Escrevendo para se salvar de si mesmo

A Literatura pode ser nossa boia salva-vidas em meio ao oceano agitado de nossas inseguranças.

Enquanto, para uns, escrever se resume a vender livros, para outros “a escrita salva”, como disse Celina uma vez e isso me marcou muito. E é o que me inspira a escrever esse texto.

Desde criança, eu sentia uma vontade absurda de abstrair o lugar em que eu vivia. A verdade é que eu não morava numa cidade lá muito emocionante, mas até que era pacata e charmosa: Parnaíba; uma cidade no litoral do Piauí. Lá, eu passei uma parte da infância e quase toda a adolescência (na verdade, nasci no Rio e me mudei para o Piauí depois).

Naquela cidade parada, mas bem tranquila e aconchegante, foi onde fiz amigos, herdei um tanto da cultura e, em suma, até que tive uma infância feliz.

Mas era muito difícil eu me sentir encaixada àquele lugar. Enquanto uma imensa maioria de garotas da minha idade resumia sua vida em ir para um show de forró aos finais de semana, alisar o cabelo e azarar uns boys, lá estava eu: uma nerd, balofinha, com livros de Harry Potter grudados a um lado do corpo na hora do recreio (e, por vezes, carregando umas revistas da Capricho, porque ninguém é de ferro).

Eu sempre transpareci muito “foda-se o que os outros pensam”, embora no meu interior eu estivesse ligando HORRORES para o que os outros pensavam, sim — dica: até hoje sou um pouco assim.

Eu não sei se era uma síndrome de ser “diferentona”, antes mesmo de essa expressão existir. Mas é que eu não conseguia me misturar. E parecia que as únicas três amigas com que me dei bem àquela época também eram assim — elas eram diferentes que nem eu, sabe?

A gente se sentia tão alienígena naquele ambiente de adolescentes doidas para sair com os carinhas bonitos da escola, quando minhas amigas e eu só ligávamos para o próximo filme da saga Harry Potter que iria sair no cinema.

E, sabe, eu as conheci através de Harry Potter (perceba que eu já mencionei esse nome umas três vezes até o momento nesse texto):

Eu conheci a Rafa por um livro de HP que ela me emprestou. Ela me emprestava todos os livros, mesmo que eu demorasse um tempinho considerável para devolver. Ah, e era aquela época em que a gente não tinha smartphones para nos distrair e conseguíamos terminar livros que queríamos ler, sabe?

Depois, a Erika eu conheci ela me ajudando a fazer origami numa aula de Artes ou Geometria — falhou a memória agora. Mas ficamos amigas, justamente, porque começamos a falar de HP com Rafa e, assim, ficamos as três “maníacas por HP” muito amigas.

[ALERTA PARA UM DETALHE NÃO TÃO CONVENIENTE DE NOSSO PASSADO: tínhamos um flogão que se chamava “maníacasporhp”]

A Raíssa chegou depois, lá pela altura do Ensino Médio. Mas falava com ela ocasionalmente sobre HP também.

Sabe um modo muito sereno de conquistar o meu afeto? Falar que gosta das coisas que eu gosto. Narcisístico, eu sei. Mas é muito difícil resistir a isto.

E por quê eu tô contando isso tudo? Porque se não fosse a Literatura, talvez eu não tivesse conhecido as minhas melhores amigas de infância. Conhecer de conhecer mesmo; chegar a fundo na alma das pessoas e oferecer um ombro para dizer: amigo, estou aqui. #aquelamúsicadetoystory

Além disso, eu também não sei o que seria dos meus ataques de ansiedade, que eu já tinha na infância em menor escala e não sabia bem como administrar. A escrita e a leitura conseguiam funcionar como um verdadeiro bálsamo para a minha tendência em se preocupar demais com o futuro; funcionavam como verdadeiras equalizadoras dos meus sentimentos negativos de depreciação — eu tenho uma tendência desgraçada a achar que sou uma bosta, às vezes.

Então, eu também escrevia umas centenas de diários. E projetos de livros. E isso me consolava o âmago. Me dava um abraço na alma que, às vezes, ninguém conseguiria dar.

A Literatura funcionava como uma boia salva-vidas pra mim. Quando eu estava me afogando em solidão e precisava de uma necessidade de pertencimento, lá estava ela para me auxiliar nesse sentido — trazendo as pessoas certas e com quem eu simpatizaria no meu convívio.

Não sei qual a relação de vocês com a escrita. Mas como já parafraseado de uma grande escritora no começo desse texto, só sei que a Literatura me salvou um zilhão de vezes. E me tirou do vazio. Sou muito grata por isso.


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