Ê Cruviana!

Em um momento decisivo para a Amazônia brasileira, os ventos sopram para que atualizemos saberes e nos manifestemos fazendo da arte um gesto revolucionário.

Obra de Jaider Esbell, artista vencedor do prêmio Pipa Online de 2016.

Por Diane Lima

Quando eu era pequena em Mundo Novo, cidade onde nasci, lembro das diversas vezes que andávamos na rua debaixo do céu estrelado nas noites geladas típicas de inverno de uma cidade do sertão da Bahia.

Estávamos sempre acompanhadas da minha avó Dag e da sua fé, que lideravam o comboio de mulheres e crianças formado por minha irmã e eu, além da minha tia, primas e de mais quem se agregava rumo a mesma direção. Os motivos das andanças eram a ida ou o retorno da igreja, das festas no mercado (onde acontece a feira dia de sábado), das comemorações a São Pedro na pecuária ou alguma outra visita, diligência para levar recados, festejos ou algo parecido.

“ êêh cruviana!”

era a expressão que vovó Dag e minha bisavó Catarina diziam todas as vezes que um vento gelado nos cortava, fosse nessas caminhadas ou mesmo quando ele assobiava pela janela levantando poeira pela rua do Curral onde vovó Dag mora até hoje e onde é a casa da minha bisa, que veio a falecer ano passado com 103 anos de idade.

Aprendi então o que era a "Cruviana" através do que sentia, de como as relações eram estabelecidas pela autoridade das minhas mais velhas e do respeito que se instaurava sempre com um ar solene àquela força da natureza que nos interpelava. Este respeito era constante e nos guiava: quando chovia, trovejava ou relampejava cobríamos os espelhos e nos recolhíamos. Com a queda de energia, sentávamos à mesa ao redor de velas em quase total silêncio. Era como se tivéssemos que ouvir e escutar o fundamento principal da vida: nunca desafiar a natureza. Para essas mulheres nascidas na zona rural, entre as roças, povoados e vilarejos, e da qual sou a quinta geração, os ventos podiam trazer notícias boas como anunciar tempos de chuva para abençoar as plantações mas, também, servir de alerta para possíveis catástrofes. Entre elas, deslizes de terra, pedra e lama que escorriam dos barrancos, e atingiram algumas vezes a morada da minha bisa.

Camiseta pintada pelo artista Jaider Esbell.

Apesar de carregar comigo a expressão e tudo o que ela significa, nunca havia visto esse dizer por outros lugares que passei. Até que um dia desses o artista Jaider Esbell, índio Macuxi nascido em Normandia, em Roraima, e que nesse mês circula com a exposição Era Uma Vez Amazônia, postou essa imagem no Facebook, rede social na qual o acompanho.

Assim que bati os olhos, misto de espanto e surpresa me atravessou. Soprando as minhas memórias a um tempo remoto, a pintura me conectou diretamente com meu corpo de criança e com aquela sensação de aprendizado que o vento tomava conta e me trazia.

Na legenda da foto ele dizia:

A entidade dos ventos que veste de magia o lavrado é a Cruviana. Uma mulher de beleza paranormal que faz o Makuxi ficar esperto, ou, estando sujeito ao seu sussurro faz sofrer de uma estonteante paixão aloucurada. Senhora dos ventos, vem mais cedo esse ano, por favor.

Nem preciso falar da minha felicidade ao confirmar esse aprendizado e enunciá-lo dividindo a sua origem indígena com todo mundo aqui de casa. Nas reflexões que este encontro estético me trouxe, tive mais uma vez uma prova concreta do que é essa memória do corpo e de como, apesar de todas os distanciamentos espaço-temporais com a raíz do conhecimento, somos capazes de manter em nós valores muito caros, bem como, seus fundamentos.

Nesse sentido, o que esse testemunho autobiográfico ou conto aparentemente ingênuo é capaz de nos revelar — e ingênuo aos olhos de quem assim o vê pela discriminação a uma forma de produzir conhecimento realizada a partir do reclame a experiência oral — é como as práticas artísticas carregam a competência de atualizar saberes ancestrais presentes nos atos mais simples do nosso cotidiano. Independente do que é considerado nobreza matérica do formalismo da arte ocidental, potente é a capacidade de expressão e de comunicação que através do uso da linguagem produz sentido em ato, nos afetando ao pôr em circulação valores como esses muitas vezes adormecidos.

