, na qual a busca por uma vida melhor por quem vive no continente no Maralto acontece por meio do Processo.

Se em Jogos Vorazes o início do filme e as primeiras páginas do livro que inspira a saga mostram a caminhada da protagonista até o local de sorteio dos escolhidos para os Jogos, em 3% a caminhada é de Michele para sua entrada no Processo. Apesar das semelhanças, o que vemos no roteiro da série 3% é a discussão de temáticas ainda não exploradas pelas produções do gênero no cinema estadunidense — como a meritocracia e o vestibular.

Em entrevista para a Uol, a atriz Bianca Comparato explicou um pouco mais sobre a inspiração vinda do público jovem brasileiro para a série:

A semelhança nos personagens

Além da protagonista Michele, interpretada por Bianca Comparato — um espelho da trajetória de Katniss em Jogos Vorazes, outros personagens da produção norte americana também podem ser vistos como recriações com uma “roupagem brasileira”. Um exemplo disso é o personagem Rafael: o clássico antagonista, que está na trama para comprometer a história dos mocinhos. O personagem de Rodolfo Valente é um obstáculo na jornada de nossos heróis, assim como em Jogos Vorazes Cato representa um vilão na história de Katniss.

A produção brasileira, no entanto, vai um pouco mais fundo com seus antagonistas, retratando nestas personagens consequências da meritocracia. Na trama, Rafael é o vilão que está disposto a fazer tudo para alcançar seus objetivos, mas, assim como Cato, é apenas mais uma vítima de um sistema opressor.

Rafael de 3% (à esquerda) e Cato de Jogos Vorazes (à direita).

Outros personagens emblemáticos e que reforçam as semelhanças estruturais de cada produção são os organizadores de cada processo: seja o Processo de 3% ou os próprios Jogos Vorazes. Ambos, Ezequiel (3%) e Seneca Crane (Jogos Vorazes), são personagens que servem como reflexo dos governos que representam.

Seneca Crane, organizador dos Jogos Vorazes.

Além disso, a recepção do público com 3% foi muito influenciada pela escolha do elenco. Atores como Bianca Comparato, João Miguel, Mel Fronckowiak e outros da série da Netflix já são figurinhas carimbadas do público brasileiro por suas atuações nas telenovelas. E, por isso, ao aparecerem em uma produção nos moldes de 3%, causaram estranheza no público brasileiro. A performance necessária para esse tipo de produção difere ao estilo melodramático, aquele em que esses atores estão acostumados a trabalhar, como em Avenida Brasil (2012) e O Canto da Sereia (2013).

Uma distopia com cara de Brasil

Existe um visual característico de distopia? Um dos desafios nos produtos audiovisuais do gênero é de mostrar suas características impressas na tela, mostrando o caráter de crítica do contexto social e político de uma sociedade.

Enquanto o filme de Jogos Vorazes — produção baseada nos livros de Suzanne Collins — fez uso de efeitos especiais, roupas futurísticas e um cenário degenerado, 3% inovou no visual trazendo elementos da TV e do cinema brasileiro para retratar seu roteiro original.

As diferenças estilísticas podem ser observadas a partir do próprio enredo das histórias. Apesar de abordarem críticas parecidas, como um processo de seleção para um lugar melhor e a dificuldade de ascensão das minorias, o filme e a série fazem isso a partir da perspectiva do contexto sociopolítico do país de origem.

Em Jogos Vorazes, há uma preocupação de localizar o filme dentre outros do gênero e, para que os filmes se tornem um produto consumido mundialmente, as escolhas de estilo expandem o cenário local para referências externas a essa cultura.

Assim como em outras distopias, existem críticas ao cenário americano. No entanto, há também referências a conflitos globais, como acontece em muitas produções de Hollywood. A cena acima, por exemplo, faz referência à Guerra do Iraque.

“Suzanne Collins já declarou ter se inspirado na Guerra do Iraque para as cenas do seu próprio conflito em A Esperança. A violência do combate ajudou a dar um tom realista à trama, enquanto os rebeldes foram inspirados e possuem correlação com as recentes revoluções no Oriente Médio, que derrubaram alguns governos autoritários presentes há mais de 30 anos.”

Revista Super Interessante

A paleta de cores dos filmes da saga Jogos Vorazes têm predominância da escala de cinza e cores mais pálidas, tanto nos cenários quanto no figurino das personagens. Essa escala de cor está muito presente no gênero distopia. As cores ajudam a tornar claro o ambiente de guerra e contribuem também para o processo de identificação de espectadores de diferentes lugares, já que a narrativa não se localiza em um país específico.

Apesar das diferenças de roteiro, a estética não é muito diferente nesses filmes, como é o caso da série Divergente.

3%, no entanto, trouxe investidas diferentes na construção dos cenários. O lugar mostrado no início da série, onde todos moram em situação precária, nos faz lembrar de comunidades periféricas do Brasil. Becos pequenos, longas escalas, paredes lotadas de grafites e sem acabamento são exemplos disso.

Como dá para perceber, a paleta de tons mais pálidos não se ausentou da produção de 3%, mas neste caso, ela está mais presente na arquitetura do cenário. As personagens carregam cores mais vivas, assim como as artes urbanas. Essa mudança aconteceu após as críticas recebidas pelo episódio piloto da série, em que nem a caracterização dos personagens, e muito menos as cores predominantes em cena, faziam alguma referência ao Brasil.

Apesar de 3% retratar o Brasil, seu consumo enquanto produto audiovisual foi, segundo a própria Netflix, maior em outros países, onde produções do gênero de distopia é mais comum. Colocar a produção brasileira lado a lado com superproduções do cinema acabou gerando comparações e questionamentos sobre a qualidade de 3% em relação filmes do mesmo gênero, como Jogos Vorazes. Por mais adversas que tenham sido as críticas, inegavelmente 3% é uma das primeiras distopias latinas feita de uma perspectiva não americana.

Inovações geralmente vêm acompanhadas de cautela e muito planejamento. Nesse sentido, para trazer um universo distópico a uma série brasileira, foi preciso fazer escolhas meticulosas no que diz respeito à composição cenográfica e à estética de 3%. Sim, é possível encontrar semelhanças com as distopias dos EUA — de fato, temos uma trama parecida, personagens equivalentes e conflitos similares. No entanto, para que 3% pudesse se inserir na Netflix como um produto nacional de tendência global, a escolha de seus elementos narrativos e visuais trouxe consigo certa brasilidade.

As consequências dessa inovação causaram estranheza no público brasileiro, mas um encanto no público estrangeiro. Se essa era a ideia dos produtores? Provavelmente não. Mas como bem sabemos, inovação não é sinônimo de previsibilidade. Dessa forma, será que para ganhar o coração dos brasileiros, 3% precisa se tornar “mais hollywoodiana” ou continuar conversando com a realidade do nosso país? Aguardaremos as próximas temporadas em busca de possíveis respostas…