10 momentos matadores do Novas Frequências 2016

Dissonantes, na foto Leandra Lambert (mic) e Carla Boregas

O Novas Frequências se consolidou não apenas como o principal festival do Rio de música nova (ou moderna ou avançada ou qualquer outro rótulo que se queira dar para a reunião de artistas que buscam as fronteiras do fazer musical), mas como o festival mais interessante no país hoje.

O casting de artistas conta muito, porém o que vale mais é o conjunto da obra. A estrutura, que envolve diferentes locais na cidade em formatos diversos de apresentações, e a abrangência do que o festival cobre: instalações sonoras, shows, obras de localização específica, além de rodadas de negócios.

Neste ano, perdi apenas um dia de festival, o encerramento. Então, se foi a coisa mais incrível que aconteceu em todas as edições do Novas Frequências até agora, paciência. Tinha de estar em São Paulo na quinta. Mas de sábado (3/12) a quarta (7/12) deu para ver muita coisa boa e, do que vi, separar as dez melhores para a Bravo!, sem ordem de preferência.

Julien Desprez apresenta: Acapulco Redux

Tudo escuro no teatro do Galpão Gamboa. As pessoas se acomodam em pé num semicírculo fora dos limites montados por luminárias de chão de LED. O guitarrista francês Julian Desprez, membro da plataforma SHAPE de música inovadora européia, toca umas poucas notas, música de inseto, e as luzes se acendem, respondendo à guitarra. Durante cerca de meia hora, somos levados entre luz, sombra e breu pela guitarra de Desprez, numa improvisação livre, mas ultraperformática em que as guitarras e os diferentes efeitos tirados a partir de uma infinidade de pedais acentuam essa experiência sinestésica, ora suave, ora jazzista, ora quase roqueira e epilética.

Xiu Xiu

A banda californiana já teve várias formações. Nesse show, estavam apenas o seu criador, o guitarrista Jamie Stewart, e a tecladista Angela Seo. Confesso que gostava mais do Xiu Xiu quando tinha mais músicos ou pelo menos uma percussão a mais. No show de sábado, o nível de melodrama e falsete das primeiras músicas chegava a enjoar, Stewart navegava pela aquela corrente do country alternativo lamurioso, com uma voz próxima a de um Chris Isaak, com lampejos de um Antony Hegarty sem carisma. A sensação de uma certa cafonice, misturada a uma previsibilidade e uma tonalidade certinha pareciam pôr o show a perder. O teclado de Seo não estava bem equalizado no mix, quase não se ouvia nas primeiras músicas, e deixava o show ainda mais decepcionante. Nada parecido com o Xiu Xiu de discos como La Forêt e Fabulous Muscles. Mas do meio do show para frente, a dupla engrenou. A doçura deu lugar ao atrevimento, os elementos abrasivos fizeram as músicas crescerem, saírem de uma autocomiseração gay que tendia ao pastiche para momentos sublimes de dor e confronto, praticamente apagando o início deplorável.

Tantão com God Pussy e Lê Almeida

À frente do icônico Black Future, Tantão se tornou uma lenda do pós-punk brasileiro. Abrindo os trabalhos no domingo, elevou o nível de anarquia e loucura, numa apresentação de noise improvisado com o genial God Pussy comandando a barulheira e Lê Almeida botando fogo com sua bateria, guitarra e mesa de ruídos. Foi épico, ponto para Chico Dub, que juntou os três. A interação entre Lê Almeira e God Pussy foi perfeita, fazendo uma cama ruidosa para Tantão, que balançava a pança e comandava a massa. As pessoas que chegaram para o primeiro show da noite enlouqueceram e, contrariando a etiqueta do festival, o trio teve de fazer um bis. Tinha visto o God Pussy solo uma semana antes no festival Música Estranha e a única coisa que posso dizer é que adoraria que ele tivesse usado um esmeril no show do Rio também.

Rakta

O show do Rakta foi uma revelação para mim, um dos shows que mais gostei no festival, tanto que escrevi um texto só para ele. Rakta tem uma origem punk, na verdade mais pós-punk, mas não se prende a referências, vai além. O show foi excelente do começo ao fim, a banda faz um som psicodélico sem ser hippie, e as canções, ou canções expandidas, são muito originais, tem a mistura perfeita de estranheza e familiaridade. Fora que as três integrantes têm uma presença forte no palco.

Vincent Moon + Rabih Beaini + Priscilla Telmon apresentam Cosmogonia

Na passagem de som, já com o público na sala, os três começaram a entoar uns cantos e colocar uns incensos com cheiro de casa de macumba. Confesso que achei que a noite tinha acabado. Como é bom dar com os burros n’água quando se é preconceituoso. Cosmogonia foi um dos trabalhos mais poéticos que vi no festival. Uma apresentação de cinema ao vivo irretocável. Com base em imagens religiosas coletadas ao redor do mundo nos últimos 10 anos, em lugares que vão do Peru a Chechênia, do Brasil ao Vietnã, o cineasta Vincent Moon mixa em tempo real imagens voltadas a diferentes tipos de misticismo, do sufismo ao candomblé, das religiões ayahuasqueiras ao cristianismo. Ao mesmo tempo, Rabij Beaini processa a música dos filmes, enquanto Priscilla Telmon improvisa nos vocais e num tambor. A sala toda assistiu em transe.

