Uma segunda chance para a educação

GRUPO COMCULT UFMG
Nov 7 · 11 min read

Por Marcos Meigre (Doutorando membro do COMCULT/PPGCOM/UFMG)

Reprodução Globoplay

_ Ser professora tá no meu sangue. Dar aula é mais que ensinar. Aprendi muito também. Pra mim, é o melhor lugar do mundo. Quando eu tô com os meus alunos, eu me sinto viva. Sabe que eu sinto falta até do cheiro do giz? Mais que minha profissão, é minha alma. Se tiram a alma da gente, como é que faz pra ficar de pé?

_ E você se sente pronta pra voltar a dar aula? Mesmo depois de tudo o que aconteceu?

_ Sim, tô pronta.

A professora Lúcia (Débora Bloch) estava afastada das aulas desde que passou por um problema pessoal (não sabemos qual; mas, afinal, o suspense faz parte de toda boa narrativa, não é mesmo?). O diálogo acima é a abertura do primeiro episódio da série Segunda Chamada, nova produção da TV Globo. Enquanto ouvimos o depoimento da professora, somos apresentados a imagens de uma sala de aula vazia, na qual entra uma forte luz do sol que toma conta do espaço. Carteiras alinhadas, close nos pedaços de giz no quadro negro, janelas com vidros trincados, rachaduras no teto e nas paredes, materiais didáticos como pastas, apostilas e lapiseiras são os elementos cênicos que vemos enquanto a professora fala (mas não é vista). Lúcia está cheia de esperanças e vontade de retomar seu contato com a sala de aula, pois de lá retira a luz de sua vida. Para ela, escola é luz, é alma, é vida! Quando a professora declara estar pronta para retomar seus trabalhos, uma sirene escolar toca, indicando o começo da aula.

Primeira sequência de Segunda Chamada/Reprodução Globoplay

O discurso de Lúcia é motivador e aponta para uma ideia quase messiânica de educação, na qual o professor é visto como um salvador que se entrega de corpo e alma ao trabalho e à dedicação/relação com seus alunos. Mas é na interação entre o que ouvimos e o que vemos que escapa a grande sacada da série nesta sequência introdutória: enquanto Lúcia nos diz que a escola “é o melhor lugar do mundo”, o que as imagens nos revelam é um prédio com problemas estruturais — de vidros trincados a lâmpadas em falta e paredes com rachaduras. A idealização do papel da escola não se confirma naquilo que vemos e, de fato, para por aí qualquer chance de tornar sublime o espaço da educação trazido pela série. Os tons suaves, a trilha serena, a iluminação carregada no branco são logo substituídos quando toca o sinal da escola, como se tal chamado nos fizesse despertar do sonho da professora e nos levasse para a realidade dura, nua e crua daquilo que a trama debate: o contexto da escola pública.

A série Segunda Chamada estreou na faixa das 23 horas da TV Globo, às terças-feiras, e tem dado o que falar por sua proposta realista de representação da escola pública brasileira, com seus problemas de ordem física, mas também debatendo as relações tensas entre os alunos com as diferentes histórias de vida dos colegas, ligados a distintos papéis sociais, e as próprias histórias pessoais de professores atolados em serviço, com seus inúmeros problemas íntimos e dificuldades financeiras. Com cinco episódios levados ao ar (de um total de onze gravados e o sexto disponibilizado para assinantes Globoplay antes de ir para a TV), a trama já recebeu inúmeros elogios e se tornou uma nova aposta da Globo, que chegou a usar da produção para homenagear os professores. Com a boa repercussão, a emissora adiantou o calendário e confirmou que em 2020 a série terá nova temporada garantida na grade de programação. Por que falar de educação pública rendeu um bom gancho para a TV Globo? O que a emissora quer nos mostrar com esta série?

“Formar pra quê? Aqui na rua eu ganho mais que a senhora”

Quem já pisou numa escola pública (ou seja, a maior parte dos estudantes do Brasil), sabe muito bem que estes lugares estão repletos de problemas estruturais e é justamente com estas falhas que a série trabalha. A começar pelo cenário, uma escola abandonada em São Paulo, cujo prédio serviu de locação para a trama, que foi ponto-chave para tornar ainda mais efetiva a experiência de levar o público para dentro do universo narrativo. Nomeada de Escola Carolina Maria de Jesus, a homenagem à escritora brasileira, negra, pobre, moradora de periferia, combina-se com a própria realidade dos personagens, alunos também de periferia, muitos deles negros, que não tiveram a chance de aprender a ler e estudar quando mais novos e agora precisam se desdobrar entre pesadas jornadas de trabalho e os estudos, entre as imposições do patriarcalismo e os estudos, entre as durezas financeiras e os estudos.

