Projeto social busca romper com ciclo de violência doméstica

Índices de violência de gênero aumentam durante a pandemia e autonomia feminina torna-se uma vítima silenciosa

Gabriela Brito
Apr 17 · 7 min read
Foto: Nino Carè/Pixabay

Em todo o mundo, dados demonstram que mulheres e meninas estão enfrentando um aumento nos índices de violência de gênero durante a pandemia. O que se observa é que, com as instituições funcionando de modo parcial e com o fechamento de escolas e espaços culturais, as mulheres vítimas de violência doméstica não só ficaram sem espaços de refúgio, como também foram impactadas pela crise econômica, de modo a mantê-las em situação de dependência financeira de seus agressores.

Na América Latina, o relatório Panorama Social da América Latina 2020 mostra que a pandemia elevou os índices de pobreza e pobreza extrema no ano passado. Segundo a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), responsável pelo relatório, a taxa de pobreza extrema atingiu 12,5% da população e a de pobreza 33,7%, chegando a um total de 209 milhões de pessoas pobres.

Quando se trata da realidade feminina, pode-se afirmar que a situação é mais difícil. Foram 23 milhões de mulheres adicionadas à pobreza, que chegou a um total de 118 milhões. Só no Brasil, onde a recessão encontra-se como uma das piores no mundo, 8,5 milhões de mulheres deixaram a força de trabalho no terceiro trimestre de 2020, na comparação com o mesmo período do ano anterior. Os dados são da Pesquisa Nacional por Domicílios (Pnad Contínua), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Em entrevista à agência de notícias Efe, a diretora regional para a América Latina e o Caribe da ONU Mulheres, María-Noel Vaeza, afirmou que a pandemia causou um retrocesso de 10 anos na participação feminina no mercado de trabalho e fez com as mulheres assumissem grande parte do trabalho adicional não remunerado em casa, o que corroborou para o aumento dos níveis de violência de gênero. Não coincidentemente, em 2020 foram registradas mais de 105 mil denúncias de violência contra a mulher no Brasil.

Considerando que a dependência financeira é um dos fatores que impedem que mulheres saiam do ciclo de violência de gênero, algumas entidades não governamentais seguem na luta para romper com essa realidade e buscam proporcionar autonomia e dignidade para mulheres em situação de vulnerabilidade. É o caso do projeto Maria Vamos Juntas, um coletivo de mulheres que atuam no combate à violência doméstica, através da realização de ofícios e de assistências jurídicas, psicológicas e assistenciais. Leia abaixo uma entrevista com a idealizadora do projeto, a bacharel em direito Yngrid Pinto:

Yngrid Pinto, idealizadora do Maria Vamos Juntas. Foto: Acervo pessoal

O Maria Vamos Juntas é um coletivo de mulheres que trabalham no combate à violência doméstica e ao feminicídio. Quais fatores motivaram a idealização desse projeto?

Yngrid Pinto: Em 2018, eu era gerente de uma UBS (Unidade Básica de Saúde) na Serra e percebi que os servidores não conseguiam identificar os casos de violência doméstica que chegavam na unidade. Isso porque as mulheres, às vezes, iam aferir a pressão ou realizar uma consulta, mas tinham braços roxos ou marcas nos pulsos. Então, eu percebi essa dificuldade. Nas UBSs, o Mês da Mulher é sempre voltado para ações voltadas para o público feminino. Normalmente, a unidade é enfeitada e aumentam as consultas de ginecologia. Mas eu comecei a pesquisar e quis fazer algo diferente. Queria fazer algo que, de fato, mudasse a vida dessas mulheres com políticas públicas estruturais. Pesquisando, descobri que a Serra é o único município com uma secretaria voltada especificamente para mulheres, mas ela atuava de forma muito tímida. Digo isso porque, quando fomos às ruas pesquisar, nós perguntamos às mulheres se elas sabiam que existia uma delegacia na Serra específica contra violência doméstica e mais de 90% respondeu que não. Pesquisando sobre delegacias, pontos de apoio e onde mulheres podem procurar ajuda, nós descobrimos que em 2017 a Delegacia da Mulher, que antes funcionava em Laranjeiras, foi pro pátio de vistoria do Detran, em Jardim Carapina, um bairro que apresenta pouca segurança e é deserto. Então quem não conhece o bairro não sabe nem que há um pátio do Detran, quem dirá uma delegacia da mulher. As condições de asfalto e calçadas são péssimas. Por isso, através de um ofício, eu peço a calçada cidadã, peço placas informando e pontos de ônibus mais próximos. Além disso, só tem um ônibus que vai até a Delegacia da Mulher. Eu fiz essas solicitações de melhorias e comecei esse movimento de mudar a delegacia de local e, junto disso, nós começamos a perceber que era necessário ampliar essa rede de apoio às mulheres. Eu sou formada em direito, tenho amigas advogadas, psicólogas, empresárias, professoras e elas vieram nessa luta comigo, de se colocar à disposição voluntariamente. Assim, fomos motivadas a criar o coletivo, para trabalhar de forma mais efetiva e promover auxílio jurídico, psicológico e assistencial para essas mulheres.