Dissonantes apresenta: Carla Boregas + Leandra Lambert + Natacha Maurer + Paula Rebellato + Renata Roman

Segunda-feira foi o dia mais radical de improvisação eletrônica. Tomando de assalto a Audio Rebel, cinco paulistanas fizeram um show memorável, apostando numa espécie de contínuo dissonante. A apresentação começou com um diálogo entre Natasha Maurer e sua torre, instrumento feito de diferentes cordas e tocado com arco, e Renata Roman. A partir daí, foram sendo feitas as trocas, primeiro Renata, que estava gerando sons no laptop deixou o palco para a entrada de Leandra Lambert, que começou a improvisar em cima da voz. Depois, Natasha saiu. Carla Boregas, baixista do Rakta, subiu ao palco e iniciou sua improvisação com bases pré-gravadas, vozes, e ruídos eletrônicos, trabalhando em conjunto com Leandra. Leandra saiu para a entrada de Paula Rebellato, do Rakta e também conhecida pelo seu projeto solo Acavernus. As duas companheiras de banda tocaram juntas até Paula ficar solo com seus improvisos de sintetizador e voz. Para o final, apoteótico, todas voltaram ao palco. Mesmo com tantos estilos diferentes, houve um flow muito interessante, respeitando as diferentes linguagens e abordagens em relação à improvisação.

Stephen Grew

Terça-feira, o Novas Frequências entrou na reta final ocupando o teatro Oi Futuro, em Ipanema. Foi a noite mais próxima do jazz. Começou com uma apresentação de tirar o fôlego do pianista britânico Stephen Grew, outro membro da plataforma SHAPE, que tocou três peças. Usando o instrumento por completo, das teclas às cordas, Grew mostrou ser um mestre dos polirritmos. Suas frases são de uma velocidade impressionante, cascatas de notas parecem estabelecer diálogos internos muito ricos. Ao mesmo tempo, apesar do volume quase inumano de notas, as ideias musicas das peças são concisas, às vezes divertidas, altamente percussivas e originais.

Interregno Trio

Um dos momentos mais divertidos e musicalmente ricos do festival foi o segundo show da terça-feira. João Meirelles, Edbrass Brasil e Romulo Alexis começam juntinhos, cada um com uma bexiga na mão, tirando um som do ar que escapa entre os dedos. João então segue para comandar a parafernalha de live eletronics, Romulo vai para o trompete e Edbrass empunha uma mangueira com uma boca de funil. A partir daí os três partem para um improviso furioso, trocando de posição e de instrumentos, aproveitando a teatralidade das construções caseiras. No meio do show, Edbras faz um solo girando a mangueira com tanto suingue que parecia que Hermeto estava na sala. Mesmo sendo teatral e um pouco cômica, a música do Interregno não é nada banal. Como funciona bem a mescla de jazz, drone, música folclórica e eletrônica do trio.

Ulf Langheinrich apresenta Full Zero

Toda obra tem seu lado aberto, então vou apresentar a viagem que tive durante a exibição dessa obra. Em Full Zero, o austríaco Ulf Langheinrich explora a interação entre música e uma gravação em vídeo da performance da dançarina chinesa radicada na Alemanha Maureen Law. Numa tela vermelha, Ulf brinca com a imagem da cabeça da bailarina, acelerando, usando câmera lenta, dançando com a cabeça. Da plateia, o que vi foi mais do que uma dança, foi a música envolvendo Maureen num ritual sexual. Um jogo de fauno e ninfa, sustentando diversos orgasmos, mas sempre da perspectiva feminina. Talvez eu tivesse numa quarta-feira meio pervertida, mas foi esse jogo sexual que fez minha atenção ficar 100% presa na performance.

Daniel Limaverde apresenta Sweetspot

Criada especialmente para o Novas Frequências, Sweetspot não é uma performance. É um conjunto de seis faixas, localizadas por latitude e longitude, gravadas em audio 3D, uma técnica que permite uma espacialidade ao ouvir em fones de ouvido. A ideia é dar a impressão de que os eventos retratados em cada peça estejam ocorrendo no espaço ao redor do ouvinte, captando a ambiência dos lugares. Passei uma tarde percorrendo os lugares das faixas. Foi maravilhoso. Mas teve um efeito colateral indesejado. Voltei para São Paulo com dengue, o que fez esse texto sair num ritmo, digamos, dolente.

Abaixo, reproduzo as faixas com um selfie em cada um dos lugares apontados pelas coordenadas, seguindo não a ordem das faixas, mas do percurso que tracei no Google Maps e segui. As fotos vão entregar um pouco o lugar, mas decidi não dizer exatamente onde é para guardar um pouco da graça da descoberta. O mais legal é a sua reação ao ouvir a música naquele ambiente. Principalmente para quem está fora de casa, o clima de caça ao tesouro é bem divertido. Se você estiver no Rio, é muito bacana refazer esse percurso, mas recomendo fortemente o uso de repelente.