Numa das sequências do primeiro episódio, inclusive, logo no início, a série aponta para os tensionamentos em jogo: Lúcia desce do ônibus e chama um dos alunos para voltar à escola. O rapaz negro estava conversando com alguém em um carro, que parte assim que a professora chama pelo nome do aluno: Vitor. Ele responde questionando “Professora, tá fazendo o quê aqui?”, ao que ela insiste para o jovem ir ao colégio porque falta pouco para ele se formar. No entanto, a recusa dele instaura um ponto forte, quando retruca dizendo “Formar pra quê? Aqui na rua eu ganho mais que a senhora”. O gesto seguinte da professora é levar a mão ao rosto do rapaz e insistir dizendo que o espera na escola. Diante do breve diálogo, a professora demonstra a determinação de não abandonar os alunos à própria sorte e, mais que isso, de persistir em encaminhá-los para os livros, para a educação formal que os permitiria pensar numa nova condição de vida. Entre a professora engajada, de um lado, e o aluno “no corre de seus trampos”, está a tensão da realidade, que se impõe sobre os dois e, cada um a seu modo, luta por sobrevivência e por aquilo em que acredita.

Além do cenário ultrarrealista, outros elementos vão fazendo a série se destacar no modo de abordagem do assunto. Na produção, por exemplo, a iluminação escura da maior parte das cenas não é só um modo de ambientar a escola de ensino noturno para adultos, mas também uma maneira de nos dizer através da (falta de) luz sobre os desafios que a educação tem enfrentado historicamente em nosso país: o da escuridão, sendo alvo de sucateamento, precariedade e ataques sucessivos ao longo dos anos. Na metáfora visual, está em jogo a luta por fazer sobreviver o saber em meio ao entorno de obscuridade e problemas que sempre cercaram a educação no país, com seus atrasos, com seus descompassos para lidar com os anseios dos alunos, com os conflitos entre professores e estudantes, com o peso de levar adiante um projeto de educação pouco valorizado pelos dirigentes políticos.

Os ambientes da escola de Segunda Chamada/ Reprodução Globoplay

E a extensão dos problemas vividos na escola é explicada na narrativa através das relações pessoais que alguns personagens apresentam: a professora Lúcia chega em casa e vai cuidar do marido doente, em cadeira de rodas; a professora Sônia tem um casamento infeliz, com um marido que não ajuda nas despesas nem mesmo com a criação dos filhos e o tempo todo liga para a esposa resolver as burocracias de casa. Exaustas das demandas difíceis do colégio, estas mulheres retornam a seus lares e lá se deparam com universos repletos de outros problemas, desdobrando-se entre muitas funções. As jornadas duplas, triplas, das professoras em muito se aproximam da própria condição das docentes de ensino público do Brasil, que precisam completar aulas entre uma escola e outra, um cargo e outro, para garantir um salário que minimamente pague as contas de casa.

Quando o aluno questiona a professora sobre a necessidade de se formar, alegando que na rua sua renda é maior que a dela, ele confronta tudo aquilo que o letramento representa na nossa sociedade e aponta para os desvios que, no contexto de nossa modernidade heterogênea, muitos encontram como saídas para melhorar de vida. É pelo caminho das brechas, conforme a série indicou, que muitos encontram saídas para si, para a própria vida. Em Segunda Chamada, no entanto, a dureza do que envolve pensar educação formal transforma o processo de escolarização em algo mais que simplesmente a relação escola-aluno-professor. Na série, a narrativa faz caber diferentes brechas, diferentes porções de singularidades de cada aluno, de cada professor, com seus imensos problemas pessoais, contextuais, estruturais, tocando-se uns nos outros pelos corredores da escola. A gama de indivíduos descolados dos benefícios da modernidade, marginalizados nas grandes cidades, concentram-se nos corredores da escola pública, à noite, na busca por sobreviver.

“Todo mundo que tá aqui já levou muito não na vida”

O que a televisão faz com o tema da educação nesta série é trazer para dentro da ficção um debate crescente na sociedade, levando em conta o papel da escola para a socialização dos sujeitos, o convívio com as diferenças, os embates entre desiguais e a possibilidade de harmonização dos conflitos. Quando Lúcia, a professora de português que gasta boa parte do tempo tentando apaziguar tensões na escola, começa uma aula explicando quem foi Carolina Maria de Jesus e lê um trecho da autora, a aula assume um papel não simplesmente didático, mas o rumo da sequência é outro. A trilha suave se combina com a fala de Lúcia, que começa uma espécie de convocatória aos alunos, literalmente uma segunda chamada para que agora se identifiquem não por seus nomes, mas sim pelos enfrentamentos que já passaram na vida, em situações aparentemente corriqueiras, porém carregadas de preconceitos e abusos:

Quem aqui já foi seguido de perto numa loja por um segurança?”, “E quem já levou dura da polícia sem motivo nenhum?”, “E quem é que já se sentiu constrangido por entrar num elevador social?”, “E quem já foi agredida só por entrar num banheiro?”.