E é essa competência estésica das experiências estéticas, essa sua possibilidade imanente de fazer o outro sentir, de criar fraturas no nosso automatizado cotidiano e de nos trazer esperança já que nos abre a uma possibilidade de futuro, que nos parece fundamental instaurar como força revolucionária em tempos devastadores em nosso país.

Performance de Carlos Martiel com colaboração de Michael Oliveira Baré (Anajé) e fotografia de Denise Adams.

Em um momento onde povos indígenas, ambientalistas e movimentos sociais seguem mobilizados para chamar a atenção do mundo contra o que se configura como uma tragédia anunciada à floresta Amazônica e a sua biodiversidade, as manifestações nos oferecem não somente a possibilidade de representar e publicizar, mas sobretudo, de nos conectar a um estado de natureza, em que a arte não se separa da vida.

Desafio de muitas e muitos de nós, essa busca ancestral tem feito com que, através das ações que semeamos e dos elementos plásticos que animamos, nossos sangues se misturem e nossos olhos se cruzem, assim como se deu esse segundo encontro com a performance Lamento Kayapó do artista cubano Carlos Martiel, apresentada semana retrasada na Despina — Largo das Artes, no Rio de Janeiro.

Em residência como parte do projeto Arte e Ativismo na América Latina, projeto da Despina realizado em parceria com a organização Prince Claus Fund, o artista que também participou da 57ª Bienal de Veneza discute em sua intervenção a violência que sofre os povos indígenas na batalha pela demarcação do território e preservação da nossa cultura, enfatizando a luta do povo Kayapó que vive entre o Mato Grosso e o Pará.

Foto: Denise Adams.

Uma luta que diz respeito a toda humanidade e está comprometida para que não percamos as poucas memórias que nos restam daquilo que nos conecta com a natureza, força que unindo o céu e o chão, começa a mover as suas águas gerando catástrofes em todos os cantos do planeta. Como um alerta da sua soberania, revira a Terra, enterra corpos, soterra os continentes, denunciando também quais são as populações que sofrem com a ação, como nos diz Davi Kopenaw, do "povo da mercadoria", por estarem na eminência primeira do seu risco.

Fazendo da tinta esse sangue humano derramado em nome do poder, Martiel convida Anajé, do povo Arawak, que pinta o seu corpo nos padrões usados pelos caciques Kayapó, transformando a ação em um ato coletivo que convoca a diáspora africana e os diversos povos indígenas, para a causa maior que nos une: a luta pela sobrevivência.

Martiel e Anajé na foto da Denise Adams.

Ontem os povos Guarani fizeram 24 horas ininterruptas cantando e dançando na avenida Paulista em São Paulo para pedir a revogação da Portaria 683 do Ministério da Justiça e a devolução da Terra Indígena do Jaraguá. Gritando o Jaraguá é Guarani, a Comissão Guarani Yvyrupa — CGY fez um agradecimento pelas redes sociais: "agradecemos a todos os nossos apoiadores não indígenas que nos mostraram que não tem o coração de pedra, que sabem ouvir a força de nossas rezas e de nossas palavras verdadeiras recebidas das divindades. Precisaremos cada vez mais que suas vozes se somem aos nossos cantos para enfrentar esses ataques que buscam destruir não só os povos indígenas, mas todos aqueles que se recusam a falar somente a língua do dinheiro, dos colonizadores, bandeirantes, ruralistas : nossos atuais governantes.

Essa declaração recordou-me de uma conversa que tive com Mayra Fonseca, amiga e antropóloga, sobre como para os povos indígenas, a pintura assim como a palavra pronunciada não representar uma outra coisa que se não o que elas realmente são. É essa dimensão mágica, incorruptível e que só se realiza através da intenção naquilo que se materializa, que fomos violentados a nos afastar em nome da "palavra fria", tal como chama os índios Guarani ao referir-se às promessas do Congresso Nacional feitas para nos afastar cada vez mais da natureza e colocar em risco a própria condição da existência humana. Como a natureza sempre ganha, êh Cruviana!, é tempo da nossa natureza se manifestar.

Saiba mais sobre o decreto do governo Michel Temer, que extingue a Reserva Nacional do Cobre e Associados (Renca), uma área com mais de 4 milhões de hectares na divisa do Sul e Sudoeste do Amapá com o Noroeste do Pará.

Nota da Bravo!: quando esse texto foi publicado, o presidente Michel Temer havia cedido à pressão popular e voltado atrás, retirado o decreto que extinguiria a Renca.