A mágica da imagem na ampliação do universo ficcional de séries televisivas
Por Daiana Sigiliano
Antes do filme começar, gostaríamos de alertar aos pais quanto as representações gráficas das explosões nucleares e os efeitos devastadores. O impacto emocional das cenas podem ser perturbadoras e recomendamos que crianças novas não vejam. Em casas que jovens estejam assistindo, sugerimos que as famílias assistam juntas para que os pais possam lidar com as questões e discutir os assuntos do filme.

O texto acima é um alerta feito pelo ator John Cullum, que integra o elenco do longa metragem The Day After, e que aparece na tela da TV da casa da família Jennings da série estadunidense The Americans. Tanto o texto quanto o quadro fazem parte do nono episódio da quarta temporada que fez uma perturbadora aproximação entre o polêmico telefilme da década de 1980 e o universo ficcional da série. A sequência exibida no episódio se inicia sem qualquer contextualização, vemos apenas a família Jennings e o vizinho Stan Beeman (Noah Emmerich) e seu filho Mathew (Danny Flaherty) reunidos em torno do aparelho televisivo.
Enquanto ouvimos o áudio original do telefilme, a câmera mostra cada um dos personagens que estão na sala de estar, Stan, Mathew, Henry, Paige, Elizabeth e Philip. Posteriormente, a sequência mescla imagens do aparelho televisivo, que exibe as cenas The Day After, com a reação de outros personagens de The Americans, que também estão assistindo ao telefilme.

Sem nenhum diálogo a sequência chega ao fim e os créditos do longa metragem são exibidos. Na cena seguinte vemos Philip e Elizabeth no quarto. Elizabeth está pensativa e Philip pergunta se está tudo bem, ela responde que sim. Com medo de uma possível represália da URSS, Philip diz que acha melhor não reportar a KGB sobre a descoberta de William (Dylan Baker) — na série William descobre que os EUA estão produzindo, ,em laboratório, um vírus que liquefaz órgãos. Elizabeth discorda do marido, “Eles estão fazendo o veneno para nós, para nos destruir. Precisamos ser capazes de nos defender. Eles são pessoas que jogaram duas bombas atômicas”. Philip concorda e diz para a esposa continuar com a missão de aproximação de Young-Hee (Ruthie Ann Miles) — na trama Young-Hee é casada com um dos cientistas responsáveis pelo laboratório que produz o vírus.
Enquanto a cena ia ao ar os telespectadores da série se mobilizavam no Twitter em busca de informações sobre The Day After. A partir da hashtag #TheAmericans foram postados links para download do telefilme, legendas e trechos de cenas no YouTube. O público repercutia a correlação entre o longa metragem e o arco narrativo de William e também especulava se os desdobramentos de The Day After poderiam ser uma espécie de spoiler, deixado por Joe Weisberg e Joel Fields, sobre os próximos acontecimentos da trama.
Após a exibição do episódio, na Wiki dedicada ao programa, os telespectadores usaram a data de exibição do telefilme para ampliar a linha temporal da série e aprofundar a localização espaço-temporal dos personagens, já que as cenas de The Americans não são datadas. Também foram compartilhadas capturas de tela para facilitar a identificação dos trechos de The Day After que apareceram no aparelho televisivo dos personagens. O público discutia se as consequências do arco narrativo de William teriam algum diálogo com as catástrofes mostradas nas cenas do longa metragem.
Apesar da sequência não apresentar cartazes narrativos inseridos didaticamente para ajudar o público a entender o que está acontecendo, a inserção de The Day After no episódio se tornou a principal discussão nas redes sociais e nas plataformas colaborativas da trama. Nesse contexto, o detalhe imagético da sequência de The Americans não só reforçava o arco narrativo de William como também instigava os telespectadores a realizarem uma leitura atenta da trama, buscando novas informações e aprofundando o universo ficcional.
Há algo de novo no ar…
A ficção seriada contemporânea produzida nos Estados Unidos tem sido marcada por dois fatores: a complexificação de suas tramas (multiplicidade de arcos narrativos, a hibridação de gêneros e formatos e a construção de personagens com diversas camadas interpretativas) e a composição imagética. A complexificação estimula as habilidades cognitivas dos telespectadores na compreensão dos densos universos ficcionais que, para acompanhá-los, precisa, segundo Steven Johnson “mais do que lembrar. É preciso analisar”.
Já a composição imagética das séries contemporâneas propiciam, segundo o francês François Jost, um novo nível detalhamento da imagem. Nesse contexto, para compreender a história em sua totalidade o telespectador deverá analisar os pormenores das cenas, em que cada elemento contribui para a construção do universo ficcional.
