"Últimos dias em Havana" homenageia clássico "Morango e Chocolate"
Filme dirigido por Fernando Perez mostra amizade entre Diego, doente terminal, e Miguel, contrário ao regime socialista

Encerrados num apartamento, os amigos Diego (Jorge Martínez) e Miguel (Patricio Wood) lidam com o fardo de uma doença terminal – Diego é gay, portador de aids — e o desgosto de Miguel pela vida cubana. Seu sonho é ir para os Estados Unidos. Claramente inspirado num dos principais filmes produzidos em Havana, Morango e Chocolate (Fresa y Chocolate, de Tomás Gutiérrez Alea), o diretor de Suite Havana e Hello Hemingway volta aos cinemas do país com Últimos Dias em Havana.
Por e-mail, Perez topou responder a algumas perguntas da Bravo! em meio às gravações de um novo filme.
Quanto tempo você demorou para produzir Últimos Dias em Havana? Há inspiração em histórias reais?
A ideia surgiu quando apareceu em minha casa Abel Rodríguez, que me disse: "Você não me conhece, trabalho em um banco, mas gosto de escrever parar cinema e trouxe um roteiro". Li e me interessou muito pela autenticidade dos personagens, diálogos e contexto. Mas a história me recordava muito ao filme "Morango e Chocolate", e declinei. Abelito não se acanhou e me disse: "Tenho outras três histórias". De uma dessas três surgiu o roteiro de Últimos Dias em Havana, que escrevemos durante um ano.
Creio que há muitas vivências pessoais de Abel na história, mas ao final se trata de uma história universal que reflete problemas latentes em nossa sociedade e que não aparecem com frequência em outros meios de comunicação — de Cuba ou fora de Cuba.
A produção definitiva aconteceu 3 anos depois, quando José María Morales, de Wandavision (Espanha) apresentou o projeto a Ibermedia em coprodução com o ICAIC (Instituto Cubano del Arte e Industria Cinematográficos). Com o financiamento da Ibermedia filmamos em 30 dias durante o sufocante verão habanero de 2016.
Assim que vi a temática do filme e o nome do personagem (Diego), me lembrei do clássico Morango e Chocolate. É uma homenagem? Como o cinema cubano tem tratado a questão LGBT?
Fresa y Chocolate é um filme emblemático do cinema cubano e um dos mais significativos de Tomás Gutiérrez Alea (que foi meu professor e de muitos outros cineastas cubanos). Também foi o primeiro filme que abordou o tema gay em nossa cinematografia. Últimos Dias em Havana é, portanto, uma homenagem aberta a esse filme e seus criadores.
Hoje em dia são numerosos filmes que têm tornado mais rica a visão sobre este tema, como Vestido de Novia (Marilyn Solaya), Fátima (Jorge Perugorría), Verde Verde (Enrique Pineda Barnet), Santa y Andrés (Carlos Lechuga), entre outras.
No seu trabalho se percebe algumas críticas ao regime cubano, mas também um grande amor pelo país e pelo povo cubano. O que pensa da atual situação de Cuba?
Realmente não me sinto como um crítico. Mais que fazer um cinema contestatório, tento fazer um cinema verificador, quer dizer, um cinema que reflita, constate e mostre a complexidade de nossa realidade sem reduzi-la a uma visão crítica. Havana é meu lugar no mundo porque em nenhum outro lugar posso me sentir tão criativo como aqui. Suas luzes e sombras fazem parte da minha vida e são minha motivação. Sempre caminharei por suas ruas para que a ideia de um filme surja em mim.
Nesse momento Cuba vive uma época de transformações que confio que nos levem a melhorar a situação econômica e social que em alguns aspectos não pode continuar como está.

Como anda a produção de cinema cubano? Algo que destaque?
Depois da crise dos anos 1990 em que o cinema cubano perdeu sua dinâmica, a produção de filmes está se recuperando. O fenômeno mais importante é que surgiu um cinema independente que não espera a indústria para se realizar. Essa produção com poucos recursos, alternativa e feita fundamentalmente por jovens já é uma realidade que segue enriquecendo nossa cinematografia.
Como vê os atuais retrocessos entre as relações de Cuba e Estados Unidos no governo Trump?
O governo Trump significou um retrocesso não só para o diálogo com Cuba, senão para o equilíbrio do nosso planeta. Confio que o diálogo entre Cuba e EUA siga em frente como resultado natural da vontade de nossos povos, e não de circunstâncias políticas.
Últimos Dias em Havana (Últimos Días en La Habana)
de Fernando Perez
com Patricio Wood, Jorge Martínez, Yailene Sierra
Cuba, Espanha — 2017–93min