Atualmente, quais são as principais ações?

Yngrid Pinto: Uma das coisas que eu fiz foi começar a idealizar um aplicativo em combate à violência doméstica. Inclusive, nós fizemos esse aplicativo como ‘mínimo produto viável’ [versão mais simples de um produto que pode ser lançado com uma quantidade mínima de esforço e desenvolvimento] e agora a gente participa de editais para monetizar o aplicativo e colocá-lo para rodar. Outra ação é quanto à pobreza menstrual. Pesquisando, descobrimos que 23% das jovens entre 15 e 17 não possui acesso à higiene básica, o que afeta a qualidade escolar e profissional. Durante a pandemia, esse quadro se agravou bastante. Por isso nós fizemos parcerias com farmácias e supermercados para promover essas ações e alertar a população sobre esse assunto que é tão importante e afeta a saúde da mulher. Nós arrecadamos absorventes e tentamos distribuir, principalmente nas regiões de vulnerabilidade social e na zona rural serrana, onde grande parte das mulheres não têm acesso à saúde básica. Diante disso, também fizemos um ofício para a Assembleia Legislativa (Ales) como forma de ementa para adicionarmos os absorventes como item de cesta básica com alíquota zero de ICMs, que reduz 25% do imposto agregado, aumentando o acesso das mulheres de baixa renda. Além disso, nesse período de pandemia, a gente viu o aumento da subnotificação. Com as mulheres em casa, não é porque não houve solicitação de medidas protetivas e denúncias que as mulheres não estavam sendo agredidas, e sim que elas não estavam conseguindo buscar ajuda.

Durante a entrevista, Yngrid destacou que os números de agressão contra mulher e feminicídio no município da Serra são altos e não há, atualmente, qualquer tipo de dispositivo que auxilie na denúncia, como o chamado botão do pânico — por isso a idealização do aplicativo. Ela nos enviou alguns dados da relação entre pedidos de medidas protetivas requeridos e deferidos, de 2016 a 2020. Arte: Gabriela Brito

Dentre as ações do coletivo, estão a distribuição de kits de higiene às mulheres em situação de vulnerabilidade. Em um contexto de pobreza menstrual, é possível afirmar que a dificuldade econômica é um dos fatores que mantêm a mulher no ciclo de violência de gênero?

Yngrid Pinto: Sim, e, sobretudo, é preciso entender o motivo disso. É válido compreender a divisão desigual entre homens e mulheres no ambiente doméstico. Quando se analisa a figura masculina, a gente percebe uma imposição social de que ele deve manter o lar financeiramente. Isso é cultural. Então, para a gente trabalhar a problemática da violência que é tão importante, é preciso trabalhar também a autonomia financeira da mulher e o empoderamento feminino como uma ferramenta para o rompimento desse ciclo. Por isso, nós damos esse apoio jurídico, psicológico e de assistência social para essa mulher, mas também começamos a trabalhar a arrecadação de absorventes, trabalhando a pobreza menstrual. Também buscamos trabalhar no Maria Vamos Juntas o empoderamento da mulher e direcioná-la ao mercado de trabalho.

Durante a pandemia de Covid-19, dados mostram que os casos de denúncia de violência doméstica aumentaram em todo o mundo. Vocês perceberam que houve um aumento na demanda de ajuda financeira e apoio psicológico para essas mulheres em situação de vulnerabilidade?

Yngrid Pinto: Houve sim, como também houve a demanda por alimentação. Inclusive, com a pandemia, fizemos a entrega de algumas cestas básicas. O objetivo do nosso projeto não é esse, mas com a pandemia, entendemos a dificuldade dessas mulheres e fizemos lives solidárias para arrecadar alimentos. Além disso, o Maria Vamos juntas fez uma série de movimentos quando entramos nessa crise sanitária. Oficiamos a Secretaria da Mulher para que colocasse nas unidades de saúde um banner com o local onde buscar ajuda e os telefones para contato, pois também é preciso levar informação. Também fizemos um cartão digital, a ser enviado via WhatsApp, que dava acesso diretamente no link, pois muitas mulheres possuem dificuldade com a internet e não conseguiam acessar os portais oficiais da Polícia Civil para fazer um boletim on-line.

Por fim, como o público pode apoiar o projeto social?

Yngrid Pinto: Tem várias formas. É possível divulgar nosso trabalho nas redes sociais ou se tornar um voluntário. Também temos um PicPay (@MariaVamosJuntas), que é onde nós arrecadamos doações para realizar as ações, pois nem sempre compensa a logística para pessoas de outros municípios colaborarem de forma presencial, então a gente utiliza o dinheiro e presta conta. Ações de arrecadações através das redes sociais também é uma forma. A gente ainda não saiu dessa crise sanitária, então tem muitas mulheres precisando de ajuda neste momento.

Arte: Gabriela Brito

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Graduanda em jornalismo aficionada por estudos de gênero. Colunista na Revista Brado.

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