A cada chamado da professora, os alunos vão levantando a mão e indicando quais problemas já passaram. Até que Lúcia conclui dizendo que as lutas de todos, lá fora da escola, já são muito pesadas e “Aqui dentro dessa escola, todo mundo veste a mesma camisa”, numa tentativa de controlar brigas e desavenças entre os colegas de turma e indicar que “Essa escola pode ser a nossa segunda chance, gente”, para fugir dos embates que, do lado de fora da escola, já são todos obrigados a enfrentar diariamente. Do didatismo que uma aula de português envolveria, a professora transforma a cena num debate profundo sobre moral e ética, valores sociais e respeito à diversidade. A sala de aula para a qual ela fala é, de fato, uma representação bastante ampla desta diversidade: negros, uma idosa, uma transexual, dentre outros, estão presentes àquela aula. Ali, uma gama de sujeitos carregados de “nãos” da vida, rejeitados pelo sistema, marginalizados com suas histórias pessoais. Ao aproximar distintas dores, a professora humaniza as relações e tenta unificar o lugar de luta, trazendo a sala de aula como personagem que congrega diferenças e faz caber os desiguais em nome da educação. Juntos, superando preconceitos, os alunos devem mirar o futuro, o que está por vir, e olhar para frente, neste caso, é se deparar — literalmente — com o quadro-negro, com as letras, com a segunda chance que a educação lhes quer dar.

A professora Lúcia e seus alunos, em Segunda Chamada/Reprodução Globoplay

E a organização narrativa da série também não deixa a desejar quando abre leques para inúmeros debates, jogando luz sobre os problemas da mãe solteira que precisa levar o bebê para a aula, do rapaz que desde cedo está trabalhando duro e usa drogas para se manter acordado, da transexual que se vê ameaçada por todos os lados, da idosa negra que se sente solitária em meio à turma e é pressionada pelo marido a deixar a escola, pelos embates religiosos dentro do ambiente escolar… O espaço da sala de aula é nesta série significativo de como experimentamos os conflitos sociais, querendo apresentar não só a realidade capenga da educação pública, mas principalmente como esta realidade carrega consigo um pano de fundo de histórias humanas desviantes, de quem parece não caber nos padrões sociais, de quem só tem a noite como chance de ver alguma luz para a própria vida. Segunda Chamada parece ser a própria representação de um Brasil complexo, tumultuado, com inúmeros defeitos e muitas tentativas de se fazer acertar.

Segunda Chamada já caiu nas graças do público, da crítica e da própria emissora. Com a boa repercussão e a audiência crescente, a série sai vitoriosa antes mesmo de chegar à metade de sua exibição. Vista como uma sucessora de peso para o sucesso que Sob Pressão produziu para a faixa nobre do canal, a nova série da TV Globo ainda vai levantar muitos debates ao longo de sua exibição, justamente porque nos convoca a falar de nós mesmos, nos coloca diante do espelho cruel de nossas realidades trincadas e nos obriga a ver quem somos — com as multiplicidades de jeitos, de dores, de lutas, tensionando-se por sobrevivência.

Segunda Chamada é mesmo um verdadeiro chamado. Mais que isso: um clamor em alto e bom som (e por que não dizer, em alta e boa imagem!) para o que está sendo feito da educação no país, dos caminhos nebulosos vividos na pele por comunidades escolares de periferias. Ouvir esse grito, essa sirene que a ficção ecoa de maneira tão potente, nos convida a nos colocarmos prontos para, de fato, enxergar a educação e suas mazelas, aliadas às mazelas estruturais de uma sociedade que não enxerga como deve seus graves problemas. A série, em alguma medida, quer nos despertar para olhar o real, questioná-lo e, mais que isso, mudá-lo. Estarmos prontos, assim como a professora Lúcia se sentiu pronta para recomeçar seus trabalhos em meio a tantas dificuldades e não imaginar o espaço da escola pública como uma idealização que desaparece ao toque de uma sirene escolar…

Bem-Te-Vi

Revista eletrônica destinada ao universo televisual e suas relações com a história cultural latino-americana. A Bem-Te-Vi é uma ação de ensino, pesquisa e extensão desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa em Comunicação e Cultura em Televisualidades/COMCULT, vinculado ao PPGCOM/UFMG

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    Grupo de Pesquisa Comunicação e Cultura em Televisualidades, vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG. grupocomcultufmg@gmail.com

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