Tal mudança na composição imagética foi impulsionada pelas tecnologias de conveniência e pela conversação em rede. A TV estrutura sua reprodução de modo a não depender da vontade do telespectador, ou seja, mesmo que ele desligue o aparelho televisivo, o fluxo permanece regular na linha do tempo. Porém, as tecnologias de conveniência introduziram um novo modo de se assistir às narrativas ficcionais seriadas. Recursos como gravadoras digitais de vídeo, serviços on demand, downloads ilegais e programação online permitiram que o público assistisse ao conteúdo quando, onde e quantas vezes quisesse.
A possibilidade de pausar, retroceder, ampliar e comparar a imagem propiciou a descoberta de detalhes mínimos das sequências. Como ressalta Jost, “Todos esses recursos destinados a decompor a imagem e compartilhá-la transformaram a recepção em termos de profundidade”. O autor afirma que esse novo nível de detalhes das cenas estabeleceu uma relação simbiótica entre os roteiristas das séries e o público. Em outras palavras, os roteiristas se sentem motivados pelo olhar atento dos telespectadores a minuciosidade da composição imagética e os telespectadores se sentem desafiados pelos roteiristas ao fazerem parte, mesmo que indiretamente, do ato criativo. Segundo Damon Lindelof, roteirista de Lost (2004–2010, ABC) e The Leftovers (2014–2017, HBO), os detalhes criam um vínculo incomum entre o público e os roteiristas, como uma espécie de piada interna.
Juntamente com outras questões relacionadas à construção do universo ficcional das séries contemporâneas, os detalhes imagéticos das tramas também estimulam o público a assistir o mesmo episódio várias vezes em busca de novas respostas para as lacunas informacionais deixadas propositalmente pelos roteiristas. Canais como HBO e Fox possuem estratégias de engajamento direcionadas especificamente para as reprises dos episódios, mobilizando fãs e roteiristas para comentarem os detalhes das sequências. A complexidade narrativa e imagética dos programas também interfere na redistribuição dos títulos como, por exemplo, na venda de DVDs.
Quanto à conversação em rede, os telespectadores dispõem de recursos que não integravam a experiência televisiva há 30 anos, tais como as redes sociais digitais e as plataformas colaborativas (fóruns, sites especializados, Wikis, etc.). Isso pode ser observado desde fenômenos recentes como, por exemplo, a social TV até nos fóruns de discussão, que tiveram um papel fundamental nas séries exibidas nos anos 90, tais como Twin Peaks (1990–1991, ABC) e The X-Files (1993–2002, Fox).
A conversação em rede forma uma espécie de repositório de informação sobre os universos ficcionais das tramas com guias minuciosos dos episódios, análises dos frames, divulgação de links para download ilegal, produção de memes, entre outros conteúdos. Dessa forma, o telespectador pode não só consultar estes espaços colaborativos para tirar as suas dúvidas sobre os episódios como também repercutir e ressignificar as histórias.
Além de ser incorporada nas ações de engajamento das emissoras, a conversação em rede também estreitou a relação entre os roteiristas e o público. Atualmente todos os canais da televisão dos Estados Unidos, abertos e pagos, contam com estratégias direcionadas para as redes sociais. As ações têm o objetivo de estimular o compartilhamento de conteúdos (comentários, vídeos, hiperlinks, meme, etc.) relacionados ao episódio que está no ar e a análise minuciosa do universo ficcional. Como, por exemplo, os tweets publicados pelo perfil no Twitter (@HBO) do canal pago HBO durante a exibição da minissérie Sharp Objects (2018- atual). À medida que as cenas vão ao ar, a página posta imagens destacando as palavras escritas nas paredes e nos objetos da casa da família Preaker. Os detalhes ajudam na compreensão do passado da protagonista, Camille Preaker (Amy Adams). Alguns canais, tais como AMC — Talking Dead (2011- atual) — e CBS — After Trek (2017- atual) — exibem aftershows ao vivo para repercutirem o buzz das redes sociais e os principais acontecimentos do episódio que acabou de ir ao ar.
A conversação em rede também possibilita que os roteiristas tenham acesso às impressões do público em tempo real. A primeira temporada de Bates Motel (2013–2017) teve seus arcos narrativos complementados no Twitter. Durante os episódios, a emissora paga estadunidense A&E promoveu na rede social um bate papo com Carlton Cuse, um dos criadores do programa. Além de responder às curiosidades e questionamentos dos telespectadores, Cuse explicava os principais arcos de Bates Motel, detalhando as consequências do transtorno de personalidade de Norman Bates (Freddie Highmore) e sua complexa relação do personagem com a mãe.
A composição imagética da série The Americans
Segundo François Jost, os detalhes presentes nas narrativas ficcionais seriadas podem revelar incoerências no âmbito do roteiro, possuir uma função narrativa ou ter função artística de percepção facultativa. Assim, falhas podem ser percebidas, detalhes podem colaborar na compreensão da narrativa e tudo isso pode propiciar uma experiência mais profunda e enriquecedora da história.
The Americans (2013–2018), produzida pela FX, é um exemplo no qual todos esses aspectos são claramente evidenciados. A trama se passa na década de 1980, durante a Guerra Fria, e é protagonizada pelo casal Philip Jennings (Matthew Rhys) e Elizabeth Jennings (Keri Russell), dois agentes soviéticos da KGB que se fazem passar por um casal americano no subúrbio de Washington. Para manter o disfarce, o casal tem dois filhos, Paige (Holly Taylor) e Henry (Keidrich Sellati), e é dono de uma agência de turismo.
Ao longo das seis temporadas da atração é possível observar como cada detalhe da composição imagética foi minuciosamente pensado por Joe Weisberg e Joel Fields, os criadores do programa. Os móveis da casa dos Jennings, os produtos usados pelos personagens, os modelos dos carros, tudo era sistematicamente discutido pelos telespectadores nas redes sociais e nas Wikis. Os detalhes não só complementavam a trama da FX, como também ampliavam o universo ficcional. Dessa forma, apesar de não ser fundamental para a compreensão da história, a composição imagética enriquecia a experiência televisiva do público.
Um dos principais exemplos deste detalhamento da composição imagética em The Americans é a correlação dos programas televisivos assistidos pelos personagens com os desdobramentos dos arcos narrativos dos episódios. Durante um painel realizado pelo The New York Times em abril deste ano, Joel Field afirmou que os programas que aparecem nas sequências tinham a função de contextualizar a história e reafirmar os arcos narrativos do episódio/temporada.
Em vários momentos de The Americans os personagens se reuniam em frente à TV para assistir reportagens, filmes, séries, entre outros conteúdos televisivos. Porém, raramente o nome da atração e o seu contexto eram explicados ao público. Nesse sentido, cabia ao telespectador descobrir qual atração apresentada no episódio e a sua correlação com o universo ficcional.

Exibido pelo canal ABC no dia 20 de novembro de 1983, o telefilme The Day After mostra as consequências da Guerra Fria. Após a invasão da URSS na Alemanha Ocidental, americanos e soviéticos desencadeiam uma guerra nuclear de proposições catastróficas. Segundo Tucker (2018), a exibição do telefilme gerou discussões sobre o impacto que as cenas causariam no público. Muitos patrocinadores optaram por retirar os seus anúncios dos intervalos comerciais da atração, pois não queriam que seus produtos estivessem vinculados ao cenário desolador e violento mostrado em The Day After. Tucker (2018) também afirma que a ABC foi pressionada pela Casa Branca para que o telefilme não fosse ao ar. Apesar das polêmicas, a emissora optou por exibir o longa metragem, que foi assistido por 100 milhões de telespectadores.
Amamos os detalhes das narrativas brasileiras?
No Brasil, o detalhamento da composição imagética das narrativas ficcionais seriadas ainda é pouco explorado pelos autores e pelas emissoras. Desenvolvido pelo Observatório da Qualidade no Audiovisual o projeto “A qualidade na ficção televisiva brasileira: debates, proposições e análise” analisou, até o momento, cerca de 50 programas, produzidos entre 2000 e 2016. As atrações foram divididas em quatro categorias, são elas: minisséries, séries episódicas, séries com ação transmídia e séries infantis. Apesar do objetivo central do projeto ser a análise dos parâmetros de qualidade dos programas, com base nestas reflexões, podemos ressaltar que a função artística de percepção facultativa é adotada com mais frequência pelos autores.
O recurso é usado, principalmente, em tramas da TV paga (HBO Brasil, GNT, etc.) e em atrações baseadas/inspiradas em obras literárias como, por exemplo, O Canto da Sereia (Rede Globo, 2013) e Capitu (Rede Globo, 2008). Nesse sentido, os detalhes da composição imagética fazem referência a elementos externos ao universo ficcional, mas não interferem nos desdobramentos narrativos. Entretanto, as emissoras não estimulam, através do engajamento nas redes sociais, a leitura atenta dos telespectadores.
Produzida pelo serviço de conteúdo on demand Netflix, a série Samantha! explora os detalhes da composição imagética para aflorar a nostalgia do público. Em vários momentos da trama é possível identificar alusões àcultura pop dos anos 80. Tais como os programas de auditório infantis, figuras populares do cenário musical, além de rumores da época como a faca escondida dentro do boneco Fofão. As intertextualidades presentes nas cenas da série também foram usadas pela Netflix nas ações de engajamento. O perfil fictício no Instagram da protagonista Samantha (Emanuelle Araújo/Duda Gonçalves) ressalta alguns detalhes que possam ter passado despercebidos pelos telespectadores. Dessa forma, os poucos exemplos de detalhamento da composição imagética na ficção seriada nacional nos dão pistas sobre como o modo de distribuição, o público alvo e as temáticas exploradas nas tramas podem influenciar na ampliação dos universos ficcionais.

